Estratégia
4 minutos min de leitura

Quanto mais o cenário muda, mais perigoso é acreditar que você está no controle

Em um cenário de excesso de informações e alta volatilidade, este artigo questiona a falsa sensação de clareza que os dados oferecem, e mostra por que o verdadeiro desafio das organizações está em transformar volume em leitura qualificada e decisão relevante no tempo certo.
João Roncati é CEO da People+Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano.

Compartilhar:

Existe uma sensação recorrente nas conversas com executivos e, sendo honesto, algo que eu mesmo já senti em alguns momentos, de que ao olhar para os números, relatórios e indicadores, temos uma visão relativamente clara do que está acontecendo numa organização.

É uma sensação confortável e um apoio necessário para seguir tomando decisões todos os dias. Mas ela pode ser enganosa. Nunca tivemos tantos dados disponíveis como agora. Segundo a IDC, o volume de dados no mundo cresce mais de 20% ao ano, o que, em teoria, deveria nos colocar em uma posição privilegiada de leitura. Na prática, isso não se traduz automaticamente em informação qualificada, compreensão e muito menos em melhores decisões.

O que tenho visto com mais frequência é o oposto: empresas cercadas de informação, mas ainda operando com uma leitura parcial da realidade. A governança de dados é uma competência essencial para uma organização pública ou privada.

Um estudo da McKinsey & Company mostra que organizações orientadas por dados têm até 23 vezes mais chances de adquirir clientes, mas apenas uma minoria consegue. Isso revela um ponto importante: não é a falta de dados que limita as empresas, mas a capacidade de transformar esse volume em algo confiável, conectado e útil no tempo certo. Entre o que acontece na operação ou ao redor da empresa no mercado e o que chega à mesa de decisão, ainda existe uma distância de qualidade e ou um atraso, que custa caro.

Esse descompasso fica ainda mais crítico quando consideramos o ambiente atual. A velocidade de mudança, a volatilidade aumentou de forma significativa nos últimos anos, e isso não é percepção isolada. De acordo com a PwC, 76% dos CEOs globais reconhecem que seus mercados se tornaram mais voláteis e menos previsíveis.

Nesse contexto, confiar apenas em leitura histórica ou em relatórios consolidados deixou de ser suficiente, pois a visão “extrapolativa” (projeção do futuro baseado no passado) vem criando mais e mais armadilhas. A volatilidade tem se concretizado na velocidade elevada com que as variáveis criticas e suas correlações mudam, criando situações totalmente imprevistas e inusitadas. Não são poucas vezes que o problema já está em curso quando começamos a discuti-lo, ou reagir a ele.

É por isso que trabalhar com cenários, a partir do domínio dos dados deixou de ser apenas um exercício para a construção da estratégia e requer ser incorporado como um processo de ciclo contínuo, diário.

Neste contexto, é necessário ter clareza que os dados servirão simultaneamente para olhar para o passado recente e, para projetar tendências de forma rápida. – uma expectativa equivocada e bastante comum. Mas para reconhecer que existem múltiplas possibilidades, o que deverá gerar a construção de vários possíveis caminhos. Lidar com a ambiguidade e a incerteza não são competências apenas dos empreendedores, mas essenciais a organizações em mercados complexos.

Um levantamento da Gartner reforça esse ponto ao mostrar que grande parte das organizações ainda utiliza apenas uma fração dos dados disponíveis de forma efetiva – e, muitas vezes, com atraso em relação ao momento em que poderiam gerar impacto, agravado pelo pouco tempo dedicado à análise de cenários. Isso ajuda a explicar por que tantas decisões ainda são sustentadas por leituras incompletas, interpretações parciais ou até percepções bem articuladas, mas desconectadas de indicadores de alto impacto, fortemente “opinativas”. Ao longo dos anos, evoluímos muito na forma de apresentar decisões, mas nem sempre na qualidade da informação, na formulação de hipóteses e, portanto, na tomada de decisão.

O ponto que me parece mais relevante, e talvez mais incômodo, é que muitas organizações percebem que hoje algumas das suas estruturas já não respondem com a mesma eficiência e velocidade, mas ainda reagem lentamente. O ambiente tem mudado com uma frequência ainda não vivenciada por nós. Por isto é necessário adaptar o processo de formulação da decisão: abandonar a sensação de segurança por ter acesso a um grande número de dados, cultivando a análise e a governança que os tornará informação qualificada para a tomada de decisão que buscará mitigar os riscos e maximizar o valor gerado.

No fim, a questão não é se o cenário vai continuar mudando e sempre mudou. O que aumentou foi a velocidade, ou como costumo dizer, a altura dos picos, a profundidade dos vales e a distância entre eles. A grande questão é se nós e nossas empresas estão preparadas para perceber essas mudanças no tempo certo e agir com base em leitura coerente, mobilizando uma melhor gestão de riscos e decisões de alto valor no curto e no longo prazo.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Da produção à curadoria: a nova lógica da relevância digital

O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Por que todos os líderes começaram a soar iguais?

A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth, User Experience, UX
15 de julho de 2026 08H00
Enquanto a IA assume processos, diagnósticos e tarefas repetitivas, cresce a importância de competências exclusivamente humanas. O desafio das lideranças não é automatizar mais, mas decidir onde a presença humana gera valor que nenhuma tecnologia consegue reproduzir plenamente.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

3 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Inovação & estratégia
14 de julho de 2026 18H00
Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

16 minutos min de leitura
Lifelong learning, Estratégia, Marketing & growth
14 de julho de 2026 14H00
Este artigo mostra como os eventos corporativos se tornaram ambientes estratégicos de inteligência coletiva, capazes de ampliar repertório, antecipar tendências e reduzir incertezas para líderes e organizações.

Sidnei Metzner - Gestor nacional de vendas da WK

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
14 de julho de 2026 08H00
Enquanto a longevidade transforma a composição da sociedade e do mercado de trabalho, muitas organizações continuam operando com modelos de gestão construídos para uma realidade demográfica que já não existe. Este artigo discute o conceito que desafia o jovem-centrismo corporativo e convida líderes a repensarem o valor da experiência, da diversidade geracional e da longevidade nas empresas.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de julho de 2026 14H00
Dados mostram o avanço da solidão no ambiente de trabalho, especialmente entre profissionais remotos. O texto propõe uma reflexão sobre como relações de confiança, segurança psicológica e capacidade de convivência se tornaram ativos estratégicos para a saúde organizacional.

Daniela Cais - Designer de Relações Profissionais, TEDx Speaker, Mentora de Comunicação para Carreiras e Negócios

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
13 de julho de 2026 08H00
Durante décadas, empresas competiram por telas, cliques e atenção. Agora, à medida que agentes inteligentes passam a interpretar intenções e executar tarefas, o valor começa a migrar para outro lugar: dados, contexto e capacidade de decisão.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, User Experience, UX
12 de julho de 2026 13H00
Durante décadas, o mercado tratou a satisfação do cliente como prioridade absoluta. Este artigo questiona os limites dessa lógica e mostra como a normalização de abusos, agressões e desgastes emocionais está afetando a saúde mental dos trabalhadores e comprometendo a própria cultura das organizações.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
User Experience, UX, Inovação & estratégia
12 de julho de 2026 08H00
Em um mundo onde quase tudo pode ser comprado, o verdadeiro luxo deixou de ser exclusividade e passou a ser simplicidade. Este artigo mostra por que as empresas mais valiosas da próxima década serão aquelas capazes de eliminar complexidade, reduzir decisões e transformar experiência em significado.

Bruno Mazanek - CEO da Zanek

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Finanças
11 de julho de 2026 14H00
O mercado aprendeu a medir estoques, fábricas e patrimônio físico. Mas como medir inteligência, dados e conhecimento? O desafio das empresas hoje não é apenas criar valor, mas desenvolver métricas capazes de reconhecê-lo.

Carolina Almeida Cruz - Cofundadora e CEO da C-MORE

6 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo