Bem-estar & saúde
8 minutos min de leitura

O que observei quando parei de apenas assistir ao Mind Summit 2026

Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 2ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?
Fundadora e CEO da AB-Global Connections, autora do livro “Inteligência Cultural: Desenvolvendo Competências Globais para o Sucesso Internacional”. Consultora e palestrante especializada em inteligência cultural e negociação global, é professora na Fundação Dom Cabral e poliglota fluente em seis idiomas.

Compartilhar:

Passei dois dias na 2ª edição do Mind Summit com um hábito que tenho em eventos: não observo apenas o conteúdo. Presto atenção também em como as ideias são apresentadas, quais conceitos começam a se repetir, o que realmente me surpreende, como os palestrantes constroem suas narrativas – e até nas pequenas contradições entre o palco e tudo aquilo que acontece ao redor dele.

Talvez por isso uma das minhas primeiras provocações tenha surgido antes mesmo das palestras. Em um evento dedicado à saúde mental, felicidade e bem-estar, encontrei a Heineken 0.0 entre os patrocinadores. É uma cerveja sem álcool, evidentemente. Ainda assim, a associação me fez sorrir – e pensar. Eventos também contam histórias por meio das marcas que escolhem e das ambiguidades que deixam aparecer.

E essa atenção ao contexto acabou acompanhando tudo o que ouvi nos dois dias.

Quando o problema deixa de ser apenas o indivíduo

Uma das ideias que mais atravessou as diferentes conversas foi uma mudança aparentemente simples, mas importante: talvez estejamos exigindo demais das pessoas para resolver problemas que também pertencem ao sistema no qual elas trabalham.

Christina Maslach foi particularmente contundente ao discutir burnout. Ela recorreu à metáfora do canário na mina de carvão: durante muito tempo, mineiros levavam canários para o subsolo porque essas aves eram mais sensíveis a gases tóxicos e serviam como um sinal precoce de que o ambiente havia se tornado perigoso. A analogia é poderosa: quando o canário adoece, o problema não está necessariamente no canário, mas no ambiente ao qual ele está exposto. No trabalho, isso significa que não basta tornar as pessoas mais resilientes e devolvê-las às mesmas condições que contribuíram para o esgotamento. É preciso olhar também para o ambiente.

Essa perspectiva apareceu de outras formas ao longo do evento.

Sonja Lyubomirsky mostrou algo que considero especialmente relevante em tempos de receitas rápidas para felicidade: intervenções de bem-estar não funcionam da mesma maneira para todos. Seus efeitos dependem de fatores como adequação entre pessoa e atividade, frequência, motivação, esforço, apoio social e contexto cultural.

Carla Tieppo, por outro caminho, colocou o cérebro dentro do ambiente contemporâneo: excesso de informação, pressão por desempenho, incerteza, aceleração tecnológica, solidão e dificuldade crescente de sustentar atenção e motivação.

E o debate sobre riscos psicossociais trouxe a mesma questão para dentro da governança organizacional.

Saí dessas conversas com uma impressão forte: bem-estar não pode se transformar em mais uma responsabilidade que a organização transfere para o indivíduo.

Meditação, exercício, autoconhecimento e resiliência podem ser importantes. Mas nenhuma dessas práticas substitui um bom desenho de trabalho, relações saudáveis, liderança responsável e condições organizacionais adequadas.

Em meu trabalho com líderes e equipes que atuam em contextos diferentes, encontro frequentemente uma tensão semelhante: buscamos preparar melhor os indivíduos para lidar com a complexidade sem necessariamente perguntar quanto dessa complexidade é produzida pelo próprio sistema em que trabalham.

Por isso, a discussão sobre bem-estar me interessou menos como uma agenda de benefícios e mais como uma questão de desenho organizacional. Não se trata de escolher entre responsabilidade individual e responsabilidade da empresa. Precisamos das duas – e de clareza para entender onde começa uma e onde a outra não pode ser terceirizada.

Ideias novas ou novas conexões entre ideias?

Também gosto de observar os próprios palestrantes.

Não apenas o que dizem, mas que tipo de pensamento colocam no palco.

Uma das ideias que mais me chamou a atenção na discussão sobre inteligência artificial veio de Jan-Emmanuel De Neve, de Oxford: a distinção entre usar a tecnologia para automation ou para augmentation.

A distinção parece simples, mas muda a pergunta estratégica. Na automação, usamos a tecnologia principalmente para substituir tarefas e capturar ganhos de eficiência. Na augmentation, para ampliar aquilo que as pessoas conseguem fazer – complementando capacidades e redesenhando funções. Na abordagem de De Neve, portanto, a questão deixa de ser apenas “o que a IA pode fazer no lugar das pessoas?” e passa a ser “o que as pessoas podem fazer de maneira diferente quando ampliadas pela IA?”

A palestra de Michelle Schneider sobre o futuro do trabalho levou essa discussão para outro nível. Michelle partiu de uma premissa interessante: a tecnologia já chegou, mas o redesenho do trabalho ainda não. A partir daí, ela organizou essa transformação em três shifts: de fazer o trabalho para arquitetar o trabalho; de especialistas para generalistas ampliados pela IA; e de empregos para trabalho.

O primeiro talvez seja o mais imediato: se agentes de IA começam a executar partes crescentes das tarefas, o profissional deixa progressivamente de ser apenas executor e passa também a desenhar, coordenar e orquestrar o trabalho.

O segundo me parece mais provocador. Michelle propõe uma passagem do especialista para o generalista curioso, ampliado pela IA – alguém com repertório mais amplo, capaz de conectar pontos e, sobretudo, de avaliar e validar aquilo que a tecnologia produz. Aqui tenho uma ressalva: não acredito que isso signifique o fim da especialização. Pelo contrário. Quanto mais fácil se torna produzir respostas plausíveis, mais importante pode se tornar o conhecimento necessário para saber quando uma resposta está errada. Talvez o profissional do futuro precise combinar profundidade em algumas áreas com uma capacidade muito maior de transitar entre outras.

O terceiro shift amplia ainda mais a lente: de empregos para trabalho. Michelle descreveu organizações potencialmente menores e estruturas mais híbridas, nas quais o trabalho se distribui entre funcionários, terceiros, freelancers, profissionais fracionais e agentes de IA. Mais do que discutir se uma determinada profissão desaparecerá, essa perspectiva nos obriga a perguntar como o trabalho será decomposto, distribuído e novamente coordenado.

O interessante foi perceber como essas ideias começavam a se encontrar ao longo do evento. O generalista ampliado pela IA, de Michelle, conversava com a distinção de De Neve entre automation e augmentation. E a discussão sobre redesenhar o trabalho encontrava, por outro caminho, a provocação de Christina Maslach: quando o trabalho produz sofrimento sistematicamente, talvez não seja suficiente tentar adaptar melhor o indivíduo – é preciso olhar para o próprio trabalho.

Foi então que me ocorreu outra pergunta: o que significa, afinal, trazer uma ideia nova?

Produzir conhecimento original é uma coisa. Conhecer profundamente o debate existente é outra. E existe ainda uma terceira competência: reconhecer ideias importantes, conectá-las e construir a partir delas uma narrativa capaz de ajudar outras pessoas a compreender algo complexo.

Ao mesmo tempo, em um ambiente no qual todos temos acesso a quantidades quase ilimitadas de conteúdo, precisamos aprender a distinguir uma ideia realmente nova de uma ideia conhecida apresentada em uma nova embalagem.

Talvez essa distinção se torne ainda mais importante com a inteligência artificial. Se sintetizar informação está ficando cada vez mais fácil, o valor intelectual se desloca para outro lugar: selecionar, relacionar, questionar e interpretar.

Uma experiência memorável é sempre uma ideia memorável?

A abertura do segundo dia me provocou por outra razão.

A programação anunciava: “Quem enxerga antes, lidera antes: uma experiência que transforma percepção em estratégia”.

No palco, tivemos Issao Imamura, uma história pessoal, emoção e ilusionismo. Foi envolvente. Houve surpresa. Houve conexão com a plateia.

Mas saí procurando a resposta para a pergunta implícita no próprio título: afinal, o que significa enxergar antes para liderar antes?

E percebi que minha inquietação não era propriamente uma crítica à apresentação. Era uma reflexão sobre algo que diz respeito a todos nós que trabalhamos com conhecimento, liderança e comunicação: uma experiência memorável não é necessariamente uma ideia memorável.

Storytelling importa. Emoção importa. Forma importa. Mas talvez estejamos entrando em um momento no qual precisaremos novamente exigir mais substância das narrativas que nos seduzem.

Talvez o desafio seja interpretar

Voltei do Mind Summit com muitas anotações sobre felicidade, burnout, foco, inteligência artificial, saúde mental e futuro do trabalho.

Mas meu principal aprendizado talvez tenha acontecido entre essas anotações.

Vivemos um momento curioso. Nunca tivemos acesso tão rápido a tantas ideias, pesquisas, especialistas e interpretações. A inteligência artificial ampliará isso exponencialmente.

Nesse cenário, estar informado deixa de ser suficiente.

Precisamos aprender a distinguir evidência de narrativa, novidade de recombinação, experiência de conteúdo, sintoma individual de problema sistêmico. Precisamos perceber quando diferentes disciplinas estão descrevendo partes do mesmo fenômeno – e também quando uma história muito bem contada está ocupando o lugar de uma ideia que ainda precisa ser demonstrada.

Para quem lidera, isso muda também a natureza das perguntas.

Antes de perguntar como tornar uma equipe mais resiliente, talvez seja necessário perguntar o que, no desenho do trabalho, está exigindo tanta resiliência.

Antes de adotar inteligência artificial apenas para ganhar eficiência, vale perguntar quais capacidades humanas queremos ampliar com ela.

E, diante de uma nova tendência de gestão, talvez a pergunta não seja apenas se a narrativa é convincente, mas em quais evidências ela se sustenta.

Saí do Mind Summit, portanto, menos interessada em acumular respostas e mais interessada na qualidade das perguntas que fazemos.

Porque, diante de um mundo do trabalho que ainda está sendo escrito, interpretar bem talvez seja uma das competências mais importantes para liderar bem.

Compartilhar:

Fundadora e CEO da AB-Global Connections, autora do livro “Inteligência Cultural: Desenvolvendo Competências Globais para o Sucesso Internacional”. Consultora e palestrante especializada em inteligência cultural e negociação global, é professora na Fundação Dom Cabral e poliglota fluente em seis idiomas.

Artigos relacionados

O que observei quando parei de apenas assistir ao Mind Summit 2026

Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 2ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Por que equipes entendem a estratégia e ainda assim não executam?

Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Geopolítica da transição: o país precisa transformar potencial em influência

A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos – energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva – que pode transformar sua posição internacional.

Três hipóteses para redesenhar o primeiro degrau da carreira

A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

O mito da prioridade “pra ontem” (e como não enlouquecer sua equipe)

A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução