Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
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Quanto mais tecnologia, mais humanos precisamos ser

Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.
Nossa missão é fortalecer um ecossistema dinâmico de colaboração onde startups, empresas e pesquisadores colaboram para desenhar soluções inovadoras e discutir desafios e avanços significativos para o âmbito corporativo. Sempre com uma abordagem sistêmica e inovadora, promovendo reflexões sobre o futuro, visando impulsionar transformações reais e criativas.
Chefe do Departamento de Fonoaudiologia dos hospitais BP Paulista e BP Mirante, além de professor dos programas de pós-graduação e mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein. Especialista em comunicação, com mais de 15 anos de atuação profissional. É fonoaudiólogo pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo, pós-graduado em Liderança pela Universidade de Harvard, mestre em Comunicação pela PUC-SP e doutor em Ciências da Saúde e Comunicação Humana pela Unesp. Ele também desenvolve pesquisas científicas e orienta estudos na área de Comunicação Humana.

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Isaac Newton formulou uma das leis mais conhecidas da Física: para toda ação existe uma reação de mesma intensidade e em sentido oposto. Evidentemente, essa lei não explica o comportamento humano, mas sua lógica oferece uma metáfora interessante para compreender o momento em que vivemos.

Nunca produzimos tanta tecnologia em tão pouco tempo. A inteligência artificial, a automação, os algoritmos e a hiperconectividade estão transformando a maneira como trabalhamos, consumimos, aprendemos e nos relacionamos. Esse movimento é irreversível e representa uma das maiores oportunidades da história.

Mas, ao mesmo tempo em que aceleramos a tecnologia, cresce um movimento silencioso em direção ao humano.

Quanto mais digital se torna o mundo, maior passa a ser o valor daquilo que nenhuma máquina consegue reproduzir plenamente: presença, empatia, confiança, cuidado, gentileza e relações genuínas.

Essa não é uma percepção romântica. É um fenômeno que começa a ser demonstrado por diferentes áreas do conhecimento.

A neurociência tem mostrado, de forma consistente, que nosso cérebro foi moldado para viver em sociedade. Um dos estudos mais emblemáticos da área, conduzido por Naomi Eisenberger e colaboradores, demonstrou que a rejeição social ativa regiões cerebrais semelhantes às envolvidas na dor física. Em outras palavras, conexões humanas não são apenas agradáveis: elas são uma necessidade biológica.

Essa conclusão é reforçada por uma das pesquisas mais longas já realizadas sobre desenvolvimento humano. O Harvard Study of Adult Development acompanha pessoas há mais de oito décadas e chegou a uma conclusão simples e poderosa: o principal preditor de saúde, felicidade e longevidade não é riqueza, sucesso profissional ou fama. São relacionamentos de qualidade.

Talvez por isso estejamos observando mudanças importantes no comportamento da sociedade.

Após a pandemia, a casa voltou a ocupar um papel central na vida das pessoas. Relatórios internacionais, como o Global Real Estate Bubble Index, mostram a valorização expressiva do mercado residencial em diversos países, especialmente no segmento de alto padrão. Paralelamente, o turismo mundial retomou crescimento acelerado. No Brasil, as viagens domésticas também alcançaram números expressivos. Depois de um longo período de isolamento, as pessoas passaram a investir mais em experiências, convivência e qualidade de vida.

Enquanto isso, dentro das empresas, outra transformação acontece.

Durante décadas, qualidade foi considerada um diferencial competitivo.

Hoje, qualidade é apenas o ponto de partida.

Nenhuma organização é escolhida porque entrega qualidade. Espera-se que ela entregue qualidade. Da mesma forma, dominar ferramentas digitais ou utilizar inteligência artificial deixou de ser vantagem. Tornou-se requisito básico.

O verdadeiro diferencial mudou.

Ele está na capacidade de interpretar informações, fazer boas perguntas, conectar conhecimentos aparentemente distantes, construir repertório e compreender pessoas.

Vivemos uma época em que praticamente toda informação está disponível em poucos segundos. O desafio deixou de ser acessar conhecimento. Passou a ser produzir significado a partir dele.

A inteligência artificial acelera esse processo.

E é justamente por isso que acredito na tecnologia que empodera o ser humano.

Os estudos mais recentes sobre colaboração entre humanos e inteligência artificial apontam nessa direção. Pesquisadores da Harvard Business School e do MIT observaram que profissionais apoiados por IA aumentaram significativamente sua produtividade e a qualidade de suas entregas. Mas o aspecto mais interessante foi outro: os melhores resultados ocorreram quando a inteligência artificial ampliou as capacidades humanas, e não quando tentou substituí-las.

A tecnologia executa tarefas.

As pessoas constroem confiança.

A tecnologia organiza informações.

As pessoas interpretam contextos.

A tecnologia responde perguntas.

As pessoas formulam as perguntas certas.

Esse talvez seja o maior aprendizado desta década.

Quanto mais evolui a inteligência artificial, mais valiosas se tornam as competências essencialmente humanas.

E isso exige uma mudança profunda na maneira como educamos profissionais e lideramos organizações.

Precisamos voltar a ensinar algo que, por muito tempo, pareceu óbvio.

Olhar para o outro.

Criar vínculos.

Demonstrar interesse genuíno.

Escutar antes de responder.

Ser gentil.

Vivemos uma cena cada vez mais comum: pessoas escondidas atrás da tela do celular para evitar um simples “bom dia”. Nunca estivemos tão conectados digitalmente e, ao mesmo tempo, tão distantes nas pequenas interações do cotidiano.

Talvez seja hora de reconstruirmos um repertório de atenção.

Hospitalidade não deve ser entendida apenas como um atributo da hotelaria. Ela pode se tornar uma linguagem de liderança.

Hospitalidade é dizer, mesmo sem palavras: “eu vejo você”, “eu estava esperando você”, “você importa”, “estou aqui para ajudar”.

Esse tipo de experiência dificilmente será automatizado.

A tecnologia continuará evoluindo em velocidade exponencial.

E isso é uma excelente notícia.

Mas talvez a grande vantagem competitiva do futuro não esteja em quem possui mais inteligência artificial.

Esteja em quem consegue utilizar toda essa tecnologia para ampliar aquilo que sempre tornou as organizações extraordinárias: a capacidade humana de criar relações de confiança.

Porque, no fim, o futuro provavelmente não será definido pela disputa entre pessoas e máquinas.

Será definido pela forma como escolhemos usar as máquinas para potencializar aquilo que há de mais humano em nós.

Referências

  • Cacioppo, J. T., & Patrick, W. (2008). Loneliness: Human Nature and the Need for Social Connection. W. W. Norton.
  • Dell’Acqua, F., et al. (2023). Navigating the Jagged Technological Frontier: Field Experimental Evidence of the Effects of AI on Knowledge Worker Productivity and Quality. Harvard Business School Working Paper.
  • Eisenberger, N. I., Lieberman, M. D., & Williams, K. D. (2003). “Does Rejection Hurt? An fMRI Study of Social Exclusion”. Science, 302(5643), 290–292.
  • Gallup. (2025). State of the Global Workplace.
  • Harvard Study of Adult Development. Harvard University.
  • Lieberman, M. D. (2013). Social: Why Our Brains Are Wired to Connect. Crown Publishers.
  • McKinsey & Company. (2025). The State of AI.
  • Organização Mundial do Turismo (ONU Turismo). World Tourism Barometer (edição mais recente).
  • Stanford University. (2025). AI Index Report 2025.
  • UBS. (2025). Global Real Estate Bubble Index.
  • Guidara, W. (2022). Unreasonable Hospitality. Optimism Press.

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