Estratégia e Execução

Os próximos jobs

Quem pode assumir o posto de mentor da inovação na comunidade empresarial, deixado vago com a morte do fundador da Apple? São citados Jeff Bezos, da Amazon, e Elon Musk, da Tesla; por fora corre um novato – Travis Kalanick, do Uber

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Você conhece o Falcon e o New Shepard? São foguetes que, em seus testes em 2016, já conseguiram subir mais de  102 quilômetros acima do nível do mar e pousar com perfeição. Pertencem à SpaceX e à Blue Origin, respectivamente as empresas aeroespaciais dos inovadores Elon Musk e Jeff Bezos. Como recentemente afirmou a revista Fast Company, os dois empresários, mais conhecidos por suas organizações Tesla e Amazon, estão em uma frenética corrida para fazer história – e pelo posto de sonhador-chefe do planeta. Simbolicamente, tanto o Falcon como o New Shepard poderiam ser os novos iPhones. Ambos estão prestes a reinventar os limites da Terra e o estilo de vida de seus habitantes, assim como o iPhone reinventou a computação pessoal, a comunicação e o modo de consumir mídia. Sem se darem conta, Bezos e Musk parecem ter outra disputa em andamento: qualquer um deles pode ser o novo Steve Jobs, ao menos no papel de mentor de empreendedores e pessoas de negócios em geral. Jobs conseguiu, com o alcance de seus movimentos e de sua personalidade, liderar todos os rankings de executivos mais admirados do mundo, em praticamente todos os países. Na prática, isso o tornou uma espécie de mentor a distância de um gigantesco contingente de gestores. Se as pesquisas mostram que startups de empreendedores que têm mentores costumam crescer 3,5 vezes mais rápido do que as que não têm, é possível imaginar o impacto de Jobs sobre os negócios globais. Desde que o fundador da Apple morreu, em outubro de 2011, essa cadeira está vazia. Enquanto uns insistem que ele é insubstituível na capacidade de influenciar a comunidade de negócios, outros especulam sobre quem seria capaz de substituí-lo e, entre estes, as primeiras duas respostas têm sido Bezos e Musk. Estamos comparando laranjas com maçãs? Não. Todos trabalham com tecnologia de ponta e ninguém duvida que Jobs, Bezos e Musk sejam similares em termos de ambição e coragem para fazer as coisas de modo diferente do usual, duvida? Os três também compartilham a personalidade marcante. Seria possível argumentar que, como seus foguetes (ainda) não interferem tanto na vida das pessoas dos diferentes países quanto o iPhone de Jobs, a influência de Bezos e Musk tende a ser menor. Só que tanto Bezos como Musk assinam também reinvenções mais palpáveis, apesar de ainda não tão disseminadas: o primeiro reinventou o varejo (com a Amazon) e a indústria de livros (com o Kindle) e vem mudando a computação pessoal de modo indireto, com sua computação em nuvem; o segundo caminha para reinventar a indústria da energia (com a bateria elétrica doméstica Tesla alimentada pela energia solar da Solar City) e o ato de dirigir (com seu carro Modelo S). 

Ainda há um terceiro nome na corrida de sucessão de Jobs no papel de inspirador, mas, por enquanto, é um azarão: Tra vis Kalanick, o polêmico fundador e CEO do Uber. Com sua empresa, Kalanick está reinventando algo que usa tecnologia e mexe tanto com o cotidiano  dos seres humanos como a computação pessoal e a comunicação: a mobilidade urbana. A seu favor, também exibe uma personalidade extremamente forte (ao que tudo indica, tão difícil como a associada ao fundador da Apple) e, mais importante, o mesmo nível de foco. Diferentemente de Bezos e Musk, que se dividem entre várias frentes de negócios, Kalanick põe todas as suas fichas na cesta do Uber, como fez Jobs com a Apple, em uma concentração capaz de tornar sua voz mais persuasiva. Um dia alguém será uma inspiração tão grande para a comunidade de negócios como foi Jobs? Se sim, quem? A seguir, HSM Management analisa os três candidatos aventados sob a perspectiva da influência.

**JOBS X BEZOS**

Antes de mais nada, Jeff Bezos rejeita qualquer comparação entre ele e Jobs. “Tenho minhas próprias visões e abordagens e ninguém será o próximo Steve Jobs; ele era um cara único”, declarou ao site Mashable. Na superfície, é difícil compará-los mesmo: Jobs lidava com produtos premium, caros, para uma elite, enquanto manter preços baixos é uma obsessão para Bezos, que quer atingir a massa dos consumidores. No entanto, os dois biógrafos de Bezos apontam semelhanças entre ele e Jobs. Richard Brandt, autor de Nos Bastidores da Amazon, crê que a capacidade de ver o todo e também os detalhes é comum aos dois, assim como a preocupação com o design – do produto, em um caso, e do processo, no outro. É notória a obsessão de Bezos com a facilidade de compra na Amazon – compra em um clique. Para Brandt, ainda que de modo distinto, o consumidor está no centro das atividades de ambos, pois a experiência do usuário é privilegiada por Apple e Amazon. Bezos explicita a importância do cliente, como disse à Rotman Management Magazine: “Nosso pensamento é sempre sobre como podemos encantar os clientes; não buscamos a disrupção”. O fundador da Apple até parecia impor as próprias ideias aos clientes, mas o que ele fazia no fundo era design thinking, colocando-se no lugar do usuário, e era intransigente quanto ao bom atendimento ao cliente. Tanto Jobs como Bezos abriram mercados para os empreendedores com suas plataformas. Jobs o fez para os desenvolvedores de aplicativos, que puderam usar o iPod, o iPhone e o iPad como suportes e o iTunes e a App Store para a distribuição. Bezos lançou o Marketplace, que permite a pessoas físicas e empresas vender produtos e até exportar para o exterior. Brad Stone, autor de A Loja de Tudo, destaca o Bezos exigente com os funcionários, que os inspira e também lhes provoca medo, exatamente como rezam as lendas sobre Jobs. E chama a atenção para três premissas gerenciais parecidas entre Jobs e Bezos: apostas de longo prazo, comunicação direta com o consumidor (os dois tornaram seus e-mails públicos e sempre fizeram questão de responder às mensagens pessoalmente) e a moldagem das companhias com uma mentalidade única. Por fim, Stelios Kapantais, da newsletter Daily Hint, observa que tanto Bezos como Jobs construíram culturas em torno da inovação e experimentação. Conforme Kapantais, a crença nos superpoderes da narrativa e das equipes pequenas e o trato implacável com a concorrência para eliminá-la eram outra características compartilhadas entre ambos (o leitor lembra que Jobs tentou comprar o Dropbox antes de lançar o iCloud?).

**JOBS X MUSK**

A opinião de Elon Musk sobre Steve Jobs não é das melhores. “Era um idiota”, já declarou, com a lembrança do dia em que se conheceram. De novo, à primeira vista, o fundador da Tesla é muito diferente do fundador da Apple, porque faz questão de não patentear nenhuma de suas inovações. Porém Musk é o grande herdeiro de Jobs, na visão de quem o conheceu bem – o ex-evangelista Guy Kawasaki. Logo se percebe, por exemplo, que Musk tem o mesmo pendor de Jobs para ser marketeiro dos próprios produtos. O frisson gerado pelos dois no meio empresarial é imbatível e inclui atitude de pop star – se Jobs virou personagem real de dois filmes, é sabido que Musk inspirou o Homem de Ferro interpretado por Robert Downey Jr. na franquia homônima. Por isso, Musk faz um marketing tão bom de seus produtos como Jobs fazia. Por exemplo, Musk lança cartas abertas como manifestos, à moda de Jobs, para defender a experiência de seus usuários. Se Jobs escreveu para reclamar do Flash, da Adobe, por exemplo, Musk escreve sobre seus planos e o que os restringe. Musk consegue criar o mesmo tipo de suspense em torno de seus lançamentos, como comprova um tuíte seu de 2014, que dizia: “Está na hora de revelar o D e algo mais”, com uma enigmática foto de um carro Tesla que lembrava o batmóvel. Do The Washington Post ao The Wall Street Journal, toda a mídia publicou especulações sobre o que seria D, e toda a internet. O Twitter, claro, bombou (até porque o D lembrou os tuiteiros de Dick, gíria para pênis, assim como o iPad de Jobs, anos antes, os havia lembrado de absorvente feminino). As ações da Tesla subiram 6% em uma semana, o que gerou ganho de US$ 2 bilhões. A part deux do plano master de Musk para reinventar o modo como as pessoas dirigem foi revelada em julho último. As novidades vão de caminhões elétricos a pequenos ônibus autônomos que levarão as pessoas até a porta de casa em vez de deixá-las em um ponto predefinido. Part deux é a segunda das cinco etapas do plano, nomeadas em francês pelo empresário, e revela que ele tem a mesma vontade de Jobs de dominar um setor como um todo, não apenas um pedaço. Outra coincidência entre Jobs e Musk está na busca incessante da beleza e da qualidade nos produtos. Não é à toa que os carros Tesla viram objeto de culto da mesma forma que os novos iPhones. Se os segundos fazem as pessoas enfrentarem imensas filas, os primeiros chegam a ser encomendados com um ano de antecedência. Musk provavelmente pensa maior do que Jobs – ele quer fazer a reengenharia do planeta Terra, não só de sua indústria. E executa maior também, como mostra sua Gigafactory, a gigantesca fábrica de baterias que está construindo. Mas existiria Musk sem que Jobs tivesse existido primeiro?

**JOBS X KALANICK**

Na visão de Lauren Holliday, editora do site de negócios SitePoint, o fundador e CEO do Uber é o mais perto que se pode chegar de Jobs. Ela elenca cinco motivos: 

(1) os usuários do Uber são tão fanáticos como os da Apple; 

(2) Kalanick é autêntico e por isso alguns o acham desagradável, como ocorria com Jobs; 

(3) ele entra sempre para ganhar (algo que o ajuda é posicionar os rivais – por exemplo, os taxistas– como inimigos, exatamente como Jobs fez com o Windows); 

(4) recrutar as melhores pessoas é sua prioridade (um exemplo é a contratação do executivo Brian McClendon, que ele tirou do Google Maps); 

(5) as campanhas publicitárias do Uber são originais e criativas (são famosas, por exempo, as que brincam com o concorrente, o Lyft, marcado por um bigode rosa-choque). Mais cinco motivos são: (6) Kalanick é 100% comprometido com o Uber (até se ofende quando lhe perguntam se vai vendê-lo); 

(7) põe os usuários na frente dos lucros; 

(8) enxerga tanto a floresta como as árvores; 

(9) é um rebelde por natureza; 

(10) tem bom gosto, o que fica claro quando diz que “o Uber é eficiência com elegância por cima, como é o iPhone”. 

**QUESTÃO DE GERAÇÃO** 

Se estivesse vivo, hoje Steve Jobs teria 61 anos – um baby boomer. Já Bezos, Musk e Kalanick são membros da geração X, respectivamente com 52, 45 e 40 anos. Talvez a diferença entre eles seja só geracional.

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