Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
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Os benefícios corporativos como alavanca estratégica de negócio

Quando bem interpretados, os sinais do comportamento das equipes deixam de ser rotina e passam a revelar o que realmente sustenta performance, engajamento e resultado.
Natalia Ubilla é diretora de RH no iFood Pago, tendo ingressado no iFood em 2022. Antes, atuou como head de aquisição de talentos na frete.com, foi líder de aquisição de talentos para a América Latina na GE, especialista sênior em aquisição de talentos na Johnson & Johnson para Latam, entre outras posições ocupadas.

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Durante anos, o benefício corporativo ocupou um lugar quase invisível na pauta estratégica das empresas. Era um item de conformidade, uma linha no orçamento de RH, uma obrigação trabalhista. Hoje, vejo esse quadro mudar de forma consistente e acelerada.

O benefício deixou de ser acessório. Ele passou a ser dado de negócio.

Trabalho com isso diretamente. E o que tenho observado não é apenas uma tendência de mercado: é uma mudança estrutural na forma como as organizações entendem o que mantém pessoas engajadas, produtivas e presentes. Não basta oferecer um pacote generoso. É preciso entender como ele é usado, o que esse uso revela e o que ele impede de revelar quando está mal desenhado.

Da oferta para o dado

Quando analisamos o comportamento de uso de benefícios, o que encontramos é inteligência sobre o estado real das equipes. Um colaborador que concentra gastos em saúde por meses consecutivos está comunicando algo. Um time que subutiliza a categoria de educação pode estar sobrecarregado ou pode indicar que a oferta não é relevante para aquele perfil.

Esse tipo de leitura transforma o RH. Em vez de desenhar políticas a partir de pesquisas pontuais e suposições, passamos a tomar decisões com base em comportamento real e continuado. É uma diferença significativa. E isso só é possível quando o sistema de benefícios tem a granularidade necessária para capturar esses sinais.

Avançar de um modelo padronizado para uma gestão orientada por dados não é simples. Exige tecnologia, mas exige também disposição para questionar o que foi construído. Modelos rígidos, criados para uma realidade que já não existe, dificilmente entregam essa leitura.

O papel da IA nessa transformação

A inteligência artificial agêntica está acelerando essa mudança de forma relevante. No iFood, já operamos com mais de 12 mil agentes ativos que apoiam a otimização de processos internos. Os resultados práticos incluem uma redução de até 40% no tempo dedicado a tarefas operacionais dentro da nossa operação.

Esse ganho não é marginal. Ele representa horas de trabalho que o RH pode redirecionar para análise, escuta e decisão estratégica. Mas isso claramente não é suficiente.

A automação de processos operacionais de ponta a ponta libera o RH para atuar onde a máquina não chega: na leitura de contexto, na construção de confiança e na capacidade de fazer perguntas que os dados ainda não conseguem formular sozinhos.

Liderança como condição de entrega

Tem uma coisa que nenhuma tecnologia resolve por si só: o ambiente em que as pessoas trabalham. E esse ambiente é construído, em grande parte, pela qualidade da liderança.

Satya Nadella transformou a Microsoft ao colocar a cultura no centro da estratégia. Não como discurso como critério de decisão. A mudança que ele promoveu foi de mentalidade, e ela precedeu qualquer transformação tecnológica. Marc Benioff, na Salesforce, defende com consistência que bem-estar e equidade não são agenda de RH: são condições para performance sustentável. Ambos mostram, na prática, que liderar bem é uma escolha operacional, não um traço de personalidade.

O que esses casos têm em comum é simples: líderes que criam condições para que as pessoas performem de forma sustentável entregam resultados melhores do que aqueles que apenas cobram resultados. Benefício mal desenhado, liderança ausente e carga excessiva produzem exatamente o mesmo efeito: perda de talentos que custam caro para repor.

Isso não é “abraçar a árvore”. É cálculo de negócio.

Flexibilidade não é concessão

Um dos pontos em que tenho posição clara é sobre a flexibilidade nos benefícios. Não se trata de generosidade corporativa. Trata-se de reconhecer que uma empresa com perfis diversos de colaboradores não pode operar com um modelo único de suporte.

Colaborador em início de carreira, com renda menor, prioriza categorias diferentes de quem tem 45 anos, filhos e plano de saúde familiar. Modelo rígido, nesse contexto é ineficiente. O colaborador não usa o que não precisa, e o RH paga por algo que não gera valor percebido.

Quando o benefício se alinha ao momento de vida de cada pessoa, a percepção de valor aumenta. E a percepção de valor, no contexto de benefícios, é diretamente proporcional à retenção. Não é complexo. O que é complexo é implementar sem perder escala e controle.

O que o RH precisa fazer agora

O campo está aberto para o RH ampliar seu papel dentro das organizações. Mas isso não acontece por decreto. Acontece quando o profissional de pessoas passa a falar a linguagem de resultados e a demonstrar, com dados, que suas decisões impactam a operação.

Benefício como dado. Tecnologia como alavanca. Liderança como condição. São três vetores que, combinados, mudam o que o RH consegue entregar.

A transformação da gestão de pessoas não se mede pelo número de iniciativas lançadas. Mede-se pela experiência concreta que chega ao colaborador e pelo impacto que essa experiência tem nos resultados da empresa. É nesse ponto que a estratégia se torna real.

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