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Os sprints de aprendizado

Método, disciplina, foco, compartilhamento: o que motiva nosso aprendizado depois de adultos

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Se o leitor é pai, ou se a leitora é mãe, já deve ter-se visto diante dessa escolha: colocar o filho em uma escola construtivista ou conteudista? Pois o mesmo dilema vem ficando cada vez mais claro no aprendizado de adultos. 

Os tempos atuais passaram a exigir dos profissionais da quarta revolução industrial uma contrapartida ao avanço contínuo das tecnologias, que é o aprendizado contínuo de habilidades – ou “lifelong learning”, como esse novo tipo de comportamento foi batizado. Por isso, da mesma forma como a pedagogia deu origem ao pensamento construtivista e este ganha força, a andragogia propôs conectar o conhecimento à prática – uma questão simples, mas não tão facilmente admitida pelos envolvidos, e que tem relevância crescente. Em outras palavras, o modo mais eficaz, e sustentável, de adultos aprenderem é fazer com que o conhecimento adquirido por eles os ajude efetivamente a resolver seus desafios diários. Se a principal motivação do aprendizado adulto é a necessidade de saber algo, compreender aonde se quer chegar é necessariamente o início do caminho.

Essa andragogia “construtivista” vem tomando diferentes formas, que têm em comum o fato de as pessoas terem aprendizado compartilhado, em grupos; fazerem isso em um prazo delimitado e participarem da formatação do processo de aprender. Destacamos três, voltadas a negócios: rodas de conversa, learning sprint e jogos de tabuleiro.  

**RODAS DE CONVERSA DE EMPREENDEDORES**

Felipe Amaral, fundador da Archipelago e sócio da Mesh, tem incentivado que o aprendizado ocorra em rodas de conversa, e vem testando isso particularmente com empreendedores. Nesse caso, o importante é que não existe uma metodologia prévia. “Os alunos têm de encontrar uma metodologia para aplicar na prática o que estão aprendendo, achando soluções para seus negócios, e isso se dá em ambiente de rede.” 

A dificuldade é apenas fazer escalar esse tipo de metodologia. Por isso, o sócio-fundador da Archipelago fundou também a Semente, startup de desenvolvimento de empreendedores, e está partindo agora para construção de uma comunidade empreendedora virtual, e global, como projeto-piloto. Ele convidou a cofundadora e diretora das TED Conferences, a norte-americana Lara Stein, para ser a curadora do primeiro grupo, que conta com 16 pessoas, de oito países diferentes. 

Basicamente, o grupo se reúne online duas horas por semana para discutir um tema, criar a própria metodologia de estudo e compartilhar experiências e conhecimento em rodas de conversa. “A curadora faz uma provocação e deixa os alunos, reunidos em subgrupos, discutirem e mostrarem suas propostas aos demais”, afirma Amaral. Esse contato tem proporcionado fortalecimento de vínculos entre os participantes, com trocas de experiências também com países do hemisfério Sul.

**LEARNING SPRINT**

O fundador e membro da Teya, Conrado Schlochauer, doutor em aprendizagem de adultos pelo Instituto de Psicologia da USP, criou – com seu colega Alex Bretas – um método chamado learning sprint. Inspirado nas metodologias ágeis do mundo do desenvolvimento de software e dos negócios, tem como objetivo incentivar e instrumentalizar adultos a aprender a aprender. 

O learning sprint é uma jornada de aprendizado autodirigido realizada em grupo. O primeiro passo é apoiar a escolha do aprendizado, por meio de questionamentos do como aprender e para quê. Os grupos – de seis a oito pessoas – que recebem orientação podem ter interesses distintos, mas são incentivados a compartilhar o conhecimento em todos os encontros. 

Como na andragogia, “após a escolha de um tema, discutimos quais serão as fontes desse aprendizado, como buscar esse conteúdo e aproveitá-lo na aplicabilidade desse conhecimento. Incentivamos a aprender não só no conteúdo, mas buscando experiências, pessoas e uma rede que apoie o processo. Além desses caminhos, o learning sprint usa o próprio grupo como fonte de engajamento e troca”, afirma Schlochauer. Em um dos módulos, o participante é convidado a se encontrar com uma pessoa que também tenha estudado o assunto, presencialmente. 

Alguns participantes optam pelo jogo de xadrez como treino de estratégia; outros querem aprender ferramentas de gestão. “O verdadeiro aprendizado do adulto é sempre autodirigido: reconhecermos o que queremos aprender e como vamos usar o conhecimento adquirido, de forma eficiente e rápida”, diz Schlochauer. 

A jornada é composta de oito a dez sessões, que acontecem ao longo de 12 semanas. Os encontros on-line são realizados quinzenalmente, com sessões de uma hora e meia de duração. 

A eficiência do método parte do princípio da automotivação e da formação de rede, além da disciplina e do autoconhecimento. “É prático para quem quer ter o conhecimento específico sem fazer um curso inteiro para isso. Além disso, proporciona uma organização interna e de agenda para que haja avanços progressivos [os sprints] na busca desse aprendizado”, completa Schlochauer.

**JOGOS DE TABULEIRO**

Para trazer o lúdico ao aprendizado empresarial, Flavio Yoshimura, fundador da Treinamundi, juntou-se à Vetor Editora e criou dois jogos de tabuleiro para serem usados em treinamentos, com nomes divertidos – o “Giro de Mindset” e os “Inimigos do Protagonismo”. 

Com um tabuleiro de tecido e cartas, o jogo do Giro de Mindset mostra três situações diferentes: como agimos no cotidiano, como nos comportamos nos relacionamentos amorosos e como fomos criados quando crianças. “A intenção é mostrar como os acontecimentos do dia a dia, como o comportamento amoroso e como as crenças que aprendemos quando crianças nos limitam.”

O Giro de Mindset pode mostrar, por exemplo, como a “Síndrome de Gabriela” no relacionamento amoroso pode impactar a vida organizacional. “Se você se encaixa no perfil de que eu nasci assim, cresci assim e não vou mudar, esse modelo mental está incapacitando a possibilidade de criar relacionamentos mais construtivos, com sensibilidade, por conta dessas crenças adquiridas.”

Da mesma maneira, como fomos criados nos coloca em redomas do que somos ou não capazes de aprender. “A maneira como fomos criados nos tira a curiosidade inata e pode nos levar a ideias que não condizem com a verdade. Qualquer pessoa é capaz de qualquer coisa, desde que tenha uma estratégia de aprendizado, paciência e resiliência.”

Uma das frases motivadoras de Yoshimura é lançar o desafio: “Do que você não era capaz?”, e a partir daí construir uma mudança de visão, com uso de ferramentas para o aprendizado. Para isso, o empoderamento passa pelo segundo jogo, “Inimigos do Protagonismo”, com o qual ele mostra quais são nossos sete inimigos para o protagonismo próprio. “Esse protagonismo é para si mesmo. Por que não consigo tomar decisões em meu ambiente corporativo que vão beneficiar a todos? O jogo mostra que o funcionário, de qualquer área, tem de chamar para si algumas responsabilidades e resolvê-las imediatamente, envolvendo desde o funcionário da copa até o diretor.”

**Técnica remonta ao Brasil dos anos 1960**

Em 1963, educadores do mundo inteiro voltaram seus olhos para Angico, Rio Grande do Norte: em um experimento ousado, 300 adultos analfabetos conseguiram aprender a ler e escrever em 40 horas. Os “círculos de cultura”, nos quais discutiam coisas que tinham significado para suas vidas antes de partirem para o aprendizado silábico, talvez tenham sido o primeiro sprint educacional de que se tem notícia. Embora os sprints sejam associados hoje aos métodos ágeis com origem no desenvolvimento de software, o experimento foi conduzido pelo educador Paulo Freire.

**UM MESMO SEGREDO**

O conhecimento é propulsor da mudança e fomentador do pensamento crítico, tudo de que precisamos. Mas isso não basta para que as pessoas decidam adquiri-los; é preciso fazer conexões entre conhecimento e prática. 

E há mais um segredo que esses formatos compartilham: o respeito aos intervalos. Ficar em silêncio pode trazer grandes benefícios para o aluno. “Tire um tempo para a auto-observação. Conecte-se a sua forma de pensar, sua maneira de transformar o conhecimento em experimentação”, ensina Schlochauer.

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