Carreira

Segredos da carreira de quem venceu o Nobel

Pesquisadora canadense, Larisa V. Shavinina, realizou um estudo em que analisa as habilidades de nomes da ciência que foram laureados com o Nobel; os resultados da pesquisa proporcionam insights inteligentes sobre foco, intuição e carreira
Augusto é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Four, Coordenador da Lifeshape Brasil, Professor convidado da Fundação Dom Cabral, criador da certificação Designer de Carreira e produtor do Documentário Propósito Davi Lago é coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP, professor de pós-graduação na FAAP e autor best-seller de obras como “Um Dia Sem Reclamar” (Citadel) e “Formigas” (MC). Apresentador do programa Futuro Imediato na Univesp/TV Cultura

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Os vencedores do Prêmio Nobel são lembrados por suas realizações e capacidades intelectuais inquestionavelmente singulares. Contudo, pouco se estudou sobre as habilidades profissionais dessas grandes personalidades. Foi baseada nesta premissa que a professora Larisa V. Shavinina da Université du Québec realizou um estudo pioneiro sobre o talento dos laureados no gerenciamento de suas próprias carreiras.

Na pesquisa *[Scientific Talent: The Case of Nobel Laureates](https://link.springer.com/chapter/10.1007%2F978-1-4020-6162-2_32)*, a Dra. Shavinina descobriu os dois grandes diferenciais dos premiados. Primeiro, uma capacidade cognitiva objetivamente singular: eles conseguem ver, compreender e interpretar as coisas de uma maneira única. No entanto, em segundo lugar, capacidades extracognitivas: intuições, preferências, crenças, intenções e processos gerenciais. Estes aspectos não são exclusivos dos gênios, mas acessíveis à carreira de qualquer profissional. Nosso objetivo neste artigo é realçar essas marcas replicáveis das carreiras geniais.

O contexto da investigação merece ser destacado: a Dra. Shavinina é uma das autoridades mais respeitadas na interface entre inovação e economia, sobretudo após sua participação como editora do projeto acadêmico *Manual Internacional da Inovação* (*International Handbook on Innovation*). O trabalho é o primeiro, e até hoje único livro do gênero, considerado o início da análise científica da inovação, isso é, a análise interdisciplinar que engloba conhecimentos rigorosos de economia, negócios, administração e psicologia aplicada.

Ao aplicar essas metodologias de ponta na análise de carreira dos vencedores do Nobel, Shavinina identificou fatores-padrão. Ela ressalta que “são fenômenos ainda pouco estudados e compreendidos do ponto de vista acadêmico”, mas que inquestionavelmente as habilidades extracognitivas contribuíram para o “cumprimento criativo dos níveis mais elevados de intelectualidade que resultaram em grandes descobertas”.

Shavinina organizou as habilidades extracognitivas em quatro componentes interrelacionados: __(1)__ sentimentos criativos intelectualmente específicos; __(2)__ crenças e intenções específicas; __(3)__ valores intelectuais e preferências específicas; __(4)__ processos intuitivos. A figura abaixo apresenta os componentes como anéis inter-relacionados:

![Habilidades extracognitivas](//images.contentful.com/ucp6tw9r5u7d/1iDAEdGHo1vIDMhFsoVvSk/e38198966251bdeeca925a314210e4d1/Sem_t__tulo.jpg)

### Sentimentos criativos intelectualmente específicos

O primeiro componente abrange uma ampla gama de sentimentos, que desempenham um papel importante na criação intelectual. Um dos sentimentos mais comuns era o senso de direção nas pesquisas, na busca pelos mentores certos e no campo científico adequado para seus talentos.

Por exemplo, Albert Einstein, vencedor do Nobel de Física em 1921, ao dialogar com Max Wertheimer sobre o desenvolvimento da teoria da relatividade e a forma de pensar que a originou, destacou: “durante todos aqueles anos houve a sensação de direção, de ir direto para algo concreto. Isto é, claro, muito difícil expressar esse sentimento em palavras, mas era decididamente o caso”.

Michael S. Brown, Nobel de Medicina em 1985, expressou um sentimento semelhante em uma mesa redonda com outros laureados: “enquanto fazíamos nosso trabalho, eu acho, sentíamos que às vezes havia quase uma mão nos guiando. Porque iríamos de uma etapa para a próxima, e de alguma forma saberíamos qual era o caminho certo a seguir. E eu realmente não posso dizer como sabíamos disso”.

Desse modo, Shavinina afirma que ter um senso de direção é um padrão nos laureados. Mas há outros sentimentos importantes como, por exemplo, noções de harmonia, beleza, estilo, incluindo senso de “problemas importantes”, “boas ideias”, “teorias corretas”, “soluções elegantes”. Profissionais que trabalham a esmo, por puro acaso, sem propósitos claros ou razoáveis, não são capazes de alcançar resultados superiores em suas carreiras.

### Crença em padrões elevados de desempenho e intenções específicas

As pesquisas descobriram que determinadas crenças e intenções são cruciais para os ganhadores do Nobel. Entre essas crenças destacam-se as convicções na importância de se exigir padrões elevados para a própria performance profissional. Robert Woodward, Nobel de Química de 1965, afirmou: “as ideias e a teoria podem ter um aspecto estético, mas sua beleza e elegância sempre esteve ligada a uma relação concreta com uma realidade física”.

Assim, verifica-se que uma profunda convicção na excelência dos próprios padrões de pesquisa e desempenho atravessam praticamente todas as biografias de vencedores do prêmio. Segundo Shavinina, “essas crenças determinam a autoconfiança dos ganhadores do Prêmio Nobel e a extraordinária estabilidade de seu trabalho intelectualmente criativo”. Há uma intenção explícita em alcançar os padrões elevados nessas grandes trajetórias profissionais.

### Valores e preferências específicas por grandes desafios e pesquisas de vanguarda

Esses valores incluem, por exemplo, a escolha inevitável do campo de atuação e dos tipos de problemas a serem enfrentados. Alguns têm uma preferência para problemas científicos difíceis, que permaneceram décadas sem solução. Richard Feynman, Nobel de Física em 1965, não se contentou com o relativo reconhecimento profissional que recebeu por volta dos 20 anos de idade, e dedicou-se a resolver problemas desafiadores.

Olhando em retrospecto para a própria carreira, Feynman afirmou que diante de problemas complexos “não existem sucessos fáceis. Mas a satisfação que você obtém quando prova que está certo é tão grande que, mesmo que ocorra apenas duas vezes na vida, vale a pena”.

Outros vencedores do Nobel, optaram por explorar os campos científicos nas fronteiras do conhecimento. Ao invés de se voltarem para problemas tradicionais, concentraram suas atividades na vanguarda. Foi este o caso de Enrico Fermi, Nobel de Física de 1938.

O estudo de Shavinina afirma que “em 1929 Fermi tomou uma forte decisão: a única área remanescente da Física para atacar, onde tudo ainda era desconhecido, era o coração da estrutura atômica – a Física Nuclear”. Abandonando a estabilidade profissional conquistada, Fermi realizou grandes descobertas e entrou para a história da ciência. Assim, a escolha dos desafios é outro componente que separa carreiras normais de carreiras extraordinárias.

### Processos intuitivos

Talvez esse seja o componente extracognitivo mais conhecido das grandes personalidades científicas. Henri Poincaré afirmou: “É pela lógica que nós provamos. É pela intuição que nós descobrimos”. Amparada em outros quatro tratados sobre habilidades dos grandes cientistas, Shavinina afirma que “certos indivíduos possuem um sentimento intuitivo, assim que iniciam sua atividade intelectual criativa, sobre como será o produto final que estão buscando”.

Por exemplo, a intuição desempenhou um papel importante na descoberta da estrutura do DNA, pela qual James Watson e Francis Crick venceram o Nobel de Medicina em 1962. Os dois cientistas foram capazes de “trabalhar com um número mínimo de suposições ao abordar um problema”. Com isso, identifica-se a capacidade de tomar decisões adequadas ainda que não haja dados completos o suficiente.

Na carreira profissional nem sempre há tempo ou possibilidade para análises pormenorizadas na tomada de decisão, por isso, é crucial para um gestor ter sensibilidade e autoconsciência das próprias capacidades intuitivas.

### Conclusão: cultivando a genialidade profissional

Os vencedores do prêmio Nobel em áreas científicas ocupam um lugar de destaque nas discussões contemporâneas sobre o que é o talento científico e profissional. O estudo pioneiro da Profa. Larisa V. Shavinina sobre as habilidades extracognitivas desses laureados elucida componentes recorrentes em suas carreiras profissionais.

Vencer um Nobel representa o pináculo do sucesso nas expertises científicas, portanto, conhecer os diferenciais profissionais desse seleto grupo pode aumentar em muito nosso próprio caminho profissional. Genialidade profissional inclui seguir os passos de quem é excelente naquilo que faz.

## Insights para a carreira

__1. Aprenda a tirar vantagem de suas intuições:__ um exercício prático muito útil para nossas próprias carreiras é avaliar o resultado de nossas decisões intuitivas, isto é, nossas decisões em situações de improviso, instabilidade e ausência de dados que embasem os caminhos a seguir. Ter consciência das áreas específicas onde nossas intuições provaram ser eficazes é determinante para nosso desenvolvimento em gestão e liderança. Os líderes são conhecidos por suas intuições singulares.

__2. Escolha desafios inteligentes para a carreira:__ desafios aquém do potencial de um profissional terminam por desanimá-lo ou trazer rendimentos muito abaixo do que seria capaz de alcançar. A escolha de desafios certos é um passo essencial no direcionamento da carreira. As duas áreas de desafios profissionais que marcam a carreira dos grandes cientistas podem auxiliar em nossas próprias escolhas: desafios de difícil solução e desafios na vanguarda de um setor profissional.

__3. Tenha uma direção, ainda que mínima, para sua carreira mais ampla:__ em todos os campos de atuação profissional, dos atletas de alto rendimento aos cientistas premiados, identifica-se o senso de direção e propósito. Portanto, é uma anomalia na gestão de carreira seguir sem um pingo de noção de para onde se está indo. Crises vocacionais são oportunidades de rever as direções da carreira. Avaliação de resultados e bons mentores são indispensáveis na calibragem da direção profissional.

*Gostou do artigo escrito por Augusto Jr. e Davi Lago? Saiba mais sobre perspectivas de carreira assinando [nossas newletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita*.

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Augusto é Diretor de Relações Institucionais do Instituto Four, Coordenador da Lifeshape Brasil, Professor convidado da Fundação Dom Cabral, criador da certificação Designer de Carreira e produtor do Documentário Propósito Davi Lago é coordenador de pesquisa no Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC-SP, professor de pós-graduação na FAAP e autor best-seller de obras como “Um Dia Sem Reclamar” (Citadel) e “Formigas” (MC). Apresentador do programa Futuro Imediato na Univesp/TV Cultura

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