Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
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O futuro que queremos construir e as conversas difíceis que precisamos ter!

Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica - e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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Dia 3 do festival, e já temos tanto para falar em tão pouco tempo. Escrevo direto de Austin com a cabeça cheia de referências. A experiência do South by Southwest começa antes mesmo de entrar em qualquer painel. No aeroporto, nos cafés e nas filas de credenciamento, é fácil identificar quem está indo para o mesmo lugar. Fundadores, cientistas, artistas, executivos, investidores e pesquisadores que compartilham uma curiosidade comum: tentar entender para onde o mundo está indo.

Desde 1987, o SXSW se consolidou como um dos poucos eventos globais onde tecnologia, cultura, ciência e negócios se encontram simultaneamente para discutir o futuro. Mas o que se percebe com clareza na edição deste ano é uma mudança no tom das conversas.

A inteligência artificial continua no centro da agenda, modelos cada vez mais poderosos, agentes autônomos, aplicações em ciência, educação, saúde e criatividade. Porém, ao contrário de anos anteriores, o debate deixou de ser apenas tecnológico. Ele passou a ser profundamente humano e o que vai acontecer com a humanidade com tanta coisa que está mudando. 

Entre os temas mais comentados nas principais sessões está justamente essa tensão: como navegar um momento em que as capacidades das máquinas avançam rapidamente, enquanto a sociedade ainda tenta entender quais são as implicações desse avanço.

A futurista Amy Webb, uma das vozes mais aguardadas do festival todos os anos, trouxe uma provocação interessante ao discutir os grandes ciclos tecnológicos. Em sua apresentação, ela alertou que estamos vivendo um período de “creative destruction”, em que tecnologias emergentes não apenas criam novos mercados, mas também desmontam estruturas econômicas e institucionais existentes. 

Mais do que tendências isoladas, Webb argumenta que o momento atual é marcado pela convergência entre inteligência artificial, biotecnologia, computação avançada e novos modelos de dados, um fenômeno que já foi descrito em seus relatórios como um “technology supercycle”, capaz de redefinir indústrias inteiras. E falando em relatório de tendências, esse deixa de existir e passamos a ter agora o relatório de convergências. 

Amy Webb no palco do SXSW 2026 | Foto: Alessandra Fu

Ela resume essa ideia de forma simples: “Se parece que a tecnologia está em todos os lugares ao mesmo tempo, é porque está.” O que antes eram tendências separadas agora se tornam sistemas interconectados que se reforçam mutuamente.

Esse fenômeno leva a um segundo conceito central apresentado no relatório: “creative destruction”. A expressão, originalmente usada pelo economista Joseph Schumpeter, descreve períodos em que estruturas econômicas existentes são desmontadas para dar lugar a novos sistemas, ela argumenta que a transformação tecnológica atual não é apenas uma evolução incremental – trata-se de uma reorganização estrutural de indústrias inteiras.

Para líderes empresariais, essa leitura tem implicações estratégicas profundas.

Outra linha importante de discussão aparece nas conversas sobre futuro e impacto social. Em painéis sobre inovação e transformação sistêmica, pensadoras como Trista Harris reforçam que tecnologias emergentes só produzem impacto positivo quando acompanhadas de novas estruturas institucionais e modelos de governança. O desafio não é apenas criar soluções, mas garantir que elas sejam implementadas de forma equitativa e sustentável.

Esse ponto conecta diretamente com outra discussão recorrente do festival: a saúde social.

A pesquisadora Kasley Killam trouxe novamente para o debate a ideia de que saúde humana não pode mais ser entendida apenas como equilíbrio físico ou mental. Relações sociais, pertencimento e conexão estão se tornando indicadores centrais de bem-estar em sociedades cada vez mais digitalizadas.

Essa perspectiva aparece cada vez mais em pesquisas globais sobre solidão, pertencimento e impacto das redes sociais na saúde coletiva, um tema que dialoga diretamente com o crescimento da inteligência artificial e das interações mediadas por tecnologia.

Mas o conceito da vez e que marcou a abertura do evento foi o da escritora e pesquisadora Jennifer Wallace, que trouxe uma reflexão importante sobre um conceito que aparece repetidamente no SXSW deste ano: “mattering”.

Jennifer Wallace no palco do SXSW 2026 | Foto: Alessandra Fu


As pessoas precisam sentir duas coisas para experimentar pertencimento real: sentir que são valorizadas e perceber que agregam valor ao mundo ao seu redor. Essa ideia se torna especialmente relevante em um momento em que algoritmos, automação e plataformas digitais começam a ocupar cada vez mais espaços tradicionalmente humanos.

Se parte da sociedade teme a substituição de trabalho humano por máquinas, a pergunta mais profunda talvez seja outra: como preservar o senso de significado em um mundo altamente automatizado?

Essa discussão se conecta com uma visão mais sistêmica sobre tecnologia apresentada por futuristas como Neil Redding. Em sua sessão sobre liderança em um futuro próximo impulsionado por IA, o argumento central é que a nova função dos líderes não será competir com as máquinas, mas orquestrar sistemas complexos onde humanos e inteligências artificiais trabalham juntos.

Isso exige um tipo diferente de liderança, menos focada em controle e mais focada em coordenação, design de sistemas e definição de propósito.

Ao mesmo tempo, discussões vindas do campo científico ampliam ainda mais o horizonte da conversa. O físico teórico Anthony Aguirre trouxe para o festival uma perspectiva que vem ganhando espaço em comunidades científicas: a necessidade de pensar desde já sobre segurança, governança e implicações de longo prazo da inteligência artificial avançada.

Não se trata apenas de riscos técnicos, mas de questões estruturais: quem controla essas tecnologias, como elas são distribuídas e quais instituições serão responsáveis por sua supervisão.

Esse conjunto de conversas revela algo importante sobre o momento atual. O debate sobre inteligência artificial tem que deixar de ser apenas um debate sobre tecnologia, e como digo, ela é meio e não fim. Tudo isso são conversas difíceis pois estão se tornando um debate sobre sociedade.

  • O que significa trabalhar em um mundo onde sistemas inteligentes participam de decisões?
  • Como preservar criatividade, curiosidade e significado quando máquinas conseguem produzir conteúdo em escala?
  • Como redesenhar instituições para lidar com tecnologias que evoluem mais rápido do que regulações?


Talvez por isso uma pergunta silenciosa esteja presente em tantos painéis e conversas informais pelos corredores do SXSW. O que realmente nos torna humanos?

Acreditamos que inteligência era a característica central que nos diferenciava das máquinas. Resolver problemas, escrever textos, analisar dados, produzir arte. A evolução recente da inteligência artificial mostrou que muitas dessas capacidades podem ser replicadas, ao menos em parte, por sistemas computacionais.

Isso não diminui a importância da tecnologia, mas nos obriga a olhar com mais atenção para aquilo que permanece exclusivamente humano.

Consciência.
Intenção.
Curiosidade.
Imaginação.
Capacidade de atribuir significado.

A inteligência artificial amplia possibilidades, acelera descobertas científicas e expande a criatividade, mas ela não define propósito, o propósito continua sendo uma construção humana. E talvez essa seja a principal conclusão das conversas que estão acontecendo em Austin neste momento.

Estamos entrando em uma nova fase da revolução tecnológica, uma fase em que a pergunta central deixa de ser apenas o que as máquinas podem fazer, e passa a ser o que nós, como sociedade, queremos fazer com elas.

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Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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