Cultura organizacional, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
5 minutos min de leitura

Por que o assédio ainda cresce nas empresas – e como podemos extingui-lo, de vez?

Assédio é sintoma. Cultura é causa. Como ambientes de trabalho ainda normalizam comportamentos abusivos - e por que RHs, líderes e áreas jurídicas precisam deixar a neutralidade de lado e assumir o papel de agentes de transformação. Respeito não pode ser negociável!
Viviane Ribeiro Gago é advogada e mestre em direito das relações sociais. Também é facilitadora em desenvolvimento humano e organizacional, autora dos livros *A biografia de uma pessoa comum*, *Olhares para os sistemas*, *Advocacia corporativa*, dentre outros.

Compartilhar:

Construir a cultura de uma empresa dá trabalho. Leva tempo. Não é tarefa fácil. E se torna ainda mais complexa quando entendemos que essa cultura não é construída apenas pela alta liderança. Ela é moldada todos os dias, por todas as pessoas que fazem parte da organização, em todos os níveis e lugares – com suas particularidades locais, regionais e culturais.

Trabalho com compliance há mais de 25 anos, seja atuando dentro das empresas como executiva, seja hoje, como consultora. E posso afirmar: o assédio, em todas as suas formas, continua presente no ambiente corporativo – e ainda exige ações constantes. O número de casos reportados aumenta. E a judicialização do tema cresce na mesma proporção.

Entre 2020 e 2024, a Justiça do Trabalho recebeu 33.050 novos casos envolvendo pedidos de indenização por dano moral decorrente de assédio sexual no trabalho. Somente entre 2023 e 2024, o volume de novas ações cresceu 35%, passando de 6.367 para 8.612.

Por um lado, esse cenário me entristece. Por outro, enxergo aí uma nova chance. Uma chance de transformar esse tema – muitas vezes técnico e distante – em algo próximo, humano, compreensível. Um convite à consciência sobre o estrago que comportamentos disfuncionais causam no ambiente de trabalho, nas relações e na saúde mental e emocional de todos os envolvidos.

Assédio é sintoma. Cultura é causa.

Assédio não é exceção. Em muitas empresas, ele está enraizado na cultura – camuflado como “pressão por resultados”, “perfil agressivo” ou “jeito difícil, mas competente”.

Não é exagero dizer que quase todo profissional já sofreu algum tipo de assédio ao longo da vida. Seja um comentário inadequado, um constrangimento público, uma insinuação fora de hora, uma exclusão proposital, o querer prejudicar o outro de maneira estratégica e velada. E isso deixa marcas.

Assédio moral é a exposição de uma pessoa a situações humilhantes e constrangedoras de forma repetitiva e prolongada, no exercício do trabalho. Não se confunde com o dano moral, que pode ocorrer por um único episódio, ainda que grave.

Assédio sexual, por sua vez, é crime, previsto no artigo 216-A do Código Penal Brasileiro. E importante: o gênero da vítima não é determinante para a configuração do crime. Ainda assim, sabemos que ele ocorre preponderantemente contra mulheres, como mostram os dados estatísticos.

Por que o problema continua – mesmo com mais informação

Hoje, falamos mais sobre assédio. Mas falar não é o suficiente. Muitos programas internos continuam sendo meramente formais. Treinamentos obrigatórios, canais de denúncia burocráticos, políticas guardadas na intranet.

Enquanto isso, a realidade muda. O modelo híbrido expandiu as formas de assédio – agora por mensagens, chamadas de vídeo, aplicativos corporativos. E a falta de supervisão direta aumentou o silêncio das vítimas.

Segundo pesquisa nacional do Instituto Patrícia Galvão e Instituto Locomotiva, 76% das mulheres entrevistadas disseram já ter sofrido assédio ou violência no ambiente de trabalho. Ainda mais alarmante: em 36% dos casos, nada foi feito contra o agressor, e em 39% as vítimas nem sequer foram informadas sobre qualquer medida adotada.

Outro levantamento, realizado pela Think Eva em parceria com o LinkedIn, apontou que 78% das mulheres têm medo de denunciar por acreditarem que a empresa não tomará providência. O dado mais crítico: apenas 5% recorreram ao RH, e muitas preferiram pedir demissão.

Fato é que em muitas empresas, que inclusive tem uma área dedicada ao Compliance, que centraliza os temas relacionados é desacreditada pelos colaboradores, tanto por não passar credibilidade e/ou confiança não tomar ações/decisões adequadas.

Departamento Jurídico e RH não podem ser neutros. Precisam ser agentes de transformação.

Assédio é violência organizacional. E neutralidade, nesse contexto, perpetua o problema.

O papel do RH e do Departamento Jurídico é ser guardião da cultura organizacional. Isso exige mais do que normativas. Exige posicionamento claro, escuta ativa, coragem institucional e demandar compromisso da alta liderança.

Quatro caminhos para começar a virar esse jogo

  1. Tornar a política contra o assédio parte do cotidiano, não apenas do onboarding: Comunicar com clareza, reforçar com frequência, revisar sempre que necessário. As pessoas precisam saber o que é assédio – e o que não será tolerado.
  2. Formar líderes éticos e empáticos: Liderança é influência, é formar opinião – e pode ser usada para proteger ou para violentar. A maior parte dos casos de assédio envolve lideranças despreparadas, que confundem autoridade com autoritarismo.
  3. Criar canais de escuta confiáveis, seguros e humanos: Uma denúncia mal acolhida pode destruir não apenas uma carreira, mas a confiança em toda a organização.
  4. Medir e monitorar o clima de forma ativa: Absenteísmo, rotatividade alta, reclamações indiretas – tudo isso são sintomas que devem ser analisados com atenção e sensibilidade.


O que está em jogo é mais do que reputação: é a dignidade das pessoas

Pensemos juntos: por que transformar o ambiente de trabalho em um lugar hostil, inseguro, excludente? Se passamos boa parte da vida trabalhando, por que não fazer disso um espaço de crescimento, acolhimento e pertencimento?

Ambientes saudáveis geram bons resultados. Isso não é discurso: é realidade. As gerações mais jovens já demonstram que não buscam apenas bons salários, mas sim ambientes respeitosos, justos e humanos.

Não cabe mais fingir que o problema está restrito a algumas pessoas ou a “casos isolados”. O assédio é um reflexo direto da cultura organizacional. Cabe a nós – líderes, RHs, executivos e consultores – assumir a responsabilidade por mudar esse cenário. Respeito não pode ser negociável. E não basta reagir. É hora de agir com consciência, ética e consistência.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quanto vale uma franquia da Omie?

Mais do que contratos ou licenças, canais de software constroem mercado, relacionamento e receita. A possível recompra de franqueados pela Omie reacende o debate sobre como mensurar, jurídica e economicamente, o valor gerado por quem desenvolve a operação na ponta.

Como a inteligência artificial pode destravar R$ 2,5 trilhões em crédito

Por décadas, o mercado financeiro enxergou a assimetria de informação como um obstáculo inevitável. A combinação entre duplicata escritural e inteligência artificial sugere uma nova possibilidade: usar os próprios registros das operações comerciais para revelar padrões invisíveis, reduzir incertezas e tornar o crédito mais acessível e preciso.

Nem toda empresa precisa de um C-level

Antes de criar cargos de alta gestão, organizações devem avaliar se possuem estrutura, governança e desafios estratégicos que justifiquem essas posições

Hiperconectados, solitários e irrelevantes?

Mais contatos, mais mensagens, mais reuniões e menos impacto. Em uma economia movida por redes e ecossistemas, a vantagem competitiva não está em estar conectado o tempo todo, mas em construir conexões capazes de gerar confiança, influência, inovação e transformação ao longo do tempo.

A próxima revolução será humana?

Este artigo propõe uma reflexão sobre por que atenção, presença, pensamento crítico e conexão humana podem se tornar os ativos mais valiosos de uma era cada vez mais dominada pela tecnologia.

Inovação & estratégia
4 de julho de 2026 08H00
A partir de casos reais do agronegócio, este artigo mostra por que decisões baseadas em análises isoladas tendem a falhar e como a integração de múltiplas variáveis pode transformar a gestão de risco, dentro e fora do campo.

Kallil Chebaro - CEO e Head de Produto na Agscore

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
3 de julho de 2026 15H00
Se o cliente já sabe tudo, o que ainda falta ao vendedor? Este artigo mostra como a tecnologia expôs o vendedor despreparado e como isso mudou o jogo das vendas.

Mari Genovez - CEO da Matchez

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Comunicação, Estratégia
3 de julho de 2026 08H00
Se a sua mensagem interna viralizar amanhã, você sustentaria o que disse?

Ana Paula Soares - Fundadora e diretora-geral da Encaso Assessoria

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de julho de 2026 15H00
A liderança centrada no controle está perdendo espaço. Este artigo mostra como a capacidade de desenvolver autonomia será o principal diferencial das organizações do futuro.

Marcelo Neri - CEO, Mentor Executivo, Palestrante Internacional e Escritor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
1º de julho de 2026 08H00
Muito além do debate entre humano e IA, este artigo expõe o verdadeiro problema do atendimento moderno: não é quem responde, mas quem tem poder para decidir, e por que a falta de autoridade na ponta continua destruindo experiências e confiança.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
30 de junho de 2026 15H00
A partir dos sinais do Web Summit Rio 2026, este artigo mostra como a saúde mental deixou de ser benefício periférico para se tornar uma variável crítica de negócio, impactando investimento, regulação e a própria sustentabilidade das empresas.

Weber Stival - Fundador e CEO da Unolife.

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de junho de 2026 08H00
A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

Erich Silva - COO e Head de Talentos da Lecom

3 minutos min de leitura
Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo