Uncategorized

Por uma estratégia minimalista

Executivo-chefe de marketing do Grupo Amil vai além de sua área e propõe um sistema de gestão adequado para a geração Y, que corta os excessos e valoriza a elegância
Adriana Salles Gomes é diretora-editorial de HSM Management.

Compartilhar:

> **SAIBA MAIS SOBRE** RODRIGO ROCHA 
>
> Quem é: Executivo-chefe de marketing (CMO) do Grupo Amil desde 2012, formado em publicidade e com cursos na Wharton School, na Columbia Business School e na Singularity University. Cofundou, em 2009, a One Health, unidade de negócios para clientes premium. 
>
> Livro: SEM – Sistema de Estratégia Minimalista: Como 4 Es Podem Tornar a Sua Vida Mais Leve e Levar a Sua Empresa ao Sucesso (ed. HSM).

**Você é um profissional de marketing, mas seu livro propõe um sistema de estratégia, não de marketing: o SEM. Por quê?** 

O marketing, direcionado para manipular o consumidor em vez de inspirá-lo, está desacreditado e defasado; precisa mudar. Mas percebi que o problema não está na disciplina em si;  é um problema de estratégia e de gestão. O que houve é que vendas se transformou na mais importante área das empresas, e o resultado dessa prevalência são produtos-commodities e adoção de modismos.  Vendedores adoram copiar a concorrência, dar descontos e pedir mais e mais produtos.  A quantidade ganhou espaço e a qualidade perdeu. Então, para salvar o marketing – e o negó cio –, é necessário um novo modelo de estratégia e de gestão. 

**Como nasceu esse modelo minimalista? Tem a ver com o lean?** 

As empresas estão muito “gordas”; precisam “emagrecer”. Nesse sentido, isso tem a ver com a cultura japonesa como um todo, mais que com o lean – não só a cultura de negócios, mas os valores pessoais dominantes no Japão. Estudo muito a cultura japonesa. Quem vai a um restaurante japonês tradicional percebe que é tudo focado no que realmente importa para o cliente – isso é minimalismo. Também fui muito inspirado pela Apple, cujas lojas, conceitualmente, lembram os restaurantes japoneses – são clean e focadas no produto e em seu funcionamento, que é o que interessa ao cliente. Mas acho que o SEM nasceu especialmente com minha observação do consumidor da geraçãoY , que sabe o que quer e é difícil de manipular. Duas vivências pessoais recentes me abriram os olhos quanto a isso: o caminho de Santiago de Compostela e a subida do monte Kilimanjaro. Nos dois casos, a pessoa precisa carregar consigo só o essencial ou acaba se machucando. É puro minimalismo. E um detalhe importante:  a definição de essencial inclui segurança. Por exemplo, no Kilimanjaro, quatro litros de água entram na lista do essencial, mesmo sendo pesados, porque ou a pessoa se hidrata durante o esforço, ou pode morrer.

**O SEM se apoia em 4 Es. Substituem os 4 Ps do marketing? Algum “E” se sobrepõe?**

Os 4 Es – elegância, eloquência, eficiência e êxito – vão além dos 4 Ps [produto, praça, preço e promoção], porque não se trata só de marketing, como falamos, mas de estratégia e de gestão. De todos os conceitos, elegância é o menos usado no mundo dos negócios. Tem a ver com o foco na essência da empresa – impressa no que é oferecido ao cliente –, naquilo que a faz destacar-se das demais; pode ser a funcionalidade de um produto ou sua capacidade de relacionamento.  A eloquência diz respeito a falar a verdade na comunicação, interna e externa, com transparência e sem prometer o que não pode cumprir.  A eficiência é o conceito mais conhecido, porém a sacada aí é usar a complexidade para tornar as coisas mais simples para o consumidor. E o êxito é o conjunto de todos os Es, mostrando que é preciso completar o conjunto para ter sucesso. Uma empresa que quer ser minimalista deve começar pela eloquência. É o E mais fácil de implantar: basta investir mais na qualidade do que oferece e falar o essencial.

**O modelo se aplica bem à cultura corporativa do Brasil?** 

Nossa cultura é um obstáculo principalmente à eloquência, porque nosso modelo baseado em agência, em BV publicitário, estimula o excesso de comunicação e suas consequências. Agora, há empresas brasileiras que são minimalistas, talvez mesmo sem saberem. É o caso de companhias focadas no serviço prestado ao cliente, seja o consumidor, seja outro stakeholder relevante. Aposto pessoalmente nesse minimalismo: sou sócio, com outros investidores, de uma startup de seguros para cães e gatos e vendemos 51% do negócio para uma seguradora com essa visão.  A empresa, que já cobria os ramos tradicionais, queria dar segurança ao cliente em tudo, até em relação a seu animal de estimação; é uma estratégia minimalista. A cultura focada no curto prazo que existe no Brasil talvez dificulte um pouco a adoção do minimalismo em um primeiro momento.  Acho que as empresas minimalistas, por romperem barreiras, podem perder dinheiro inicialmente, mas no longo prazo tendem a ganhar muito mais. Enquanto as demais organizações cometem excessos para vender mais, a minimalista se resguarda; então, quando as outras se queimam, ela aparece e prevalece. É como Muhammad Ali fazia: no início, apanhava, mas não caía, e, quando o adversário estava exausto, ganhava a luta. Estratégia e gestão têm de resistir, principalmente no cenário adverso. Um modo de as companhias brasileiras conseguirem migrar para o minimalismo é começar por uma unidade que sirva de laboratório e modelo para toda a empresa. Fazemos isso na Amil, com a One Health.

**Você apresenta muitos cases no livro sob essa ótica, mas não fala da Amil. Por quê?** 

A Amil cresceu muito com aquisições feitas de forma intensa e constante desde 2007, e atuar de modo minimalista passou a ser um dos nossos desafios na empresa. O estimulante é que estamos justamente em um momento de revisar processos e desenhar o futuro do plano de saúde. Estamos também reestruturando o modelo de negócio dos hospitais, a arquitetura das marcas corporativas, a comunicação, a forma e os canais de atendimento ao cliente. 

 Garanto que a ênfase minimalista será bem aplicada, sobretudo na assistência hospitalar. Fazemos parte de um grupo internacional de saúde que gosta muito da ideia do minimalismo, porque é 100% focado no cliente. Essa direção estratégica é essencial para o êxito

Compartilhar:

Artigos relacionados

A pressão que não aparece no organograma: a carreira das mulheres exige mais remédios do que reconhecimento

Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade – estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.

Morte: a próxima fronteira do bem-estar

Do SXSW 2026 à realidade brasileira: O luto deixa o silêncio e começa a ocupar o centro do cuidado humano. A morte entrou na agenda do bem-estar e desafia indivíduos, empresas e sociedades a reaprenderem a cuidar.

Os rumos da agenda de diversidade, equidade e inclusão nas empresas brasileiras em 2026

Os números de assédio e a estagnação das carreiras de pessoas com deficiência revelam uma verdade incômoda: a inclusão no Brasil ainda para na porta de entrada. Em 2026, o desafio não é contratar, mas desenvolver, promover e garantir permanência – com método, responsabilidade e decisões que tratem diversidade como estratégia de negócio, e não como discurso.

Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Estratégia
27 de março de 2026 07H00
Medir saúde organizacional deveria estar no mesmo painel que receita, margem e eficiência. Quando empresas tratam bem-estar como benefício e não como gestão, elas não só ignoram dados alarmantes - elas comprometem produtividade, engajamento e resultado.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

4 minutos min de leitura
ESG
26 de março de 2026 15H00
A capitulação da SEC diante das regras climáticas criou dois mundos corporativos: um onde ESG é obrigatório e outro onde é opcional. Para CEOs de multinacionais, isso não é apenas questão regulatória, é o maior dilema estratégico da década. Como liderar empresas globais quando as regras do jogo mudam conforme a geografia?

Marceli Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de março de 2026 09H00
À medida que desafios logísticos se tornam complexos demais para a computação tradicional, este artigo mostra por que a computação quântica pode inaugurar uma nova era de eficiência para o setor de mobilidade e entregas - e como empresas que começarem a aprender agora sairão anos à frente quando essa revolução enfim ganhar escala.

Pâmela Bezerra - Pesquisadora do CESAR e professora de pós-graduação da CESAR School e Everton Dias - Gerente de Projetos

7 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
25 de março de 2026 15H00
IA executa, analisa e recomenda. Cabe ao líder humano decidir, inspirar e construir cultura.

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

5 minutos min de leitura
ESG
25 de março de 2026 09H00
Quando propósito vira vantagem competitiva, manter impacto e lucro separados é mais que atraso - é miopia estratégica.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

5 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
24 de março de 2026 14H00
Quando a geopolítica esquenta, o impacto não começa nos noticiários - começa na planilha: energia mais cara, logística pressionada, insumos instáveis e margens comprimidas. Este artigo revela por que guerras longínquas se tornam, em poucos dias, um problema urgente de precificação, estratégia e sobrevivência financeira para as empresas.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
24 de março de 2026 07H00
À medida que a China eleva a inteligência artificial incorporada e as interfaces cérebro‑máquina ao status de indústrias estratégicas, uma nova disputa tecnológica global se desenha - e o epicentro da inovação pode estar prestes a mudar de coordenadas.

Leandro Mattos - Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de março de 2026 14H00
Entre inovação, sustentabilidade e segurança regulatória, o modelo de concessões evolui para responder aos novos desafios da mobilidade urbana no Brasil.

Edson Cedraz - Sócio-líder para a indústria de Government & Public Services e Fernanda Tauffenbach - Sócia de Infrastructure and Capital Projects

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
23 de março de 2026 08H00
Num setor que insiste em se declarar neutro, este artigo expõe a pergunta incômoda que a tecnologia evita - e revela por que ampliar quem ocupa a mesa de decisões é urgente para que o futuro não repita o passado.

Roberta Fernandes - Diretora de Cultura e ESG do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de março de 2026 08H00
Num mundo em que qualquer máquina produz texto, imagem ou vídeo em segundos, o verdadeiro valor deixa de estar na geração e migra para aquilo que a IA não entrega: julgamento, intenção e a autoria que separa significado de ruído - e conteúdo de mera repetição.

Diego Nogare - Especialista em Dados e IA

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...