Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

Toda crise testa o caixa da empresa: o que vale a pena preservar quando tudo precisa ser cortado

Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.
Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

Compartilhar:

As crises econômicas costumam produzir a mesma sequência de decisões dentro das empresas. A receita cai, os custos entram na mira e, inevitavelmente, a folha de pagamento passa a ocupar o centro das discussões. É compreensível, afinal, as empresas precisam sobreviver. Mas se sobreviver se torna sinônimo de preservar apenas indicadores financeiros, temos um grande problema, porque há uma diferença importante entre reduzir custos e reduzir a capacidade de uma organização voltar a crescer. Essa distinção costuma aparecer apenas quando a crise termina.

Quando o mercado atravessa um período de retração, cortes expressivos de pessoal frequentemente são apresentados como uma demonstração de responsabilidade financeira. No curto prazo, eles podem até aliviar a pressão sobre o caixa, mas raramente a discussão considera aquilo que deixa de aparecer nas planilhas: conhecimento perdido, confiança abalada, relações interrompidas e uma cultura que precisará ser reconstruída quando a empresa decidir acelerar novamente.

Talvez por isso uma pesquisa publicada pela Harvard Business Review, realizada com 146 empresas, tenha chegado a uma conclusão importante. Embora as demissões possam produzir ganhos financeiros imediatos, seus efeitos sobre engajamento, moral e lealdade das equipes frequentemente permanecem por anos, muito além do período mais crítico da crise.

Esse dado revela algo que ainda discutimos pouco nas organizações: nem todo custo aparece no balanço financeiro. Existe um patrimônio invisível que sustenta qualquer negócio, e ele é formado pela experiência acumulada das pessoas, pelo conhecimento que dificilmente está documentado, pelas relações de confiança entre equipes e pela segurança psicológica necessária para inovar, assumir riscos e resolver problemas complexos. Quando esse patrimônio se perde, a recuperação costuma ser muito mais lenta do que a redução das despesas sugeria.

Não significa, evidentemente, que empresas jamais devam reduzir quadros. Há situações em que essa decisão é inevitável para garantir a continuidade do negócio. O ponto é outro: transformar o desligamento na primeira resposta para qualquer cenário de retração costuma ignorar o impacto de longo prazo sobre a capacidade competitiva da organização. Talvez um dos exemplos mais emblemáticos dessa discussão tenha surgido recentemente fora dos manuais de gestão.

É culpa da IA?

Depois de ampliar o uso de Inteligência Artificial, a Ford percebeu que a tecnologia não estava alcançando os padrões esperados e precisou recontratar 350 engenheiros veteranos, nos últimos três anos, para resolver problemas de qualidade que custaram bilhões de dólares à montadora. Parte desses engenheiros, inclusive, eram ex-funcionários, chamados de volta para recuperar conhecimento técnico, apoiar profissionais mais jovens e treinar os próprios sistemas de Inteligência Artificial.

O caso chama atenção porque acontece em um momento em que muitas organizações têm associado cortes de pessoal ao avanço da IA. Um levantamento da Resume Templates mostra que 59% das empresas admitem destacar a Inteligência Artificial ao justificar demissões ou congelamentos de vagas, por entenderem que essa explicação é mais bem recebida do que razões ligadas a dificuldades financeiras. 

O mesmo estudo, porém, revela um contraste importante: apenas 9% dos gestores afirmam que determinadas funções foram totalmente substituídas pela tecnologia, enquanto 45% dizem que a IA teve pouco ou nenhum impacto sobre o tamanho das equipes. Os dados sugerem que, embora a Inteligência Artificial esteja transformando o trabalho, ela ainda está longe de explicar, sozinha, grande parte das decisões de redução de quadro. 

Ao meu ver, essa história toda não é, propriamente, sobre Inteligência Artificial, mas sobre conhecimento. Mais precisamente, sobre a falsa impressão de que conhecimento organizacional pode ser desligado junto com um crachá e recuperado quando a economia melhora. Experiência não é apenas aquilo que um profissional sabe fazer, e sim também aquilo que ele aprendeu depois de anos lidando com situações que dificilmente cabem em um manual ou em um algoritmo. 

Toda crise testa duas competências

Quando organizações desconsideram o patrimônio do conhecimento organizacional, muitas descobrem tarde demais que reconstruir equipes é muito mais complexo do que contratá-las novamente. É por isso que acredito que toda crise testa duas competências ao mesmo tempo: a primeira é financeira, a segunda – e talvez mais importante – é a qualidade da liderança. 

Líderes preparados para momentos difíceis conseguem equilibrar responsabilidade econômica com visão de longo prazo. Avaliam custos sem perder de vista capacidades essenciais. Protegem o caixa, mas também preservam conhecimento, confiança e condições para que a empresa volte a crescer quando o ambiente se tornar favorável.

A retomada nunca começa quando a economia melhora. Ela está em curso ainda durante a crise, nas decisões que determinam o que a organização escolhe preservar. Isso significa que as empresas não retomam crescimento apenas porque o mercado voltou. Esse movimento também ocorre porque, mesmo diante da pressão, conseguiram manter aquilo que nenhuma planilha consegue medir completamente: pessoas, conhecimento e confiança. É isso que diferencia organizações que apenas sobrevivem de organizações que saem das crises preparadas para liderar o próximo ciclo.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que uma prótese de quadril me ensinou sobre os erros de decisão dentro das empresas

Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Marketing & growth
3 de setembro de 2026 14H00
Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Claudia Schulz - CEO da ABStartups

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
3 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a pergunta mais importante já não é qual solução de IA adotar, mas quem está definindo os limites, os objetivos e as regras de uso dessa tecnologia dentro da organização.

Erick Rezende - Diretor de Delivery na Cognitivo AI

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, ESG
2 de setembro de 2026 14H00
À medida que a população envelhece, cresce a necessidade de repensar o papel da experiência nas organizações e na sociedade. Tomando o comportamento do eleitor 70+ como ponto de partida, o artigo questiona o que faz alguém continuar contribuindo quando já não é obrigado a fazê-lo e por que essa pode ser uma das perguntas mais importantes para empresas que desejam se preparar para a era da longevidade.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services

6 minutos min de leitura
User Experience, UX, Marketing & growth
2 de setembro de 2026 08H00
O artigo mostra por que a Connected TV se tornou uma peça central na economia da atenção. Em um cenário de audiências fragmentadas, a combinação entre conteúdo de alta qualidade, segmentação baseada em dados e métricas avançadas transforma a televisão conectada em um dos ambientes mais estratégicos para marcas que buscam equilibrar alcance, relevância e performance.

Bruno Almeida - CEO da US Media

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 15H00
Em momentos de retração econômica, cortar custos costuma ser uma resposta imediata. O problema é que algumas das perdas mais importantes não aparecem nas planilhas. Conhecimento acumulado, confiança, experiência e capacidade de inovação formam um patrimônio invisível que pode levar anos para ser reconstruído.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo