Foto Guga Scatena
Plataformas digitais, e agora também as ferramentas de Inteligência Artificial (IA) incorporadas a elas, estão cada vez mais presentes nas redes de ensino, com a promessa de tornar a educação mais eficiente, personalizada e conectada. Mas, à medida que essas ferramentas passam a participar de decisões sobre atividades, conteúdos, avaliações e acompanhamento da aprendizagem, surgem questões que não dizem respeito apenas à tecnologia. Elas envolvem também autonomia docente, participação dos estudantes, infraestrutura e, principalmente, os critérios utilizados para decidir quando e para que uma solução digital deve entrar na sala de aula. Com a chegada da IA generativa, que já pode apoiar a correção de atividades, sugerir trilhas de estudo e produzir materiais em segundos, essas perguntas ganham ainda mais urgência.
Essas questões estiveram no centro da mesa “Plataformização da educação: como a digitalização do ensino tem afetado as salas de aula”, realizada durante o 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação da Jeduca, em São Paulo. O debate reuniu Camila Wasserman, pesquisadora do CESAR; Éverton de Almeida, professor da rede pública de Santa Catarina e integrante do Observatório Educação Vigiada; e Juliane Rodrigues Vais, estudante e presidenta da União Paranaense dos Estudantes Secundaristas (UPES), com mediação da jornalista Isabela Palhares.
A composição da mesa permitiu olhar para a plataformização a partir de perspectivas diferentes: a experiência de quem utiliza essas ferramentas como estudante, a de quem trabalha e pesquisa seus impactos nas redes de ensino e a de quem atua com implementação de tecnologias educacionais. A conversa trouxe alguns pontos importantes para pensar não apenas quais tecnologias chegam às escolas, mas como essas decisões são tomadas e quais condições precisam existir para que elas contribuam efetivamente para a aprendizagem. A discussão ganha ainda mais relevância em um cenário em que novas tecnologias, especialmente ferramentas de IA, chegam às salas de aula em ritmo acelerado, muitas vezes antes de que estejam claros os problemas que pretendem ajudar a resolver.
1. Tecnologia não pode vir antes do problema
Um dos pontos discutidos na mesa foi a inversão de uma lógica ainda frequente nos processos de digitalização: escolher ou contratar uma tecnologia e, depois, buscar uma forma de incorporá-la à rotina escolar. O processo deveria começar pela compreensão do problema educacional que se pretende enfrentar e pela análise de quais estratégias podem contribuir para solucioná-lo. A tecnologia pode ser uma delas, mas sua adoção precisa estar associada a uma finalidade pedagógica clara.
Durante o debate, Camila chamou atenção justamente para essa relação entre problema e solução. “É importante a gente pensar para que está colocando a tecnologia, qual é o problema educacional que queremos resolver”, afirmou. A presença de recursos digitais, por si só, não é suficiente para caracterizar uma inovação educacional. Uma plataforma mais sofisticada ou uma ferramenta de IA não necessariamente produz uma experiência de aprendizagem mais significativa. A inovação está também na forma como a solução responde a um problema, reorganiza práticas e amplia possibilidades para professores e estudantes.
Esse olhar também ajuda a evitar que tecnologias sejam tratadas como respostas automáticas para desafios educacionais que são complexos e têm causas diversas. Ao abordar sobre as restrições ao uso de celulares nas escolas, por exemplo, Camila defendeu que o debate não precisa se limitar à proibição completa ou à presença intensa de dispositivos ao longo de toda rotina escolar. Uma plataforma pode apoiar o trabalho pedagógico, ampliar possibilidades e contribuir para determinados objetivos, desde que sua escolha parta das necessidades que foram identificadas e não apenas da disponibilidade de uma nova solução.
O mesmo raciocínio vale para ferramentas de IA. A questão não é incorporar tecnologia porque ela está disponível ou porque representa uma novidade, mas avaliar o que ela acrescenta à experiência de ensino e aprendizagem em cada contexto. A chegada da IA generativa torna essa reflexão ainda mais importante. Diante de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, atividades e diferentes tipos de materiais em poucos segundos, a inovação não está necessariamente em usar a ferramenta, mas em compreender quando seu uso pode, de fato, ampliar as possibilidades pedagógicas.
2. Ouvir o estudante e o professor faz parte da escolha tecnológica
A participação de quem está diretamente envolvido no processo educacional apareceu em diferentes momentos da conversa. Ao falar sobre o trabalho desenvolvido com redes de ensino, Camila defendeu que a compreensão do problema comece pela escuta de professores e estudantes. É a partir dessa realidade que se pode avaliar se faz sentido contratar ou desenvolver uma ferramenta e qual papel ela deverá desempenhar.
Juliane trouxe a mesma questão a partir da perspectiva estudantil, ao reivindicar maior participação dos estudantes nas decisões sobre ferramentas que ocupam uma parcela crescente de sua rotina escolar. Éverton, por sua vez, defendeu processos mais democráticos para decidir quais tecnologias serão utilizadas, com que finalidade e de que maneira serão incorporadas ao trabalho pedagógico.
Essa participação não deveria acontecer apenas depois que uma plataforma já foi escolhida, como uma estratégia para facilitar sua aceitação. Professores e estudantes têm informações sobre a experiência cotidiana da escola que são relevantes para a própria definição do problema e para a avaliação das alternativas disponíveis. Incorporar essas perspectivas desde o início pode evitar que a implementação seja construída a partir de pressupostos distantes do contexto em que a tecnologia será utilizada.
3. Implementação exige mais do que disponibilizar uma ferramenta
Mesmo quando uma solução parece adequada ao problema identificado, sua adoção depende das condições concretas da escola e da rede de ensino. Infraestrutura, conectividade, disponibilidade de dispositivos, formação dos profissionais e suporte técnico e pedagógico interferem diretamente na maneira como a tecnologia será incorporada à prática.
Durante a mesa, Camila mencionou a possibilidade de começar com implementações-piloto, observando o funcionamento da ferramenta em contexto antes de ampliar seu uso. Essa etapa permite identificar dificuldades que nem sempre aparecem no planejamento, fazer ajustes e compreender melhor as condições necessárias para uma adoção mais ampla.
A formação dos professores também precisa ir além da apresentação das funcionalidades da plataforma. O objetivo é criar condições para que o docente compreenda quando e como utilizar a tecnologia de acordo com seus objetivos pedagógicos, mantendo espaço para adaptar a ferramenta às necessidades dos estudantes e à dinâmica da sala de aula.
O contexto também importa. Uma solução utilizada com bons resultados em determinada rede não necessariamente funcionará da mesma forma em outra. Diferenças de infraestrutura, currículo, perfil dos estudantes e organização escolar precisam ser consideradas tanto na implementação quanto na avaliação dos resultados.
Referências:
– https://jeduca.org.br/jeduca2026/mesa/plataformizacao-da-educacao-como-a-digitalizacao-do-ensino-tem-afetado-as-salas-de-aula
– https://www.youtube.com/watch?v=eWuAgRID3cc




