Impactada e reflexiva depois de assistir às principais palestras do SXSW 2026 – maior festival de inovação, tecnologia, cinema e música do mundo – que aconteceu em Austin, no Texas. Decidi escrever este artigo sobre um tema que ficou latejando na minha cabeça: convivência.
Convivência, segundo o “dicionário Google”, significa vida em comum, contato diário ou frequente, e também pode ser entendida como intimidade, familiaridade. Dentro do contexto mundial de aprendizagem, o verbo “conviver” foi utilizado em 1996 pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21 da UNESCO para definir um dos quatro pilares¹ do lifelong learning e orientar o desenvolvimento humano contínuo.
Nesse contexto, o termo “aprender a conviver”, de forma bem resumida, passou a ser entendido como a habilidade de aprender por meio da interação com outras pessoas. Pela escuta, pela troca de experiências, pela construção coletiva, pelo contato com o diferente e pela discordância.
Se a gente parar para pensar, foi assim que evoluímos como sociedade: resolvendo problemas juntos, testando ideias em grupo, aprendendo com quem pensa diferente da gente. E talvez seja por isso que esse é, na minha opinião, o pilar mais difícil dos quatro. Justamente porque conviver envolve outras pessoas e, com isso, vêm a diferença, a necessidade de escuta, o saber receber um feedback, o conflito. Elementos que não controlamos totalmente, que exigem energia cognitiva e emocional e que nem sempre são confortáveis. E foi exatamente por isso que o tema me chamou tanta atenção ao ver os conteúdos do SXSW.
Porque, ao mesmo tempo em que vimos um avanço impressionante e positivo no uso da inteligência artificial em diferentes dimensões da nossa vida, me preocupou ver o quanto a tecnologia está intensificando a mudança na forma como nos relacionamos com as outras pessoas (algo que as redes sociais, lá atrás, já começaram a fazer) e, mais, como estamos vendo também uma redução da convivência entre humanos. Estamos convivendo mais com mundos digitais: e-sports, IA, realidades virtuais, moedas virtuais etc. E, “não sou eu quem diz”, é a Amy Webb, futurista americana e um dos grandes destaques do festival este ano. Ela trouxe exemplos que já estão acontecendo: pessoas se casando com personagens criados por IA generativa, entre 25% e 50% dos americanos buscando apoio para saúde mental em algoritmos como ChatGPT, Claude ou Gemini, amizades sendo construídas em ambientes totalmente virtuais, e por aí vai.
E o problema é que nada disso é por acaso. Esses sistemas são desenhados para gerar vínculo entre IA e humano, para nos fazer sentir compreendidos, para responder de forma rápida, ajustada, disponível o tempo todo, de preferência sem discordar, sem nos julgar, sem gerar conflito. Só nos exaltando e nos deixando com a sensação de que nossas necessidades emocionais estão atendidas por ele, pelo algoritmo. E ainda, em espaços mais seguros (nossas casas), onde podemos interromper a relação com eles a qualquer momento que sentirmos desconforto.
E qual pode ser (ou já é) o resultado disso? Humanos querendo cada vez mais se relacionar com máquinas e não com outros humanos, porque, afinal de contas, dá menos trabalho.
E foi aí que me peguei pensando em muitas coisas: não aprendemos nada com a pandemia que vivemos? Já não vimos o que acontece quando a presença física entre humanos cai? E agora, o que acontece com a nossa aprendizagem e até com o nosso desenvolvimento enquanto espécie, se a nossa convivência com outros humanos diminui?
Para aprofundar a reflexão sobre aprendizagem, fui beber de outra especialista que me marcou no SXSW, Kasley Killam, que trabalha com o conceito de saúde social. Em uma das falas, ela trouxe uma ideia simples, mas potente, sobre uma das habilidades que considero mais importantes: “a gente não constrói resiliência sozinho; resiliência nasce das relações”. Resiliência é considerada pelo Fórum Econômico Mundial uma das habilidades fundamentais para os profissionais do futuro. Ou seja, estamos falando de algo central para o crescimento de pessoas e empresas, e que depende diretamente da convivência entre pessoas.
Quando olhamos para o ambiente corporativo, esse “fenômeno” do isolamento começa a aparecer de forma bastante concreta. A dificuldade de dar e receber feedbacks com profundidade não é apenas uma questão de técnica, mas é, muitas vezes, uma dificuldade de sustentar o impacto relacional dessas conversas. A baixa tolerância ao conflito não indica apenas falta de preparo (algo que um curso de CNV vai resolver), mas uma tentativa recorrente de evitar o desconforto que o conflito traz. Sobre isso, Amy Gallo – especialista em conflitos e colaboradora da Harvard Business Review disse: “o risco de não falar muitas vezes é maior do que o risco de ter uma conversa difícil”. Diferenças geracionais, por exemplo, que poderiam ser fonte de aprendizado e complementaridade, acabam se tornando ruído quando não há repertório para lidar com elas.
E, embora o fato de não se expor e conflitar menos possa gerar uma sensação momentânea de eficiência ou fluidez, o efeito de longo prazo tende a ser o oposto: desalinhamentos acumulados, relações superficiais e uma perda progressiva da capacidade de construção e coletiva. Sim, isso já acontecia antes da IA, mas não tínhamos para quem recorrer senão outro ser humano e, assim, a conexão, de alguma forma, era mantida. Agora, há quem escolha conviver só com máquinas.
Estamos falando de convivência digital versus convivência entre humanos, e esses dois mundos não são excludentes, mas pressupõem habilidades diferentes. Então, se estamos falando menos com os outros e mais com as máquinas para ter menos fricção, e se estamos deixando de nos relacionar, estamos perdendo oportunidades de aprender. Dentre muitas outras coisas, de aprender a ter resiliência e a sustentar conversas difíceis. Perdendo a oportunidade de aprender com as conexões não óbvias entre os seres humanos, algo fundamental para a criatividade e a inovação. De desenvolver outras habilidades, como empatia e colaboração entre colegas de trabalho, que tanto facilitam o aprender a conviver.
Se diminuirmos a convivência entre humanos, diminuímos também essas habilidades, porque nosso cérebro elimina o que a gente não usa (já falei disso em artigo anterior por aqui). Enfim, em um mundo onde, a cada notícia, comparamos o ser humano com máquinas, gostaria de lembrar que, por tudo o que vi no SXSW e no que acredito, a habilidade de conviver com outros seres humanos ganha ainda mais importância no processo de desenvolvimento contínuo. E o caminho de substituir o humano pelo digital é um caminho no qual atrofiamos nossas habilidades e perdemos nossa essência. Que essa não seja a nossa escolha como sociedade.




