Depois de muitas visitas a empresas, conversas com líderes e anos cuidando de projetos de educação corporativa, tenho percebido um movimento claro: o papel do especialista em aprendizagem mudou radicalmente – e não foi a tecnologia que tornou esse profissional menos relevante. Foi exatamente o contrário.
A inteligência artificial democratizou o acesso ao conhecimento. Hoje, qualquer colaborador consegue aprender sobre quase qualquer assunto em minutos. Relatórios, conceitos técnicos, tutoriais e até análises estratégicas estão a poucos cliques de distância. Mas essa abundância trouxe um efeito colateral importante: nunca tivemos tanto conteúdo disponível e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em transformar aprendizagem em resultado concreto.
É nesse ponto que o especialista em educação corporativa deixa de ser um transmissor de conteúdo e passa a atuar como um conector entre tecnologia, pessoas e estratégia de negócio. O valor não está mais em “ensinar”, mas em desenhar experiências de aprendizagem que façam sentido para o contexto real da empresa e impactem o desempenho no dia a dia.
Dados recentes reforçam essa percepção. Segundo o World Economic Forum, mais de 50% dos trabalhadores precisarão de requalificação significativa até 2027, impulsionados principalmente pela automação e pela IA. Ao mesmo tempo, estudos da McKinsey mostram que apenas uma parcela pequena dos treinamentos corporativos gera impacto mensurável nos indicadores do negócio. O problema não é a falta de investimento, mas a desconexão entre aprendizagem e prática.
Na prática, tenho visto muitas empresas apostarem em treinamentos rápidos, superficiais e pouco contextualizados, acreditando que o uso de tecnologia por si só resolve o desafio. A IA, quando mal utilizada, pode amplificar esse problema: gera conteúdos genéricos em escala, mas não garante mudança de comportamento, tomada de decisão melhor ou aumento de performance.
Por isso, entendo que o especialista em educação corporativa assume hoje um papel muito mais estratégico: o de arquiteto de experiências de aprendizagem. É esse profissional que precisa curar conteúdos, combinar tecnologias como IA, realidade virtual ou vídeos interativos, e estruturar jornadas que dialoguem com os desafios reais da organização – seja aumentar produtividade, melhorar a liderança, reduzir riscos ou sustentar a inovação.
Outro ponto que se torna cada vez mais evidente é que, quanto mais a tecnologia avança, mais essenciais se tornam as competências humanas. Pensamento crítico, capacidade de análise, ética, tomada de decisão e adaptação a cenários complexos não são habilidades que se desenvolvem apenas com acesso à informação. Elas exigem mediação, reflexão, prática e contexto – exatamente onde a educação corporativa bem desenhada faz a diferença.
Nesse cenário, o especialista também passa a ter a responsabilidade de orientar o uso consciente e responsável da IA dentro das organizações. Não se trata apenas de ensinar como usar ferramentas, mas de ajudar líderes e equipes a entenderem limites, riscos e impactos dessas tecnologias nas pessoas, nos processos e na cultura corporativa.
Vivemos um momento em que aprender mais não é necessariamente aprender melhor. O verdadeiro diferencial competitivo está na capacidade de transformar conhecimento em ação, e ação em resultado. Empresas que entendem isso deixam de ver a educação corporativa como custo ou obrigação e passam a tratá-la como um ativo estratégico. Na era da inteligência artificial, o especialista em educação corporativa não perde espaço – ele ganha protagonismo. Porque, em um mundo de informação abundante, o que realmente importa é saber aprender, aplicar e evoluir de forma consistente, alinhada aos objetivos do negócio e às pessoas que o constroem todos os dias.




