Inovação & estratégia
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Ter mais robôs já não é suficiente

Durante anos, a automação corporativa esteve associada à eliminação de tarefas repetitivas e operacionais. Agora, uma nova etapa começa a ganhar espaço: a integração entre RPA, inteligência artificial, APIs e agentes autônomos para coordenar processos inteiros de ponta a ponta.
CEO da Roboteasy e executivo com 30 anos de experiência em tecnologia aplicada a negócios. Atuou em multinacionais como Oracle e Gartner e fundou sua primeira empresa aos 22 anos, posteriormente vendida ao grupo Synapsis (TIVIT). Antes de assumir a Roboteasy, liderou a NEXDOM, onde esteve à frente da construção de uma infraestrutura digital que atende milhões de beneficiários no setor de saúde suplementar.

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Por muito tempo, falar em automação nas empresas era sinônimo de retirar das pessoas as tarefas repetitivas. A rotina se resumia a acessar sistemas, copiar dados de uma tela para outra, preencher planilhas e rodar tarefas do departamento financeiro. Esse modelo continua extremamente relevante. Mas ele não explica o que realmente está transformando o dia a dia das companhias hoje.

Ao olhar para os mais de 15 mil agentes em operação em mais de 150 clientes da Roboteasy, fica nítida essa virada de chave. As organizações estão saindo de uma lógica de automação de tarefas para uma lógica de automação inteligente de processos.

O RPA continua fazendo parte dessa arquitetura, principalmente onde a execução precisa ser rápida e padronizada. A diferença é que agora ele se conecta com APIs, inteligência artificial e agentes capazes de entender contexto, ler nuances e tomar decisões em tempo real. Na prática, essa união muda significativamente o alcance do que é possível transformar.

O RPA foi o começo, não o destino

A primeira geração de automação corporativa na Roboteasy foi construída principalmente sobre processos altamente estruturados. Não por acaso, Financeiro, Fiscal e Controladoria representam 37% dos processos que observamos em nossa base.

São áreas naturalmente adequadas à automação, já que trabalham com grandes volumes e com sistemas estruturados, além de apresentarem regras claras e resultados facilmente mensuráveis. Rotinas administrativas, como conciliações bancárias, lançamentos e processamento de documentos fiscais, são bons exemplos disso.

Entretanto, há uma diferença importante entre automatizar uma tarefa e transformar um processo. Uma empresa pode ter dezenas de robôs executando atividades isoladas e, ainda assim, manter processos fragmentados, pessoas fazendo intervenções entre sistemas e decisões dependendo de informações dispersas. O salto de maturidade acontece quando a organização começa a enxergar o processo de ponta a ponta.

Da tarefa para a jornada completa

É nesse momento de avanço em que as empresas buscam novas soluções para outras áreas, como Compras e Logística. Na Roboteasy, esses dois setores juntos representam aproximadamente 26% dos fluxos analisados.

Ao pensar no fluxo de compras, uma necessidade de automação pode surgir no sistema, exigindo a consulta e comparação de fornecedores, além da aprovação de alçada, geração de pedido, interação com ERP, acompanhamento da entrega e, posteriormente, conciliação financeira. Automatizar apenas uma dessas etapas gera uma eficiência isolada, mas orquestrar toda essa jornada gera uma verdadeira transformação.

É nesse momento que RPA, APIs, integrações e inteligência artificial deixam de ser tecnologias isoladas e passam a formar uma camada unificada de automação sobre o processo. Assim, mais do que simplesmente acelerar tarefas isoladas, o foco passa a ser garantir que o processo flua com o mínimo de intervenção manual, menor margem de erro, total rastreabilidade e alta capacidade de escala.

A inteligência artificial amplia essa fronteira

Com a implementação da IA nesses projetos corporativos, passa a ser integrado um aspecto que a automação tradicional tinha dificuldade para resolver, que é a capacidade de lidar com informações menos estruturadas e cenários que exigem interpretação.

Agora documentos, e-mails, textos, imagens e grandes volumes de informações podem ser compreendidos e utilizados dentro de um fluxo automatizado. Na prática, um agente inteligente pode receber uma solicitação, interpretar o contexto, consultar múltiplos sistemas, aplicar regras de negócio e acionar uma automação, reservando a intervenção humana estritamente para os casos que exigem julgamento ou decisão.

Essa evolução muda a relação entre pessoas e tecnologia. O objetivo não é retirar o humano de todos os processos, mas definir estrategicamente a atuação autônoma da tecnologia, o seu papel de suporte às decisões e onde o julgamento humano permanece indispensável.

Quanto mais inteligência, mais importante a governança

O atual cenário também explica por que áreas como Jurídico, Saúde e Seguros ainda representam uma parcela menor dos processos observados em nossa base. Tratam-se de ambientes em que existem informações sensíveis, exigências regulatórias e decisões com impacto significativamente maior.

Mas isso não significa que sejam áreas menos adequadas à tecnologia, pelo contrário. IA e agentes inteligentes ampliam as possibilidades de atuação nesses contextos. A diferença é que, quanto maior a autonomia concedida à tecnologia, mais estruturada deve ser a capacidade da organização de estabelecer diretrizes, limites, rastreabilidade, segurança e supervisão humana.

Por isso, a discussão sobre inteligência artificial nas empresas não pode acontecer separadamente da discussão sobre governança.

O próximo salto não será ter mais robôs

Talvez esse seja o principal aprendizado ao acompanhar milhares de agentes em operação. Se por muito tempo a maturidade em automação era medida pela quantidade de processos automatizados ou de horas economizadas, hoje apenas essas métricas se tornam insuficientes. 

A pergunta central passa a ser outra: quanto da operação da empresa consegue funcionar de forma integrada, inteligente e orquestrada, permitindo que as pessoas concentrem energia nas decisões em que realmente agregam valor?

O futuro da automação corporativa não será simplesmente colocar um robô em cada tarefa manual, mas em construir uma camada inteligente sobre a operação, conectando sistemas, interpretando informações, executando atividades, apoiando decisões e acionando pessoas quando necessário. O RPA continua fazendo parte dessa história, mas agora divide espaço com inteligência artificial, agentes autônomos, APIs e interfaces em linguagem natural que tornam a criação de automações cada vez mais acessíveis.

Fica para trás a era de automatizar tarefas, dando lugar à era de orquestrar operações inteligentes.

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