Liderança, Marketing & growth
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Quem vê as baratas cedo lidera melhor

Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.
Ex-consultor de estratégia da BCG e executivo internacional de marketing. Iniciou sua carreira na Danone no Canadá, desenvolveu experiência nos Estados Unidos na PepsiCo e posteriormente liderou portfólios internacionais de marcas em vários mercados na Suntory. Ao longo de sua carreira trabalhou com equipes e marcas em diversos países da Europa e das Américas. Atualmente escreve e ensina sobre liderança de marketing, crescimento internacional e gestão de marcas em ambientes multi-mercados.

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Uma das transições mais traiçoeiras da carreira em marketing acontece quando alguém sai de uma função local e assume uma posição regional ou global. No mercado local, o profissional costuma vencer pela proximidade: conhece o consumidor, o cliente, os canais, os rituais de execução e a equipe sobre a qual tem influência direta. Depois vem a promoção. E, com ela, um novo jogo.

De repente, o trabalho passa a ser feito à distância, com mercados que a pessoa não conhece tão bem, por meio de estruturas matriciais, linhas pontilhadas e equipes que têm outras marcas, outras pressões e, às vezes, pouca disposição para acolher mais uma grande ideia vinda da matriz. Aquilo que fazia o profissional brilhar no mercado local continua sendo útil. Mas já não basta. Em alguns casos, até atrapalha.

É por isso que tantos bons profissionais de marketing local tropeçam em funções internacionais. Eles imaginam que o novo desafio está principalmente em fazer melhor estratégia, trazer mais criatividade ou convencer melhor. Tudo isso importa. Mas não é o primeiro teste. No marketing internacional, uma das competências mais valiosas é menos vistosa: perceber cedo os sinais fracos de que a relação entre o centro e os mercados está começando a se deteriorar.

Gosto de pensar nesses sinais como “baratas”. A imagem vem de uma observação famosa de Warren Buffett: nunca existe apenas uma barata. O primeiro sinal desagradável raramente é o problema inteiro. Na maioria das vezes, é apenas o indício de algo mais profundo escondido atrás da parede.

Pense em uma situação comum. Um mercado local envia, de repente, uma peça de comunicação desenvolvida por conta própria, acompanhada de uma mensagem simpática dizendo que talvez ela possa servir também para outros países. Na superfície, isso pode parecer positivo: agilidade, iniciativa, empreendedorismo. Mas, muitas vezes, o que isso revela é outra coisa: diálogo frágil, necessidade mal antecipada, duplicação de trabalho, risco de qualidade inconsistente e uma equipe central que passou a ser contornada.

Outro sinal aparece quando toda conversa entre centro e mercado gira em torno do que o país “precisa”: um vídeo, um key visual, materiais de ponto de venda, uma pesquisa, uma inovação, uma nova apresentação. Cada pedido, isoladamente, pode fazer sentido. O problema é quando a relação inteira se resume a isso. Equipes maduras deveriam discutir ambição, obstáculos do negócio, prioridades, execução, escolhas de investimento e trade-offs estratégicos. Os assets deveriam ser consequência dessa conversa, não o substituto dela.

Há também o caso em que o orçamento de pesquisa começa a ser gasto em projetos que nunca passaram por alinhamento prévio: um teste de conceito, um estudo sobre um segmento, uma exploração de inovação. Isso não é apenas autonomia local. Muitas vezes, é sintoma de uma conversa estratégica insuficiente e de um centro que descobre tarde demais para onde a marca está indo.

Depois vêm os sinais operacionais, que costumam ser ainda mais eloquentes. Fecha a janela de compra e um mercado não encomendou os materiais de ponto de venda ligados às prioridades que haviam sido acordadas. Ou o plano anual estabeleceu uma direção clara, mas, ao longo do ano, o investimento acaba migrando para outras frentes. Isso não é sobre o centro querer controlar demais. É sobre entender se a engrenagem entre matriz e mercados está realmente funcionando. Em organizações internacionais, a falha de processo quase sempre aparece antes da falha de desempenho.

O problema é que muitas equipes centrais leem mal esses sinais e, pior, reagem de forma equivocada. Um erro frequente é a síndrome da torre de marfim: o centro cria programas, ferramentas ou pesquisas que os mercados não pediram, não ajudaram a desenhar e, no fundo, nem consideram tão relevantes. Depois apresenta tudo com solenidade, esperando entusiasmo. Quando ele não vem, interpreta a reação como falta de apreciação. Muitas vezes, é apenas falta de relevância.

O erro oposto é a síndrome do tira-pedidos. O mercado pede um vídeo, e o centro faz um vídeo. Outro pede uma plataforma promocional, e a plataforma é produzida. Ninguém para para discutir se aquele pedido é realmente a melhor resposta para o problema. O centro deixa de ser parceiro estratégico e vira prestador de serviço com cargo mais elegante.

Os melhores profissionais internacionais operam de outro jeito. Primeiro, separam pedido de necessidade. Antes de correr para produzir algo, tentam entender o problema real: que obstáculo precisa ser resolvido, que alavanca de crescimento importa mais, que papel a marca deve desempenhar naquele mercado. Segundo, deixam o calendário dos mercados orientar os projetos, e não o contrário. Um toolkit excelente que chega tarde continua sendo inútil. Terceiro, agem como parceiros estratégicos, não como chefes distantes nem como agências internas. E, por fim, falam com mais gente do que apenas o líder local de marketing, porque muitas limitações decisivas estão na direção-geral, no comercial ou na operação.

Os melhores também entendem que alguma tensão faz parte do modelo. Relações saudáveis entre centro e mercados não são aquelas em que todos concordam educadamente com o deck. O centro existe para proteger a consistência da marca e o longo prazo. O mercado existe para defender a realidade comercial, as restrições locais e o que de fato é exequível. Algum atrito não é disfunção. É parte do desenho.

No fim, talvez seja esse o verdadeiro sinal de maturidade em uma função internacional. Os melhores não são apenas os mais carismáticos, os mais criativos ou os melhores apresentadores. São os que percebem cedo quando a relação se tornou transacional, quando os pedidos substituíram a estratégia, quando os mercados começaram a agir sem alinhamento e quando o silêncio já está dizendo alguma coisa. No marketing local, a força muitas vezes vem da proximidade. No marketing internacional, ela vem, com frequência, da capacidade de detectar cedo o que os outros ainda não perceberam.

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