Liderança, Marketing & growth
5 minutos min de leitura

Quem vê as baratas cedo lidera melhor

Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.
Ex-consultor de estratégia da BCG e executivo internacional de marketing. Iniciou sua carreira na Danone no Canadá, desenvolveu experiência nos Estados Unidos na PepsiCo e posteriormente liderou portfólios internacionais de marcas em vários mercados na Suntory. Ao longo de sua carreira trabalhou com equipes e marcas em diversos países da Europa e das Américas. Atualmente escreve e ensina sobre liderança de marketing, crescimento internacional e gestão de marcas em ambientes multi-mercados.

Compartilhar:

Uma das transições mais traiçoeiras da carreira em marketing acontece quando alguém sai de uma função local e assume uma posição regional ou global. No mercado local, o profissional costuma vencer pela proximidade: conhece o consumidor, o cliente, os canais, os rituais de execução e a equipe sobre a qual tem influência direta. Depois vem a promoção. E, com ela, um novo jogo.

De repente, o trabalho passa a ser feito à distância, com mercados que a pessoa não conhece tão bem, por meio de estruturas matriciais, linhas pontilhadas e equipes que têm outras marcas, outras pressões e, às vezes, pouca disposição para acolher mais uma grande ideia vinda da matriz. Aquilo que fazia o profissional brilhar no mercado local continua sendo útil. Mas já não basta. Em alguns casos, até atrapalha.

É por isso que tantos bons profissionais de marketing local tropeçam em funções internacionais. Eles imaginam que o novo desafio está principalmente em fazer melhor estratégia, trazer mais criatividade ou convencer melhor. Tudo isso importa. Mas não é o primeiro teste. No marketing internacional, uma das competências mais valiosas é menos vistosa: perceber cedo os sinais fracos de que a relação entre o centro e os mercados está começando a se deteriorar.

Gosto de pensar nesses sinais como “baratas”. A imagem vem de uma observação famosa de Warren Buffett: nunca existe apenas uma barata. O primeiro sinal desagradável raramente é o problema inteiro. Na maioria das vezes, é apenas o indício de algo mais profundo escondido atrás da parede.

Pense em uma situação comum. Um mercado local envia, de repente, uma peça de comunicação desenvolvida por conta própria, acompanhada de uma mensagem simpática dizendo que talvez ela possa servir também para outros países. Na superfície, isso pode parecer positivo: agilidade, iniciativa, empreendedorismo. Mas, muitas vezes, o que isso revela é outra coisa: diálogo frágil, necessidade mal antecipada, duplicação de trabalho, risco de qualidade inconsistente e uma equipe central que passou a ser contornada.

Outro sinal aparece quando toda conversa entre centro e mercado gira em torno do que o país “precisa”: um vídeo, um key visual, materiais de ponto de venda, uma pesquisa, uma inovação, uma nova apresentação. Cada pedido, isoladamente, pode fazer sentido. O problema é quando a relação inteira se resume a isso. Equipes maduras deveriam discutir ambição, obstáculos do negócio, prioridades, execução, escolhas de investimento e trade-offs estratégicos. Os assets deveriam ser consequência dessa conversa, não o substituto dela.

Há também o caso em que o orçamento de pesquisa começa a ser gasto em projetos que nunca passaram por alinhamento prévio: um teste de conceito, um estudo sobre um segmento, uma exploração de inovação. Isso não é apenas autonomia local. Muitas vezes, é sintoma de uma conversa estratégica insuficiente e de um centro que descobre tarde demais para onde a marca está indo.

Depois vêm os sinais operacionais, que costumam ser ainda mais eloquentes. Fecha a janela de compra e um mercado não encomendou os materiais de ponto de venda ligados às prioridades que haviam sido acordadas. Ou o plano anual estabeleceu uma direção clara, mas, ao longo do ano, o investimento acaba migrando para outras frentes. Isso não é sobre o centro querer controlar demais. É sobre entender se a engrenagem entre matriz e mercados está realmente funcionando. Em organizações internacionais, a falha de processo quase sempre aparece antes da falha de desempenho.

O problema é que muitas equipes centrais leem mal esses sinais e, pior, reagem de forma equivocada. Um erro frequente é a síndrome da torre de marfim: o centro cria programas, ferramentas ou pesquisas que os mercados não pediram, não ajudaram a desenhar e, no fundo, nem consideram tão relevantes. Depois apresenta tudo com solenidade, esperando entusiasmo. Quando ele não vem, interpreta a reação como falta de apreciação. Muitas vezes, é apenas falta de relevância.

O erro oposto é a síndrome do tira-pedidos. O mercado pede um vídeo, e o centro faz um vídeo. Outro pede uma plataforma promocional, e a plataforma é produzida. Ninguém para para discutir se aquele pedido é realmente a melhor resposta para o problema. O centro deixa de ser parceiro estratégico e vira prestador de serviço com cargo mais elegante.

Os melhores profissionais internacionais operam de outro jeito. Primeiro, separam pedido de necessidade. Antes de correr para produzir algo, tentam entender o problema real: que obstáculo precisa ser resolvido, que alavanca de crescimento importa mais, que papel a marca deve desempenhar naquele mercado. Segundo, deixam o calendário dos mercados orientar os projetos, e não o contrário. Um toolkit excelente que chega tarde continua sendo inútil. Terceiro, agem como parceiros estratégicos, não como chefes distantes nem como agências internas. E, por fim, falam com mais gente do que apenas o líder local de marketing, porque muitas limitações decisivas estão na direção-geral, no comercial ou na operação.

Os melhores também entendem que alguma tensão faz parte do modelo. Relações saudáveis entre centro e mercados não são aquelas em que todos concordam educadamente com o deck. O centro existe para proteger a consistência da marca e o longo prazo. O mercado existe para defender a realidade comercial, as restrições locais e o que de fato é exequível. Algum atrito não é disfunção. É parte do desenho.

No fim, talvez seja esse o verdadeiro sinal de maturidade em uma função internacional. Os melhores não são apenas os mais carismáticos, os mais criativos ou os melhores apresentadores. São os que percebem cedo quando a relação se tornou transacional, quando os pedidos substituíram a estratégia, quando os mercados começaram a agir sem alinhamento e quando o silêncio já está dizendo alguma coisa. No marketing local, a força muitas vezes vem da proximidade. No marketing internacional, ela vem, com frequência, da capacidade de detectar cedo o que os outros ainda não perceberam.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Contratar, promover ou buscar fora: a decisão que separa o líder do gestor

Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

O retorno ao escritório e a ilusão do controle

O retorno obrigatório ao trabalho presencial tem sido defendido como uma solução para desafios de gestão, colaboração e produtividade. O artigo propõe uma reflexão: organizações de alta performance gerenciam pessoas pela presença ou pelo valor que entregam?

O RH precisa parar de provar que é importante

Durante um dos maiores congressos de RH do mundo, uma provocação ganhou destaque: o futuro da área não será definido por sua capacidade de justificar sua relevância, mas por demonstrar, com dados e resultados, o impacto que gera para o negócio. Em um cenário marcado por inteligência artificial, novas formas de trabalho e pressão crescente por resultados, o RH é chamado a assumir um papel cada vez mais estratégico.

O que a Odisseia pode ensinar às empresas sobre liderança e crise

Christopher Nolan levou a Odisseia de volta às conversas contemporâneas. Este artigo aproveita a trajetória de Odisseu para discutir um dos desafios mais invisíveis das organizações: reconhecer quando estratégias que garantiram sobrevivência no passado passaram a limitar confiança, aprendizagem e crescimento no presente.

Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de julho de 2026 15H00
A liderança centrada no controle está perdendo espaço. Este artigo mostra como a capacidade de desenvolver autonomia será o principal diferencial das organizações do futuro.

Marcelo Neri - CEO, Mentor Executivo, Palestrante Internacional e Escritor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
1º de julho de 2026 08H00
Muito além do debate entre humano e IA, este artigo expõe o verdadeiro problema do atendimento moderno: não é quem responde, mas quem tem poder para decidir, e por que a falta de autoridade na ponta continua destruindo experiências e confiança.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
30 de junho de 2026 15H00
A partir dos sinais do Web Summit Rio 2026, este artigo mostra como a saúde mental deixou de ser benefício periférico para se tornar uma variável crítica de negócio, impactando investimento, regulação e a própria sustentabilidade das empresas.

Weber Stival - Fundador e CEO da Unolife.

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de junho de 2026 08H00
A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

Erich Silva - COO e Head de Talentos da Lecom

3 minutos min de leitura
Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de junho de 2026 08H00
Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de junho de 2026 08H00
Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo