Inovação & estratégia
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O que a história nos ensina sobre inovação através da exaptação?

Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.
É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

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Inovar tornou-se um imperativo inegável para o crescimento e a sobrevivência, aplicando-se tanto à realidade das empresas quanto à trajetória dos indivíduos. No entanto, existem mitos que permeiam o conceito de inovação e dificultam sua compreensão plena. Muitos acreditam, equivocadamente, que inovar significa necessariamente criar algo totalmente do zero. Por outro lado, há quem acredite que a inovação é o fruto de processos repetitivos de design e desenvolvimento de ideias, uma visão que pode limitar a percepção sobre como o novo realmente surge. Nesse texto, vamos investigar que, através da lente evolutiva da exaptação, a inovação não é um processo tão inacessível e prescritivo como muitos pensam.

Para ilustrar esse entendimento, permita-me compartilhar uma breve situação de exaptação que uma vez pude participar.  Há alguns anos, em uma instituição financeira australiana, uma equipe de arquitetura desenvolveu um software de uso interno projetado para ler itens e documentos digitais de diferentes projetos da organização. O objetivo principal era mapear dependências entre diversos times e gerar ações para a gestão de caminhos críticos encontrados. Entretanto, a ferramenta não ganhou tração na instituição, deixou de ser utilizada e, com o passar do tempo, o foco da equipe foi redirecionado para outras prioridades. Esse cenário mudou quando a empresa precisou realizar um amplo movimento de adequação de seus produtos e serviços para cumprir regulações de proteção de dados e privacidade. A iniciativa exigiria a mobilização de várias áreas, equipes e parceiros para analisar manualmente diversos sistemas e implementar as adequações necessárias em longos projetos de desenvolvimento de software.

Certo dia, um dos líderes do programa responsável pela implementação das adequações de proteção de dados e privacidade, em uma conversa informal com alguns membros antigos do time de arquitetura, descobriu a existência do antigo software de gestão de dependências e viu que havia certa similaridade com o escopo da demanda que eles tinham como missão.  Ao buscar entender um pouco mais sobre o que o software podia fazer, ele decidiu realizar um experimento. Juntamente com o time de arquitetura que apoiava o projeto, aplicaram o mesmo mecanismo de análise, identificação e acionamento do software para tentar localizar, de maneira assertiva, áreas de vulnerabilidade em diferentes bases de código em relação a dados sensíveis e privacidade de clientes. Os resultados iniciais demonstraram que seria possível utilizar aquele software para automatizar, com cerca de 90% de acurácia, todo o trabalho de análise e identificação dos trechos dos sistemas que precisavam de correção. Como resultado, ao escalar esse experimento para toda a organização, foi possível economizar cerca de 5 meses do programa, que inicialmente teria a duração de 16 meses. Na época eu não percebi, mas essa história ilustra perfeitamente a essência de como é possível inovar através da exaptação de “coisas” já disponíveis no ambiente.


Mas o que é exaptação em termos práticos?

Exaptação é um conceito da biologia evolutiva que descreve o processo pelo qual uma característica ou traço, originalmente selecionado para desempenhar uma função específica, é radicalmente reaproveitado para uma finalidade completamente diferente em um novo contexto, mudando inicialmente sua função, mas não a sua forma/essência. Esse fenômeno foi inicialmente observado na biologia durante evolução das penas nas aves, onde o registro fóssil e os estudos indicam que as penas não surgiram originalmente para permitir o voo, mas sim em dinossauros como estruturas destinadas à termorregulação para manter o calor corporal ou possivelmente para exibição em rituais de acasalamento.

No cenário farmacêutico, o Viagra ilustra bem o conceito de exaptação, uma vez que a Pfizer investiu pesadamente no desenvolvimento de uma medicação com a intenção clara e linear de tratar angina e hipertensão arterial. Durante os ensaios clínicos, a droga não demonstrou a eficácia esperada para o coração, o que na gestão tradicional levaria ao descarte do projeto como um custo afundado, mas a equipe manteve os olhos abertos para os sinais fracos e relatos dos pacientes sobre um efeito colateral específico relacionado à função erétil. Mais recentemente, observamos também o fenômeno do Ozempic e de outros medicamentos similares, originalmente desenvolvidos e aprovados para o tratamento de diabetes tipo 2 com a função de regular a insulina e a glicose no sangue, também foi colateralmente muito eficiente para apoiar o emagrecimento em pessoas com algum tipo de obesidade.

Já no campo da engenharia, a criação do forno de micro-ondas ilustra a exaptação de forma clara, pois sua tecnologia central não nasceu em uma cozinha experimental, mas nos laboratórios de defesa da Raytheon durante a Segunda Guerra Mundial, onde o engenheiro Percy Spencer trabalhava no aperfeiçoamento de magnetrons para radares militares. A inovação emergiu não do cumprimento de um requisito de projeto, mas da curiosidade diante de uma anomalia térmica, quando Spencer percebeu que uma barra de chocolate em seu bolso havia derretido ao se aproximar do equipamento, o que o levou a um insight exaptivo de redirecionar aquela tecnologia de emissão de ondas, originalmente selecionada para a detecção de aeronaves inimigas, para a função radicalmente distinta de aquecer alimentos.

E por fim, a história da CoreWeave é um outro caso bem ilustrativo de exaptação estratégica no campo da tecnologia e dos negócios, pois a empresa transformou uma infraestrutura massiva de processamento gráfico (GPUs), originalmente montada para a função específica de mineração de criptomoedas, em uma plataforma de nuvem de alto valor especializada em inteligência artificial generativa. Diante do colapso da rentabilidade na mineração (o “inverno cripto”), a liderança evitou o descarte desses ativos e recontextualizou seu poder computacional bruto para suprir a escassez global de capacidade para o treinamento de grandes modelos de linguagem (LLMs).


Como cultivar a exaptação nas organizações contemporâneas?

É importante destacar, que serendipidade foi um dos ingredientes para que essas exaptações citadas aqui pudessem acontecer. Serendipidade é definida como a descoberta afortunada e inesperada de algo valioso enquanto se procurava por outra coisa completamente distinta ou mesmo quando não se buscava nada específico. Ela transcende a definição de “sorte cega”, pois exige do observador uma sagacidade aguçada para perceber a utilidade oculta em um acidente que para outros seria apenas um erro ou ruído irrelevante.

Essa mudança de perspectiva precisa ser sustentada por uma engenharia deliberada de interações, pois a exaptação floresce nas zonas de fronteira e nos interstícios da organização, locais muitas vezes negligenciados pela gestão convencional focada em eficiência de silos. É imperativo que os gestores desenhem rituais e fluxos de trabalho que forcem a colisão construtiva entre domínios de conhecimento díspares, criando espaços não planejados que surgem como consequência de outras estruturas e que se tornam reservatórios de potencial criativo. Por exemplo, ao colocar engenheiros de dados para dialogar com equipes de atendimento ao cliente sem uma pauta rígida de entrega, mas com o objetivo de explorar os dados “excedentes” ou “lixo digital” gerados pelas interações com o consumidor, a liderança cria o ambiente propício para que alguém perceba que o subproduto de um processo pode ser a matéria-prima valiosa de outro.

Para que essas descobertas não sejam sufocadas pela imunidade corporativa, que tende a rejeitar o que não está no plano orçamentário, é crucial estabelecer estruturas de sustentação que protejam a experimentação com recursos marginais. Isso significa que o líder deve atuar como um gestor de restrições habilitadoras, utilizando a escassez de recursos novos não como uma desculpa para a inércia, mas como um vetor criativo que estimula as equipes a olharem para dentro e reaproveitarem o que já está pago e disponível.

A habilidade de exaptar depende de um monitoramento contínuo para detectar anomalias, erros e desvios não como falhas de execução, mas como sinais fracos de novas funcionalidades emergentes. A liderança deve treinar seus olhos e os de seus times para não descartarem prontamente o dado que não se encaixa no gráfico ou evitar negligenciar comportamentos aleatórios dos usuários e clientes, pois é exatamente nesse ruído que reside a oportunidade de inovação. Assim como a equipe da Raytheon precisou investigar por que o chocolate derreteu no bolso do engenheiro para inventar o micro-ondas, os gestores contemporâneos precisam criar espaços onde o inesperado é debatido com curiosidade investigativa, transformando a navegação na complexidade em um processo contínuo de descoberta de novos usos para ferramentas existentes, garantindo assim que a organização mantenha sua vitalidade evolutiva em um mercado em constante mutação.

A incorporação do conceito de exaptação ao repertório estratégico das organizações contemporâneas desempenha um papel fundamental na desmistificação da inovação, pois ela desmonta a crença paralisante de que inovar exige necessariamente a invenção de algo inédito a partir do zero ou o aporte massivo de recursos em departamentos de pesquisa e desenvolvimento isolados da realidade operacional. Ao compreendermos o potencial inovador gerado pelo olhar exaptivo, removemos a barreira da escassez e democratizamos o potencial criativo, permitindo que a inovação deixe de ser um evento esporádico e caro para se tornar um hábito contínuo de recontextualização do que já possuímos.

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É Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil e possui uma trajetória de pioneirismo com agilidade e complexidade. Teve trabalhos de grande destaque envolvendo a disciplina Agile Coaching, como a publicação do livro The Agile Coaching DNA, e introduzindo o conceito de plasticidade organizacional para comunidades e organizações. Na Austrália, esteve envolvido em iniciativas de transformação nas áreas financeira e de segurança civil, onde utilizou complexidade aplicada como base do seu trabalho. Mais recentemente foi Diretor de Business Agility para Americas da consultoria alemã GFT.

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