Cultura organizacional
8 minutos min de leitura

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.
Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP e doutoranda em Administração de Empresas pela mesma instituição de ensino, com pesquisa voltada à relação entre cultura organizacional e transformação digital.

Compartilhar:

Há alguns anos, acompanhando organizações em processos de transformação, comecei a perceber que uma mesma inquietação aparecia repetidamente, ainda que sob nomes diferentes. Como consultora de cultura organizacional, mentora de C-levels, professora e pesquisadora, participo de discussões sobre liderança, transformação digital, inteligência artificial, desenvolvimento de pessoas e estratégia e, embora esses temas pareçam pertencer a campos distintos, cada vez mais tenho a impressão de que todos convergem para uma mesma pergunta: por que liderar pessoas se tornou muito mais complexo do que há poucos anos?

Durante algum tempo, a transformação digital, acelerada pelo avanço da inteligência artificial, pareceu explicar boa parte dessa complexidade. Quanto mais acompanhava organizações vivendo esses processos, porém, mais percebia que a tecnologia era apenas parte da história. Um contexto mais amplo alterava silenciosamente a forma como as pessoas interpretavam o trabalho, construíam expectativas sobre o futuro e se relacionavam. Dessa inquietação nasceu uma reflexão que hoje orienta minha pesquisa e prática profissional: as grandes transformações do mundo atravessam as organizações, impactam sua cultura e influenciam comportamentos e formas de trabalhar.

Essa percepção ampliou a forma como eu mesma compreendia a cultura organizacional. Valores, símbolos, rituais, histórias e comportamentos compartilhados continuam essenciais para entendêla, mas hoje me parece igualmente importante observar como ela atua na interpretação coletiva do contexto. A cultura também funciona como uma lente: é por meio dela que as pessoas atribuem significado ao que acontece no mundo e constroem respostas dentro das organizações. Assim, acontecimentos externos deixam de ser apenas pano de fundo e passam a participar da própria vida organizacional.

Quando o mundo entra pela porta da empresa

Foi nesse contexto que me chamou atenção o framework PLUTO, apresentado pelo IESE Business School para descrever um mundo polarizado, líquido, unilateral, tenso e omnirrelacional. O nome também faz uma alusão deliberada a Plutão, como se o ambiente atual fosse tão diferente que estivéssemos aprendendo a gerir em outro planeta. Mais do que apresentar um novo acrônimo, o conceito evidencia que a geopolítica voltou a ocupar um lugar central na dinâmica dos negócios. Conflitos internacionais, disputas tecnológicas, mudanças regulatórias e rearranjos econômicos deixaram de ser temas restritos aos governos ou aos conselhos de administração e passaram a influenciar diretamente o ambiente no qual as organizações operam.

Não por acaso, essa mudança já aparece nos principais estudos internacionais sobre gestão. O Global Risks Report 2026, publicado pelo Fórum Econômico Mundial, coloca a polarização social e os conflitos geopolíticos entre os riscos mais relevantes para os próximos anos; o Chief People Officers’ Outlook – May 2026 mostra que inteligência artificial, descompasso de competências e instabilidade geopolítica passaram a ocupar a agenda das lideranças de pessoas. Não se trata mais de um debate restrito aos conselhos ou às áreas de estratégia; esses fenômenos já chegaram às equipes e passaram a influenciar diretamente liderança, desenvolvimento humano e a cultura organizacional.

Para compreender a vida das organizações hoje, não basta olhar para a geopolítica; é preciso observar como seus efeitos as atravessam. Guerras interferem nas cadeias de suprimentos e nas percepções de estabilidade; disputas tecnológicas alteram mercados e expectativas sobre carreira e empregabilidade; a inteligência artificial redesenha processos e referências profissionais. Seu impacto mais profundo está na forma como as pessoas interpretam a realidade e tomam decisões.

Tecnologia, economia, geopolítica e comportamento integram um mesmo sistema, e os problemas chegam misturados porque o contexto já não respeita as fronteiras tradicionais da gestão.

A tecnologia inicia a mudança. A cultura decide o destino.

Sob essa perspectiva, fica mais claro por que tantas iniciativas de mudança encontram dificuldades mesmo quando a solução técnica parece correta. Ao longo dos últimos anos, acompanhei organizações que investiram em inteligência artificial, redesenharam processos e incorporaram novas tecnologias, mas descobriram que o maior desafio nunca esteve apenas na implementação. Ele surgia quando pessoas precisavam abandonar referências que lhes davam segurança, aprender novas formas de trabalhar, reconstruir sua identidade profissional e desenvolver confiança em um ambiente que mudava mais rapidamente do que conseguiam assimilar. A tecnologia iniciava a mudança; era a cultura, porém, que determinava a forma como ela seria compreendida.

A partir daí, a forma como penso a liderança também ganhou novos contornos. Embora muitas abordagens ainda coloquem o líder no centro, a liderança se constrói na relação entre quem lidera, quem escolhe seguir e o contexto. As pessoas não respondem apenas a orientações: observam comportamentos, interpretam decisões e reproduzem o que a liderança legitima na prática. Em ambientes instáveis, liderar significa menos concentrar respostas e mais sustentar coerência, construir sentido e criar caminhos coletivamente.

Nas mentorias com executivos, essa dimensão relacional aparece com clareza. As conversas podem começar nos indicadores ou nas decisões estratégicas, mas quase sempre chegam às pessoas: como manter o engajamento diante de um futuro incerto? Como desenvolver lideranças quando novas tecnologias alteram competências rapidamente? Como preservar a confiança em um ambiente mais ambíguo e polarizado? Essas questões não se resolvem apenas com ferramentas de gestão, pois envolvem expectativas, medos, vínculos e formas de interpretar o contexto. É nesse ponto que liderança e cultura se encontram: na capacidade de transformar incerteza em diálogo, aprendizagem e resposta coletiva.

A transformação digital também precisa ser compreendida para além da tecnologia. Embora ainda seja apresentada como adoção de ferramentas, sistemas e automações, ela modifica a forma como a organização pensa, decide, aprende e trabalha. Os maiores desafios surgem quando as pessoas precisam desaprender práticas, revisar sua identidade profissional, compartilhar conhecimento de outras formas e reconstruir relações de confiança. Essa relação está no centro da minha pesquisa de doutorado: toda transformação digital possui uma dimensão cultural que condiciona como será compreendida, incorporada e sustentada.

Na literatura, essa compreensão dialoga com Edgar Schein, referência em cultura organizacional, e com Geert Hofstede, psicólogo social pioneiro nos estudos interculturais. No Brasil, aproximase das pesquisas de Betânia Tanure de Barros e Marco Aurélio Spyer Prates, autores de O estilo brasileiro de administrar. Por caminhos distintos, esses estudos mostram que as organizações não existem isoladas da sociedade: o ambiente externo participa de suas relações, escolhas e comportamentos cotidianos.

Liderar quando ninguém tem todas as respostas

Se o ambiente externo participa cada vez mais diretamente da vida organizacional, a resiliência não pode ser compreendida apenas como rapidez para reagir a crises, adaptar processos ou reorganizar estruturas. Tudo isso continua importante, mas é a cultura que define se uma organização conseguirá aprender, dialogar e preservar a confiança quando as respostas deixam de ser evidentes. Tecnologia, estratégia e planos de contingência oferecem suporte, mas sem pessoas capazes de interpretar o cenário e construir respostas coletivas, a organização permanece vulnerável.

É justamente nessa capacidade de aprender, dialogar e preservar a confiança que a segurança psicológica se torna estratégica. Amplamente estudado por Amy Edmondson, referência mundial no tema, o conceito descreve ambientes nos quais as pessoas podem fazer perguntas, admitir erros, manifestar dúvidas e discordar sem medo de humilhação ou retaliação. Isso não significa eliminar conflitos ou produzir concordância permanente. Em contextos mais polarizados, significa preservar a capacidade de conviver com diferenças sem transformar toda divergência em ruptura. É essa qualidade das conversas que sustenta a aprendizagem, a inovação e a construção de respostas coletivas quando ninguém possui todas as respostas.

A cultura organizacional sempre me instigou justamente porque, quanto mais a estudamos, mais percebemos sua complexidade. Ela continua sendo fundamental para explicar por que organizações, mesmo diante de desafios semelhantes, funcionam e respondem de maneiras tão diferentes. Meus estudos e pesquisas foram acrescentando novas camadas a essa compreensão e dando forma a uma ideia que hoje consigo expressar com mais clareza: a cultura não está apenas nos valores declarados, mas nas respostas cotidianas que revelam o que é permitido, reconhecido ou silenciado. Ela aparece quando alguém admite um erro, questiona uma decisão, propõe uma alternativa ou sinaliza um risco – e, principalmente, na forma como a organização reage. É nesse cotidiano que a liderança transforma valores em referências concretas, por meio daquilo que recompensa, tolera ou corrige.

Talvez essa seja a principal diferença do momento que estamos vivendo. Durante muito tempo, imaginamos que guerras, crises econômicas, disputas entre países ou avanços tecnológicos fossem acontecimentos externos aos quais as organizações precisavam apenas reagir. Hoje, parece mais adequado dizer que esses fenômenos atravessam diariamente a vida das empresas porque atravessam, antes de tudo, as pessoas que trabalham nelas. Nesse contexto, compreender e gerir a cultura organizacional é, cada vez mais, uma das competências estratégicas mais importantes da liderança contemporânea. Se o framework PLUTO nos ajuda a compreender a reorganização das relações econômicas, políticas e tecnológicas, a pergunta mais importante para quem lidera organizações talvez seja outra: que tipo de cultura estamos construindo para atravessar esse cenário?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Autoridade não se mede em decibéis

Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Hyper-growth: o desafio não é acelerar, é sustentar a velocidade

O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

O tamanho da sua bolha define o tamanho das suas decisões

Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

O que os Niyamas podem ensinar sobre consciência, disciplina e evolução organizacional

Processos, políticas e estratégias não surgem sozinhos. Eles são resultado das escolhas feitas diariamente por quem exerce liderança e influencia decisões. Embora tenham sido concebidos há mais de dois mil anos, os Niyamas oferecem reflexões surpreendentemente atuais para organizações que desejam construir culturas mais conscientes, coerentes e alinhadas aos desafios do presente.

Inovação & estratégia
15 de setembro de 2026 08H00
A partir de uma conversa com Rogério Almeida, principal executivo do Cristália, este artigo discute como investimentos de longo prazo em pesquisa, tecnologia e capacidade produtiva podem contribuir para a construção de maior autonomia científica e industrial no Brasil.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

23 minutos min de leitura
Tecnologia e inovação, Estratégia
14 de setembro de 2026 18H00
A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

13 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
14 de setembro de 2026 14H00
Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

Valter Bahia Filho - Autor e consultor educacional de Neurociência e Comportamento, Psicologia Positiva, Comunicação, Artes e Gestão de Pessoas.

12 minutos min de leitura
Liderança
14 de setembro de 2026 08H00
Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

11 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

5 minutos min de leitura
User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução