Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
6 minutos min de leitura
Oferecido por:

O futuro que queremos construir e as conversas difíceis que precisamos ter!

Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica - e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Compartilhar:

Dia 3 do festival, e já temos tanto para falar em tão pouco tempo. Escrevo direto de Austin com a cabeça cheia de referências. A experiência do South by Southwest começa antes mesmo de entrar em qualquer painel. No aeroporto, nos cafés e nas filas de credenciamento, é fácil identificar quem está indo para o mesmo lugar. Fundadores, cientistas, artistas, executivos, investidores e pesquisadores que compartilham uma curiosidade comum: tentar entender para onde o mundo está indo.

Desde 1987, o SXSW se consolidou como um dos poucos eventos globais onde tecnologia, cultura, ciência e negócios se encontram simultaneamente para discutir o futuro. Mas o que se percebe com clareza na edição deste ano é uma mudança no tom das conversas.

A inteligência artificial continua no centro da agenda, modelos cada vez mais poderosos, agentes autônomos, aplicações em ciência, educação, saúde e criatividade. Porém, ao contrário de anos anteriores, o debate deixou de ser apenas tecnológico. Ele passou a ser profundamente humano e o que vai acontecer com a humanidade com tanta coisa que está mudando. 

Entre os temas mais comentados nas principais sessões está justamente essa tensão: como navegar um momento em que as capacidades das máquinas avançam rapidamente, enquanto a sociedade ainda tenta entender quais são as implicações desse avanço.

A futurista Amy Webb, uma das vozes mais aguardadas do festival todos os anos, trouxe uma provocação interessante ao discutir os grandes ciclos tecnológicos. Em sua apresentação, ela alertou que estamos vivendo um período de “creative destruction”, em que tecnologias emergentes não apenas criam novos mercados, mas também desmontam estruturas econômicas e institucionais existentes. 

Mais do que tendências isoladas, Webb argumenta que o momento atual é marcado pela convergência entre inteligência artificial, biotecnologia, computação avançada e novos modelos de dados, um fenômeno que já foi descrito em seus relatórios como um “technology supercycle”, capaz de redefinir indústrias inteiras. E falando em relatório de tendências, esse deixa de existir e passamos a ter agora o relatório de convergências. 

Amy Webb no palco do SXSW 2026 | Foto: Alessandra Fu

Ela resume essa ideia de forma simples: “Se parece que a tecnologia está em todos os lugares ao mesmo tempo, é porque está.” O que antes eram tendências separadas agora se tornam sistemas interconectados que se reforçam mutuamente.

Esse fenômeno leva a um segundo conceito central apresentado no relatório: “creative destruction”. A expressão, originalmente usada pelo economista Joseph Schumpeter, descreve períodos em que estruturas econômicas existentes são desmontadas para dar lugar a novos sistemas, ela argumenta que a transformação tecnológica atual não é apenas uma evolução incremental – trata-se de uma reorganização estrutural de indústrias inteiras.

Para líderes empresariais, essa leitura tem implicações estratégicas profundas.

Outra linha importante de discussão aparece nas conversas sobre futuro e impacto social. Em painéis sobre inovação e transformação sistêmica, pensadoras como Trista Harris reforçam que tecnologias emergentes só produzem impacto positivo quando acompanhadas de novas estruturas institucionais e modelos de governança. O desafio não é apenas criar soluções, mas garantir que elas sejam implementadas de forma equitativa e sustentável.

Esse ponto conecta diretamente com outra discussão recorrente do festival: a saúde social.

A pesquisadora Kasley Killam trouxe novamente para o debate a ideia de que saúde humana não pode mais ser entendida apenas como equilíbrio físico ou mental. Relações sociais, pertencimento e conexão estão se tornando indicadores centrais de bem-estar em sociedades cada vez mais digitalizadas.

Essa perspectiva aparece cada vez mais em pesquisas globais sobre solidão, pertencimento e impacto das redes sociais na saúde coletiva, um tema que dialoga diretamente com o crescimento da inteligência artificial e das interações mediadas por tecnologia.

Mas o conceito da vez e que marcou a abertura do evento foi o da escritora e pesquisadora Jennifer Wallace, que trouxe uma reflexão importante sobre um conceito que aparece repetidamente no SXSW deste ano: “mattering”.

Jennifer Wallace no palco do SXSW 2026 | Foto: Alessandra Fu


As pessoas precisam sentir duas coisas para experimentar pertencimento real: sentir que são valorizadas e perceber que agregam valor ao mundo ao seu redor. Essa ideia se torna especialmente relevante em um momento em que algoritmos, automação e plataformas digitais começam a ocupar cada vez mais espaços tradicionalmente humanos.

Se parte da sociedade teme a substituição de trabalho humano por máquinas, a pergunta mais profunda talvez seja outra: como preservar o senso de significado em um mundo altamente automatizado?

Essa discussão se conecta com uma visão mais sistêmica sobre tecnologia apresentada por futuristas como Neil Redding. Em sua sessão sobre liderança em um futuro próximo impulsionado por IA, o argumento central é que a nova função dos líderes não será competir com as máquinas, mas orquestrar sistemas complexos onde humanos e inteligências artificiais trabalham juntos.

Isso exige um tipo diferente de liderança, menos focada em controle e mais focada em coordenação, design de sistemas e definição de propósito.

Ao mesmo tempo, discussões vindas do campo científico ampliam ainda mais o horizonte da conversa. O físico teórico Anthony Aguirre trouxe para o festival uma perspectiva que vem ganhando espaço em comunidades científicas: a necessidade de pensar desde já sobre segurança, governança e implicações de longo prazo da inteligência artificial avançada.

Não se trata apenas de riscos técnicos, mas de questões estruturais: quem controla essas tecnologias, como elas são distribuídas e quais instituições serão responsáveis por sua supervisão.

Esse conjunto de conversas revela algo importante sobre o momento atual. O debate sobre inteligência artificial tem que deixar de ser apenas um debate sobre tecnologia, e como digo, ela é meio e não fim. Tudo isso são conversas difíceis pois estão se tornando um debate sobre sociedade.

  • O que significa trabalhar em um mundo onde sistemas inteligentes participam de decisões?
  • Como preservar criatividade, curiosidade e significado quando máquinas conseguem produzir conteúdo em escala?
  • Como redesenhar instituições para lidar com tecnologias que evoluem mais rápido do que regulações?


Talvez por isso uma pergunta silenciosa esteja presente em tantos painéis e conversas informais pelos corredores do SXSW. O que realmente nos torna humanos?

Acreditamos que inteligência era a característica central que nos diferenciava das máquinas. Resolver problemas, escrever textos, analisar dados, produzir arte. A evolução recente da inteligência artificial mostrou que muitas dessas capacidades podem ser replicadas, ao menos em parte, por sistemas computacionais.

Isso não diminui a importância da tecnologia, mas nos obriga a olhar com mais atenção para aquilo que permanece exclusivamente humano.

Consciência.
Intenção.
Curiosidade.
Imaginação.
Capacidade de atribuir significado.

A inteligência artificial amplia possibilidades, acelera descobertas científicas e expande a criatividade, mas ela não define propósito, o propósito continua sendo uma construção humana. E talvez essa seja a principal conclusão das conversas que estão acontecendo em Austin neste momento.

Estamos entrando em uma nova fase da revolução tecnológica, uma fase em que a pergunta central deixa de ser apenas o que as máquinas podem fazer, e passa a ser o que nós, como sociedade, queremos fazer com elas.

Compartilhar:

Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Liderança
14 de setembro de 2026 08H00
Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

Oferecido por:
11 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

Oferecido por:
0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
11 de setembro de 2026 08H00
Mais do que dominar ferramentas, o desafio da liderança passou a ser tomar decisões, engajar pessoas e construir crescimento em um ambiente de incerteza permanente.

Eduardo Raffaini - Sócio-líder de Soluções de Strategy da Deloitte

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

Oferecido por:
2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

Oferecido por:
10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução