Existe uma sensação recorrente nas conversas com executivos e, sendo honesto, algo que eu mesmo já senti em alguns momentos, de que ao olhar para os números, relatórios e indicadores, temos uma visão relativamente clara do que está acontecendo numa organização.
É uma sensação confortável e um apoio necessário para seguir tomando decisões todos os dias. Mas ela pode ser enganosa. Nunca tivemos tantos dados disponíveis como agora. Segundo a IDC, o volume de dados no mundo cresce mais de 20% ao ano, o que, em teoria, deveria nos colocar em uma posição privilegiada de leitura. Na prática, isso não se traduz automaticamente em informação qualificada, compreensão e muito menos em melhores decisões.
O que tenho visto com mais frequência é o oposto: empresas cercadas de informação, mas ainda operando com uma leitura parcial da realidade. A governança de dados é uma competência essencial para uma organização pública ou privada.
Um estudo da McKinsey & Company mostra que organizações orientadas por dados têm até 23 vezes mais chances de adquirir clientes, mas apenas uma minoria consegue. Isso revela um ponto importante: não é a falta de dados que limita as empresas, mas a capacidade de transformar esse volume em algo confiável, conectado e útil no tempo certo. Entre o que acontece na operação ou ao redor da empresa no mercado e o que chega à mesa de decisão, ainda existe uma distância de qualidade e ou um atraso, que custa caro.
Esse descompasso fica ainda mais crítico quando consideramos o ambiente atual. A velocidade de mudança, a volatilidade aumentou de forma significativa nos últimos anos, e isso não é percepção isolada. De acordo com a PwC, 76% dos CEOs globais reconhecem que seus mercados se tornaram mais voláteis e menos previsíveis.
Nesse contexto, confiar apenas em leitura histórica ou em relatórios consolidados deixou de ser suficiente, pois a visão “extrapolativa” (projeção do futuro baseado no passado) vem criando mais e mais armadilhas. A volatilidade tem se concretizado na velocidade elevada com que as variáveis criticas e suas correlações mudam, criando situações totalmente imprevistas e inusitadas. Não são poucas vezes que o problema já está em curso quando começamos a discuti-lo, ou reagir a ele.
É por isso que trabalhar com cenários, a partir do domínio dos dados deixou de ser apenas um exercício para a construção da estratégia e requer ser incorporado como um processo de ciclo contínuo, diário.
Neste contexto, é necessário ter clareza que os dados servirão simultaneamente para olhar para o passado recente e, para projetar tendências de forma rápida. – uma expectativa equivocada e bastante comum. Mas para reconhecer que existem múltiplas possibilidades, o que deverá gerar a construção de vários possíveis caminhos. Lidar com a ambiguidade e a incerteza não são competências apenas dos empreendedores, mas essenciais a organizações em mercados complexos.
Um levantamento da Gartner reforça esse ponto ao mostrar que grande parte das organizações ainda utiliza apenas uma fração dos dados disponíveis de forma efetiva – e, muitas vezes, com atraso em relação ao momento em que poderiam gerar impacto, agravado pelo pouco tempo dedicado à análise de cenários. Isso ajuda a explicar por que tantas decisões ainda são sustentadas por leituras incompletas, interpretações parciais ou até percepções bem articuladas, mas desconectadas de indicadores de alto impacto, fortemente “opinativas”. Ao longo dos anos, evoluímos muito na forma de apresentar decisões, mas nem sempre na qualidade da informação, na formulação de hipóteses e, portanto, na tomada de decisão.
O ponto que me parece mais relevante, e talvez mais incômodo, é que muitas organizações percebem que hoje algumas das suas estruturas já não respondem com a mesma eficiência e velocidade, mas ainda reagem lentamente. O ambiente tem mudado com uma frequência ainda não vivenciada por nós. Por isto é necessário adaptar o processo de formulação da decisão: abandonar a sensação de segurança por ter acesso a um grande número de dados, cultivando a análise e a governança que os tornará informação qualificada para a tomada de decisão que buscará mitigar os riscos e maximizar o valor gerado.
No fim, a questão não é se o cenário vai continuar mudando e sempre mudou. O que aumentou foi a velocidade, ou como costumo dizer, a altura dos picos, a profundidade dos vales e a distância entre eles. A grande questão é se nós e nossas empresas estão preparadas para perceber essas mudanças no tempo certo e agir com base em leitura coerente, mobilizando uma melhor gestão de riscos e decisões de alto valor no curto e no longo prazo.




