Tecnologia & inteligencia artificial
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Pare de tratar a IA como calculadora: ela é uma artista – e seu ‘defeito’ genial é sua maior vantagem

O verdadeiro poder está em aprender a editar o que a tecnologia ousa criar. Em outras palavras, a era da IA generativa derruba o mito da máquina infalível e te convida para dialogar com artistas imprevisíveis.
Head de Marketing Latam da Sinch, empresa global especializada em mensageria por diversos canais. Formado em Engenharia Elétrica pela PUC-Minas, o executivo cursou o Full-Time MBA pela Erasmus University, na Holanda (2004), e Mestrado em Administração pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, com linha de pesquisa em Internacionalização (2009). Desde 2006, atua como Professor Visitante de Marketing na Fundação Dom Cabral (FDC).

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Por décadas, nossa relação com a tecnologia foi baseada em uma premissa inabalável: computadores eram calculadoras perfeitas. Confiáveis, precisos e incapazes de inventar. Se você perguntasse algo, receberia um fato, nunca uma ficção. Mas a Inteligência Artificial Generativa veio para quebrar completamente esse paradigma.

Durante anos, o software tradicional operou num mundo determinístico. Era a lógica do “se–então”: 2 + 2 sempre seria 4. Não havia espaço para interpretação. Agora, com os Grandes Modelos de Linguagem (LLMs), entramos em uma revolução silenciosa, porém profunda: a IA deixou de ser uma ferramenta de busca lógica para se tornar um “artista” que pinta com palavras.

A diferença é fundamental. Enquanto a calculadora encontra a resposta, a IA generativa cria a resposta. Ela não consulta uma memória estática; ela prevê a próxima palavra, compondo frases originais com base em padrões aprendidos. É um ato criativo – e não apenas processamento de dados.

É exatamente aqui que nasce o fenômeno da “alucinação”. Não se trata de um erro no sentido tradicional, mas de uma consequência natural do processo criativo algorítmico.

Pense na IA como um pintor diante de uma tela em branco. Quando não possui a informação exata, ela não diz simplesmente “não sei”. Ela usa sua paleta de padrões para preencher lacunas com o que parece plausível. Isso nos leva a três comportamentos típicos dessa nova “mente digital”:

  • Preenchimento da tela

Quando faltam dados, a IA tenta pintar uma resposta coerente. Pode soar convincente – e às vezes é -, mas há o risco de fatos ou fontes inventadas.

  • Mistura de estilos

Como aprendeu com uma internet repleta de informações conflitantes, ela combina padrões diversos. O resultado pode parecer fluido, mas nem sempre é fiel à origem.

  • Resposta ao briefing

Se sua pergunta parte de uma premissa falsa (“Por que a marca X lançou tal produto?”), a IA tende a aceitar o enunciado e construir uma justificativa fictícia com base nele.


À primeira vista, tudo isso pode parecer um defeito. Mas é justamente essa capacidade de improvisar – essa margem de “erro criativo” – que torna a IA tão poderosa. A imprevisibilidade, quando bem direcionada, é o que permite que ela seja mais que funcional: seja original. Essa característica é essencial por três motivos:

  • Interações mais naturais

Sem variações, a IA responderia como uma planilha falante. A leveza do improviso torna as conversas mais humanas e interessantes.

  • Soluções mais criativas

Ao oferecer respostas diferentes para o mesmo problema, ela revela caminhos que talvez não fossem considerados. Um “desvio” pode ser a faísca de um grande insight.

  • Capacidade de adaptação

Assim como nós, a IA aprende por tentativa e erro. Quanto mais possibilidades ela explora, mais refinada se torna sua atuação.


Por isso, eliminar as alucinações seria como pedir a um artista genial que nunca saísse do contorno. O desafio, agora, não é forçar a IA a ser exata – é aprender a editar suas criações.


O papel do ser humano muda: de operador a curador

A nova fronteira do trabalho não está em exigir precisão total, mas em assumir a curadoria. Deixamos de ser apenas operadores de ferramentas para nos tornarmos editores, estrategistas e verificadores de conteúdo. Em vez de esperar por respostas finais, devemos provocar a IA com perguntas melhores e dirigir seus talentos criativos.

Uma prática eficaz é o comando em duas etapas:

  • Etapa 1: A Calculadora

Oriente a IA a listar fatos com base em fontes confiáveis que você indicou.

  • Etapa 2: O Artista

Em seguida, peça que ela use apenas essas informações para criar o conteúdo desejado. Assim, garantimos que a “pintura” final seja fiel à realidade, mas sem perder o brilho criativo.


Da mente criativa à execução autônoma

Se a IA Generativa representa a explosão criativa, a IAAgêntica é a evolução operacional. Ela não apenas entrega uma peça para nossa avaliação – ela entende o objetivo, planeja os passos, identifica os interlocutores certos, busca os dados mais recentes e conclui a tarefa sem intervenção humana. Do e-mail redigido ao envio automático, passando pela seleção de canal e tom, tudo é executado com fluidez.

Essa mudança de paradigma inaugura a era dos agentes autônomos, que operam como assistentes digitais completos. Eles não apenas respondem: decidem e fazem. Integram múltiplos sistemas, analisam contextos e entregam valor com agilidade, redefinindo o que entendemos por produtividade e eficiência.

A IA Generativa abriu as portas para uma tecnologia que não apenas replica, mas inventa. A IA Agêntica, por sua vez, dá pernas a essa criatividade – transforma imaginação em execução. Juntas, elas formam uma nova lógica de colaboração entre humanos e máquinas: nós guiamos, elas criam e entregam.

Ignorar essa evolução é correr o risco de tratar um artista como um operador de fórmulas. Enxergar a IA apenas como uma calculadora é desperdiçar sua capacidade de surpreender. E, no fim das contas, é no inesperado que reside o poder da inovação.

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