Lifelong learning
6 minutos min de leitura

SXSW 2026: por que aprender a conviver pode ser a habilidade mais importante agora?

Quando conversar dá trabalho e a tecnologia não confronta, aprender a conviver se torna um desafio estratégico.
Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Compartilhar:

Impactada e reflexiva depois de assistir às principais palestras do SXSW 2026 – maior festival de inovação, tecnologia, cinema e música do mundo – que aconteceu em Austin, no Texas. Decidi escrever este artigo sobre um tema que ficou latejando na minha cabeça: convivência.

Convivência, segundo o “dicionário Google”, significa vida em comum, contato diário ou frequente, e também pode ser entendida como intimidade, familiaridade. Dentro do contexto mundial de aprendizagem, o verbo “conviver” foi utilizado em 1996 pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século 21 da UNESCO para definir um dos quatro pilares¹ do lifelong learning e orientar o desenvolvimento humano contínuo.

Nesse contexto, o termo “aprender a conviver”, de forma bem resumida, passou a ser entendido como a habilidade de aprender por meio da interação com outras pessoas. Pela escuta, pela troca de experiências, pela construção coletiva, pelo contato com o diferente e pela discordância.

Se a gente parar para pensar, foi assim que evoluímos como sociedade: resolvendo problemas juntos, testando ideias em grupo, aprendendo com quem pensa diferente da gente. E talvez seja por isso que esse é, na minha opinião, o pilar mais difícil dos quatro. Justamente porque conviver envolve outras pessoas e, com isso, vêm a diferença, a necessidade de escuta, o saber receber um feedback, o conflito. Elementos que não controlamos totalmente, que exigem energia cognitiva e emocional e que nem sempre são confortáveis. E foi exatamente por isso que o tema me chamou tanta atenção ao ver os conteúdos do SXSW.

Porque, ao mesmo tempo em que vimos um avanço impressionante e positivo no uso da inteligência artificial em diferentes dimensões da nossa vida, me preocupou ver o quanto a tecnologia está intensificando a mudança na forma como nos relacionamos com as outras pessoas (algo que as redes sociais, lá atrás, já começaram a fazer) e, mais, como estamos vendo também uma redução da convivência entre humanos. Estamos convivendo mais com mundos digitais: e-sports, IA, realidades virtuais, moedas virtuais etc. E, “não sou eu quem diz”, é a Amy Webb, futurista americana e um dos grandes destaques do festival este ano. Ela trouxe exemplos que já estão acontecendo: pessoas se casando com personagens criados por IA generativa, entre 25% e 50% dos americanos buscando apoio para saúde mental em algoritmos como ChatGPT, Claude ou Gemini, amizades sendo construídas em ambientes totalmente virtuais, e por aí vai.

E o problema é que nada disso é por acaso. Esses sistemas são desenhados para gerar vínculo entre IA e humano, para nos fazer sentir compreendidos, para responder de forma rápida, ajustada, disponível o tempo todo, de preferência sem discordar, sem nos julgar, sem gerar conflito. Só nos exaltando e nos deixando com a sensação de que nossas necessidades emocionais estão atendidas por ele, pelo algoritmo. E ainda, em espaços mais seguros (nossas casas), onde podemos interromper a relação com eles a qualquer momento que sentirmos desconforto.

E qual pode ser (ou já é) o resultado disso? Humanos querendo cada vez mais se relacionar com máquinas e não com outros humanos, porque, afinal de contas, dá menos trabalho.

E foi aí que me peguei pensando em muitas coisas: não aprendemos nada com a pandemia que vivemos? Já não vimos o que acontece quando a presença física entre humanos cai? E agora, o que acontece com a nossa aprendizagem e até com o nosso desenvolvimento enquanto espécie, se a nossa convivência com outros humanos diminui?

Para aprofundar a reflexão sobre aprendizagem, fui beber de outra especialista que me marcou no SXSW, Kasley Killam, que trabalha com o conceito de saúde social. Em uma das falas, ela trouxe uma ideia simples, mas potente, sobre uma das habilidades que considero mais importantes: “a gente não constrói resiliência sozinho; resiliência nasce das relações”. Resiliência é considerada pelo Fórum Econômico Mundial uma das habilidades fundamentais para os profissionais do futuro. Ou seja, estamos falando de algo central para o crescimento de pessoas e empresas, e que depende diretamente da convivência entre pessoas. 

Quando olhamos para o ambiente corporativo, esse “fenômeno” do isolamento começa a aparecer de forma bastante concreta. A dificuldade de dar e receber feedbacks com profundidade não é apenas uma questão de técnica, mas é, muitas vezes, uma dificuldade de sustentar o impacto relacional dessas conversas. A baixa tolerância ao conflito não indica apenas falta de preparo (algo que um curso de CNV vai resolver), mas uma tentativa recorrente de evitar o desconforto que o conflito traz. Sobre isso, Amy Gallo – especialista em conflitos e colaboradora da Harvard Business Review disse: “o risco de não falar muitas vezes é maior do que o risco de ter uma conversa difícil”. Diferenças geracionais, por exemplo, que poderiam ser fonte de aprendizado e complementaridade, acabam se tornando ruído quando não há repertório para lidar com elas.

E, embora o fato de não se expor e conflitar menos possa gerar uma sensação momentânea de eficiência ou fluidez, o efeito de longo prazo tende a ser o oposto: desalinhamentos acumulados, relações superficiais e uma perda progressiva da capacidade de construção e coletiva. Sim, isso já acontecia antes da IA, mas não tínhamos para quem recorrer senão outro ser humano e, assim, a conexão, de alguma forma, era mantida. Agora, há quem escolha conviver só com máquinas.

Estamos falando de convivência digital versus convivência entre humanos, e esses dois mundos não são excludentes, mas pressupõem habilidades diferentes. Então, se estamos falando menos com os outros e mais com as máquinas para ter menos fricção, e se estamos deixando de nos relacionar, estamos perdendo oportunidades de aprender. Dentre muitas outras coisas, de aprender a ter resiliência e a sustentar conversas difíceis. Perdendo a oportunidade de aprender com as conexões não óbvias entre os seres humanos, algo fundamental para a criatividade e a inovação. De desenvolver outras habilidades, como empatia e colaboração entre colegas de trabalho, que tanto facilitam o aprender a conviver.

Se diminuirmos a convivência entre humanos, diminuímos também essas habilidades, porque nosso cérebro elimina o que a gente não usa (já falei disso em artigo anterior por aqui). Enfim, em um mundo onde, a cada notícia, comparamos o ser humano com máquinas, gostaria de lembrar que, por tudo o que vi no SXSW e no que acredito, a habilidade de conviver com outros seres humanos ganha ainda mais importância no processo de desenvolvimento contínuo. E o caminho de substituir o humano pelo digital é um caminho no qual atrofiamos nossas habilidades e perdemos nossa essência. Que essa não seja a nossa escolha como sociedade.

Compartilhar:

Empreendedora, consultora e cofundadora da People Strat. Isabela conecta neurociência, comportamento e tecnologia para desenvolver pessoas e culturas mais humanas e inovadoras. Embaixadora de Inovação dos Hubs Learning Village e Porto Maravalley; e Top 3 Mulheres em Tecnologia pela Meta Ventures, acredita que aprender é o maior ato de liberdade e transformação.

Artigos relacionados

O Brasil tem muitos fundos ou muito risco? O que os números realmente mostram

O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

O que o espírito do tempo está tentando nos dizer? Afeto, autonomia e o desafio de construir o futuro

A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

E se envelhecer não fosse apenas uma consequência do tempo?

Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de outubro de 2026 15H00
Quando a visibilidade se transforma em critério implícito de reconhecimento, profissionais podem passar a priorizar projetos que geram exposição em detrimento daqueles que realmente precisam ser feitos. O artigo explora como o loud working pode afetar a colaboração e a dinâmica das equipes.

João Paulo Batistella - Fundador e CEO da Eleva Technologies,

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de outubro de 2026 08H00
De onde vem o termo, o que existe ao redor de um agente e por que transformar capacidade de raciocínio em trabalho confiável é uma decisão de gestão, não apenas de tecnologia.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
25 de outubro de 2026 14H00
À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Daniela Camargo - Head of People & Culture da VOLL

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de outubro de 2026 08H00
Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em diferentes regiões do planeta e tendem a se intensificar nas próximas décadas. Mais do que reagir aos desastres quando eles acontecem, o texto defende uma abordagem baseada em prevenção, planejamento e uso estratégico da tecnologia para reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de adaptação.

Álvaro Trilho - Diretor de Riscos da WTW Brasil

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
24 de outubro de 2026 14H00
A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Juliana Marinelli - Pesquisadora pHd de bem-estar digital

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de outubro de 2026 08H00
Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

Andrea Kohlrausch,- Presidente da Calçados Bibi

2 minutos min de leitura
Educação
23 de outubro de 2026 15H00
O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de outubro de 2026 08H00
A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing & growth
22 de outubro de 2026 15H00
O artigo defende que a criatividade deixou de ser um recurso pontual para se tornar uma capacidade organizacional capaz de conectar tecnologia, inovação, cultura e estratégia, sustentando o crescimento contínuo e a relevância das empresas no longo prazo.

Thais Lima - Diretora da MarkUp

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução