Liderança
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“Tô-fraco, tô-fraco”: a força da escuta ativa que aprendi com as galinhas-d’angola

Ao observar a comunicação constante de um pequeno grupo de galinhas-d’angola, o autor encontrou uma metáfora surpreendente para um dos maiores desafios dos líderes: perceber, interpretar e responder aos sinais que as pessoas emitem antes que o silêncio, a desmotivação ou a ruptura se tornem irreversíveis.
Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança. Mestre em Neurologia pela Unicamp e em Neurociências pela Universidade de Salamanca. Liderou processos de crescimento, reestruturação e criação de novos negócios nos setores de energia, gás, infraestrutura, agronegócio e desenvolvimento urbano. É palestrante e facilitador de programas de desenvolvimento de lideranças. Escreve sobre liderança, estratégia e governança, conectando experiência executiva e neurociência do comportamento.

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Passei boa parte da minha vida profissional aprendendo a gerir organizações, projetos e pessoas. Agora, vivendo mais de perto o campo, tenho experimentado uma curiosa inversão: depois de tantos anos como executivo, voltei a ser aprendiz. É natural sentir-me assim: o campo é um sistema vivo e, diante dele, aquilo que sabemos nunca parece suficiente. Talvez por isso eu tenha começado a perceber que algumas das perguntas que me acompanharam durante anos como líder estão presentes aqui também. O que mudou foi apenas a linguagem.

Estava regressando havia poucos dias de São Paulo e conduzia sozinho pela Fernão Dias. O dia estava de sol e ainda era pela manhã. Os pensamentos começaram a fluir junto à expectativa de voltar ao campo. A algazarra das galinhas-d’angola me veio à mente. Tenho nove e as crio desde que tinham apenas 5 dias de vida. Elas são muito barulhentas, como você sabe. As fêmeas que parecem liderar o grupo não se cansam de cantar “tô-fraco tô-fraco”. E, nesse caso, fazem jus a fama de verdadeiras tagarelas: os machos nem de longe conseguem superá-las.

Quando comecei a diferenciar a fêmea do macho, dei-me conta que a liderança do grupo era feita por uma das galinhas, que mantém as demais coesas todo o tempo. E fazem isso por uma troca constante de sinais sonoros e constantes. Elas me chamaram a atenção e me perguntei que outras leis sobre a liderança eu poderia aprender com elas? Afinal de contas, quantos sinais as equipes emitem por meio de seus comportamentos, conversas e silêncios que seriam importantes saber escutar e interpretar?

A nossa relação me fez refletir mais demoradamente sobre a “escuta ativa” pois estou há alguns meses num processo de aprender a gestão, não apenas do campo, mas no campo. Tenho aprendido que gerir um negócio no campo é como estar em uma empresa a céu aberto. Os imprevistos são muitos e a demanda é em tempo real.

A contratação de mão de obra humana foi necessária, mas descobri que estava longe de ser suficiente. E a verdade é que as plantas e os animais têm um papel relevante e, por isso, deixei de perceber-los apenas como elementos da paisagem e passei a reconhecê-los como participantes ativos do ecossistema, com os quais precisava aprender a me comunicar em função dos desafios diários. Essa condição me fez recordar que, como líder, enfretava um desafio semelhante dentro das organizações: aprender a distinguir, entre tantos ruídos cotidianos, os sinais que as equipes emitem antes que os problemas se tornem evidentes.

As galinhas-d’angola fazem parte desse ecossistema. Elas têm funções importantes como o alerta para a entradas de pessoas estranhas na propriedade, a eliminação de animais peçonhentos, a redução dos efeitos das formigas cortadeiras etc. Por isso mesmo, precisam de muitas garantias para que façam bem o seu trabalho. E, logicamente, eu preciso me comunicar com elas e elas comigo. E essa necessidade é vivida diariamente e de modo espontâneo, não é fácil. Observei que elas buscam contato e interagem de forma ativa. Claro que elas são impelidas pela necessidade! Porém esse era o ponto de partida. Elas sentem fome, elas têm sede. A experiência com elas se tornou um exemplo interessantíssimo de comunicação ativa.

O que pude observar?

A atenção delas e a interação que estabeleceram comigo. Quando se aproxima o horário em que estão com fome ou quando se sentem ameaçadas, elas emitem alertas: sons que comunicam preocupação, nervosismo ou medo de um predador. Também produzem sons particulares durante a fase de reprodução e postura.

Um exemplo esclarecedor foi quando, por esses dias, eu caminhava pelo pomar que fica na parte de cima da casa com uma extensão de muitas mangueiras. Passei por estas em direção ao mandiocal que fica no limite da área residencial com o pasto. Não me havia dado conta de que elas me seguiam até que retornei. Escutei seus ruídos vindo de cima. Parei diante de uma mangueira muito alta que temos e que está pesada de flores num espetáculo de bordado natural junto às folhas verdes. Eram elas. Estavam ocupando galhos em diferentes alturas. Um grupo de três à esquerda, cinco à direita e apenas uma mais abaixo, bem próxima à minha cabeça. Elas me observavam e seguiam com seu bulício coletivo.

Logo me desloquei para o piquete, pequena área de pasto rotativo para o gado, onde está presentemente a Luna, minha novilha Jersey em princípios de parto. Eu estava agachado junto a ela, pois, devido ao peso e ao parto que se anunciava, Luna permanecia mais tempo em repouso. E comecei a ouvir novamente o bulício intenso das Angolas. Voltando-me vi que estavam agora pastando a poucos metros de onde eu estava. Quando ouvi novamente seus sons e percebi sua insistência, compreendi que as angolas me acompanhavam e demonstravam interesse por meus movimentos e comunicavam algo sobre ele. Sem essa proximidade contínua não poderia aprender sobre seus atos comunicativos. Sem dúvida que liderar exige proximidade suficiente para perceber alterações nos padrões da equipe, atenção para distinguir sinais de ruídos, humildade para confirmar o que eles significam.

Este é apenas um caso ilustrativo entre tantos outros que tenho vivido no dia a dia do sítio. Mas a galinha-’angola me pareceu especialmente interessante para pensar aquilo que comecei a chamar de escutativa, uma contração de escuta ativa, porque não é um animal plenamente domesticado. Mesmo nascendo e crescendo sob cuidados humanos, ela mantém um comportamento predominantemente selvagem. Seu instinto de sobrevivência e proteção permanece muito acentuado, razão pela qual me chamou a atenção.

Naturalmente, se comunicam entre elas, mas também se comunicam conosco. Só que não por meio de palavras. E aí é que vem a grande sacada nessa questão da escuta ativa, porque, para compreender a variedade de sons que emitem e os significados desses sons, é preciso estar atento. A compreensão vem de um aprendizado a partir de uma escuta ativa. Um aspecto dessa escuta é a repetição.

Primeiro, é preciso manter contato com elas por um longo período. Não apenas um dia, dois dias, três dias. Há uma curva de aprendizado que só conseguimos percorrer convivendo com elas, dia após dia, enquanto elas também aprendem a conviver conosco. Elas passaram a me “respeitar”, a ter confiança, aprenderam que eu as alimento, que não as agrido, que, de uma certa forma, as protejo. Então elas, com todo o instinto de ir para longe, caminham, mas num raio muito próximo a nós. E isso permite que elas, com a sua linguagem própria, vão expressando as suas experiências.

Então a primeira coisa de que tomei consciência é que é preciso estar exposto a essa variedade de sons significantes. Isso é importante porque elas propriamente não pronunciam palavras, mas emitem sons em nossa direção. Um som significante, comunicativo que fui aprendendo a diferenciar do que antes parecia tudo igual. Essa exposição é motivada pelo cuidado, que constitui um segundo aspecto que compreendi. Não escutamos verdadeiramente aquilo com que não nos importamos. Com o cuidar, você escuta melhor e vai aprendendo a discriminar esses sons e vendo que eles não são sempre iguais. O que parecia tudo igual começa a fazer diferença entre a vida e a morte.

Num dia em que estava na cidade uma delas foi vítima de um carcará, ave de rapina grande. Naquele momento meu funcionário disse que ouvira o canto insistente de uma delas, que se havia distanciado, mas não soubera localizar de onde vinha. Vira o carcará, mas não relacionara sua presença ao risco. Encontrei suas penas e um pouco de sangue a alguns metros da horta. Elas emitem um som especial de alerta, mas é preciso saber reconhecê-lo. Não se parece com o cotidiano na empresa? Quantos sinais estão presentes e emergem de nossas equipes e não os sabemos interpretar? Ou sequer os identificamos? E o carcará, que sabe estar atento a menor chance, pois compete conosco pelo recurso, avança.

E aí você começa a perceber que elas repetem esse som em determinado tom, em determinada emissão de som significante. Em um determinado tipo de situação. Então você descobre em que situações isso se repete. Se estiver atento, você passa a percebê-lo, diferenciá-lo e discriminá-lo. É assim que nasce a compreensão: algo está acontecendo; elas estão comunicando uma preocupação ou necessidade.

Esse processo iniciou-se com a convivência, a exposição e o sentimento de cuidado. Foi o cuidado que me permitiu estranhar qualquer alteração de comportamento, pois passei a reconhecer o modo como elas habitualmente se comportavam e as variações que apresentavam. Comecei a perceber também que esses padrões de comportamento eram acompanhados por sons significativos, pois estavam relacionados a acontecimentos ou situações e, por isso, adquiriam valor comunicativo. Passei a conseguir fazer uma leitura, fazer uma antecipação, um acompanhamento. E, a partir daí, passei a gerar respostas interativas e a perceber a efetividade daquela interação. E isso levou naturalmente à eficiência na comunicação. Esses atos, que antes eram isolados, tornaram-se cada vez mais precisos porque você não demora mais para interpretar, você entende o que elas buscam nesse processo. Não é assim no relacionamento com nossos amigos?

Esse processo de uma comunicação efetiva nasce nessa base. O cuidado com o outro é fundamental em qualquer situação do relacionamento humano. Mas na liderança isso se torna vital. Porque aprender a se comunicar no ambiente de trabalho em equipe demanda atenção cuidadosa. Uma habilidade que emerge no ato de cuidar do outro. Quando penso na relação entre essa experiência e a comunicação que precisa ocorrer nas empresas, percebo que, muitas vezes, nós líderes não conseguimos distinguir os sinais emitidos pela equipe dos ruídos cotidianos da interação. Isso pode comprometer gravemente os resultados.

Quantas vezes pude me reunir com as equipes para análise das causas ou dos fatores intervenientes e o que observava era uma preocupação acentuada das pessoas em se eximirem da responsabilidade quando o importante era compreender os sinais que estiveram presentes o tempo todo e que, quando compreendidos, concluiríamos que poderíamos ter preservado alguns profissionais que perdemos e concluído com êxito projetos de excelente qualidade que não avançaram.

Aprendi que o próprio comportamento das pessoas que estavam operando ali, que estavam na equipe, independentemente de quão conscientes estavam disso, eram mensagens, sons significantes que chamamos de sinais na comunicação. Esses sinais podem aparecer em conversas, palavras, expressões, emoções e atitudes emitidas, muitas vezes, de maneira inconsciente. E isso é muito importante, porque, se o líder consegue identificar, compreender a comunicação significante que a sua equipe faz, de maneira não verbal, ele passa a compreender o pedido de socorro, de alerta, de confiança, de segurança.

Quantos “tô-fraco tô-fraco” circulam diariamente pelas organizações sem serem reconhecidos? Nem sempre eles vêm formulados como um pedido claro. Podem aparecer em um silêncio incomum, numa irritação recorrente, em atrasos, erros repetidos ou na perda gradual de entusiasmo. Um profissional que deixa de contribuir nas reuniões pode não estar apenas desinteressado. Talvez tenha deixado de acreditar que sua opinião será considerada. Uma equipe que passa a cometer erros repetidos pode não estar somente desatenta, mas pode estar sinalizando sobrecarga, insegurança ou falta de clareza. A escuta ativa impede que o líder se contente com a manifestação aparente: ele observa, pergunta, confirma e só então responde.

O caminho natural é o caminho da escuta ativa. Eu diria que escutar ativamente é aprender, pela presença e pela convivência, a distinguir sinais significativos em meio aos ruídos cotidianos e responder a eles antes que seja tarde. O processo pelo qual essa escutativa se efetiva é, primeiro de tudo, pela exposição. Preciso estar exposto ao ambiente da minha equipe, preciso estar imerso nesse ambiente, evitando o total isolamento nos gabinetes ou o exclusivo contato com relatórios.

A princípio, aquilo tudo é indiferenciado: as atitudes, os comentários, as posturas, as reações. Mas, pela exposição atenta ao longo do tempo, o ruído revela sinais das necessidades, do que precisa ser informado ou atendido. Com isso, a liderança consegue em tempo real, e de modo contínuo e constante, entender como a empresa se comunica com ela e como ela pode responder gerando e construindo os vínculos, porque a liderança efetiva se estabelece pela elaboração de laços, de conexões que se prolongam e se fortalecem entre a equipe e o líder. Esse processo ocorre em um fluxo e refluxo contínuo, como um círculo que se autoalimenta.

Quando reconhecemos esses sinais, procuramos confirmar sua compreensão e nao apenas supor ou assumir por nós mesmos qual é a mensagem implícita e oferecemos uma resposta adequada, a equipe percebe que foi verdadeiramente escutada e que esta sendo cuidada verdadeiramente. Dessa experiência repetida nascem a confiança e o vínculo. Eles não antecedem a escuta: são construídos por ela.

Forma-se, assim, uma relação na qual a equipe se sente mais segura para comunicar verbalmente suas necessidades, enquanto o líder se torna progressivamente mais capaz de compreendê-las e responder a elas. A escuta ativa nasce da presença, amadurece na convivência e se comprova na resposta. O líder não é aquele que apenas permite que as pessoas falem, mas aquele que aprende a reconhecer o “Tô-fraco, tô-fraco” que já circula pela organização – antes que um pedido de ajuda se transforme em perda, ruptura ou silêncio definitivo.

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Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança. Mestre em Neurologia pela Unicamp e em Neurociências pela Universidade de Salamanca. Liderou processos de crescimento, reestruturação e criação de novos negócios nos setores de energia, gás, infraestrutura, agronegócio e desenvolvimento urbano. É palestrante e facilitador de programas de desenvolvimento de lideranças. Escreve sobre liderança, estratégia e governança, conectando experiência executiva e neurociência do comportamento.

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