Durante décadas, as organizações trataram a liderança como um exercício predominantemente racional. Esperava-se que executivos fossem figuras analíticas, resilientes, orientadas a resultados e capazes de tomar decisões difíceis sob pressão. E as emoções eram toleradas apenas na medida em que não interferissem no desempenho. É claro que esse modelo produziu eficiência, escala e crescimento, mas também normalizou um efeito colateral cada vez mais visível e perigoso: a imaturidade emocional e suas consequências em cargos de poder.
Hoje, esse tema deixou de ser apenas uma questão comportamental ou de clima organizacional para tornar-se um risco estratégico. Ambientes tóxicos, decisões defensivas, culturas de medo e a erosão da confiança institucional estão, com frequência, menos ligados à falta de competência técnica e mais à incapacidade emocional de quem lidera.
A figura do líder equilibrado, autocontrolado, sempre racional e imune a conflitos internos é, em grande medida, um mito. Não devemos esquecer que líderes são seres humanos expostos a pressões intensas, expectativas contraditórias e jogos de poder permanentes. O problema não está em sentir medo, insegurança ou ambivalência, mas começa quando esses estados internos não são reconhecidos pelo(a) líder e passam a governar decisões de forma inconsciente.
A imaturidade emocional na liderança não se manifesta apenas em explosões, gritos ou comportamentos caricatos. Ela pode aparecer também de forma mais sutil, expressas pela dificuldade de lidar com frustrações, na necessidade excessiva de aprovação, na intolerância em lidar com contradições e na tendência de confundir o papel exercido com a própria identidade. Por serem mais sutis, podem ser ainda mais corrosivas. E quando isso acontece, decisões e movimentos deixam de servir ao sistema e passam a proteger o próprio ego.
Nos ambientes corporativos, esse padrão produz efeitos que perturbam as relações, pois líderes emocionalmente imaturos tendem a evitar conversas difíceis, adiam decisões impopulares e se cercam de pessoas que confirmam seus modelos mentais, muitas vezes disfuncionais. O resultado desse padrão é o empobrecimento da inteligência coletiva, a redução da diversidade de pensamento e o aumento de riscos que só se tornam visíveis quando a crise já está instalada.
Evidências relacionadas a riscos psicossociais e saúde organizacional reforçam esse diagnóstico. O aumento de afastamentos por adoecimento mental, a queda consistente no engajamento e o crescimento do turnover voluntário não podem ser explicados apenas por fatores externos. Em muitos casos, estão diretamente relacionados à forma como o poder é exercido no dia a dia por essas lideranças imaturas que criam ambientes emocionalmente inseguros, mesmo quando operam sob discursos modernos e bem-intencionados.
Há um equívoco recorrente nas práticas de desenvolvimento executivo: confundir maturidade emocional com cordialidade ou autocontrole superficial. Maturidade não é evitar conflitos, mas saber atravessá-los preservando as relações. E dependendo do perfil, expressões emocionais são legitimas, desde que a sustentadas por uma confiança incondicional. Mas isso dá trabalho.
Por isso, maturidade emocional não é manter a aparência de equilíbrio, mas administrar tensões internas sem projetá-las sobre os outros. É a prática da sublime lição de William Ury – “separe as pessoas dos problemas”.
Líderes emocionalmente maduros apresentam características observáveis. A primeira delas é a capacidade de separar identidade pessoal do papel organizacional. Eles compreendem que questionamentos sobre suas decisões não são ataques pessoais, pois eles ajudam a ampliar a qualidade dos diálogos, da governança e da própria tomada de decisão. A segunda é a habilidade de lidar com frustrações sem recorrer à negação, rigidez ou ao autoritarismo, reduzindo decisões reativas e ampliando ações mais reflexivas.
Outro aspecto central é a disposição para lidar com informações que geram desconforto. Em contextos complexos, dados frequentemente desafiam as narrativas estabelecidas. Líderes imaturos tendem a rejeitá-los para se proteger. Por outro lado, líderes emocionalmente maduros conseguem sustentar a serenidade e o conforto interno mesmo diante do desconforto externo, revisando premissas e ajustando rotas antes que o custo da negação se torne irreversível.
Esse debate ganha ainda mais relevância quando observamos o papel dos conselhos de administração na escolha dos executivos. Será que as escolhas e a manutenção de líderes em posições críticas continuam privilegiando exclusivamente o histórico de resultados e reputação externa ou já estão considerando critérios emocionais e relacionais na escolha dos executivos?
Tratar a maturidade emocional como tema estratégico não significa psicologizar a liderança. Significa olhar com mais atenção e reconhecer que decisões são tomadas por pessoas inteiras, orientadas por competências, valores, emoções e limites. Ignorar essa realidade não torna a liderança mais objetiva, apenas menos consciente.
O futuro das organizações não pertence a personagens idealizados, mas a adultos emocionalmente preparados para exercer poder em ambientes de alta complexidade. Empresas que compreenderem que a imaturidade emocional é um risco organizacional, e não apenas um problema individual, estarão mais bem posicionadas para sustentar desempenho, confiança e legitimidade ao longo do tempo.
Tudo de bom




