Uncategorized

Tory Burch e o risco do novo luxo

O conceito de luxo acessível encontrou uma clientela ávida, muito bem identificada pela estilista norte-americana Tory Burch
A reportagem é de Jeff Chu, colaborador da Fast Company

Compartilhar:

Ela tem muitos motivos para comemorar. Estimava que sua empresa fecharia 2014 com faturamento de mais de US$ 1 bilhão –crescimento sem precedentes no mundo da moda, em apenas uma década de existência. O império de Tory Burch reúne 141 lojas em 50 países, faz vendas online em sete idiomas e aborda uma gama de novos projetos. Um deles é a linha Fitbit, de pulseiras e colares que funcionam como rastreadores de sono e medidores de atividade cardíaca e gasto calórico. Outro, sua primeira coleção de louças. 

Um terceiro, a parceria com a Fossil para bolsas. Há também um livro e, este ano, esperam-se a coleção sportswear e a linha masculina. Tory Burch pode ser definida como uma combinação de Michael Kors com Martha Stewart –luxo democratizado com estilo de vida aspiracional–, acrescida de um ponto de vista próprio e de viés global. A marca é hoje avaliada em mais de US$ 3 bilhões e não faltam boatos sobre a abertura de seu capital (negados pela empresa). A história da criação da marca virou lenda. Mãe de três meninos, Burch deixou o trabalho de relações públicas na área de moda, com passagens por Ralph Lauren e Vera Wang, para se dedicar aos filhos. 

Nunca abandonou o desejo de ter um negócio próprio e, um dia, teve uma inspiração. “Eu queria fazer roupas bacanas, clássicas e fáceis, mas que não custassem uma fortuna”, conta. Sua formação privilegiada ajudou a responder ao desafio, uma vez que seus pais, excêntricos e ricos (o pai, Buddy Robinson, trabalhou em Wall Street), traziam para a fazenda da família na Pensilvânia histórias e lembranças de todas as partes do mundo. Aos 37 anos, inspirada em uma túnica que achou em um mercado de pulgas de Paris, Burch montou uma pequena equipe e começou a empresa na mesa da cozinha do apartamento em Manhattan, onde mora até hoje (é verdade que a mesa tem tampo de mármore do tamanho de uma cama king-size e a cozinha, 800 m2). 

A família ajudou na montagem da equipe da loja, no número 257 da Elizabeth Street, inaugurada em fevereiro de 2004. Bastou abrir as portas para que várias senhoras de aparência comportada transformassem o local em um caótico provador coletivo. Todo o estoque de US$ 100 mil foi vendido em um dia, incluindo túnicas de US$ 350 e camisas de US$ 190. O negócio tornou-se rentável em dois anos. Identificada na imprensa como socialite e não como empresária, Burch teve de ver sua competência questionada. As vendas passaram de US$ 100 milhões em 2007 para US$ 500 milhões em 2011, e a explicação é que Burch cria coisas belas e fixa o preço nem tão alto nem baixo demais. 

A sapatilha Reva, homenagem a sua mãe, chegou às prateleiras custando US$ 195 –para alguém acostumado a pagar US$ 700 por modelos de Manolo Blahnik, uma pechincha. Formada em história da arte pela University of Pennsylvania, Burch costuma buscar suas ideias no universo artístico. 

A cerâmica de Picasso inspirou os looks da coleção primavera-verão 2015 apresentados na Fashion Week de setembro. Mas os pais ainda lideram sua inspiração e a escolha das armaduras como tema da coleção outono-inverno 2014 ocorreu por causa de peças do acervo de seu pai. As lojas Tory Burch também são convidativas. “Você se sente como se estivesse dando uma espiada na casa da estilista”, conta Matt Marcotte, executivo vindo da Apple, responsável pelo varejo. Marcotte instituiu inovações para aumentar a intimidade com as clientes: um software que permite aos atendentes rastrear os históricos de compra (útil para maridos às voltas com o desafio de presentear a esposa), frigobares abastecidos, iPads com edições da Sports Illustrated e jogos dos Angry Birds. “Tanto quem compra como quem espera devem ficar felizes”, conta o executivo. Sonja Prokopec, professora da Essec Business School, de Paris, afirma que esse toque distinguiu Burch no setor de luxo acessível. 

> **Empurrão Inicial**
>
> Como empreendedora, Burch teve o auxílio do então marido, experiente em varejo, as economias pessoais de US$ 2 milhões e 120 amigos dispostos a investir em sua ideia

> **A ESTRATÉGIA DELA NO BRASIL**
>
> Já dizia Shakespeare, em seu Rei Lear: “Compreendes por acaso que precisamos de um pequeno excesso para existir?”. Pequenos excessos, desejos, marcas de prestígio, produtos extraordinários, serviços estimulando experiências, esses são vários nomes para o consumo de luxo e estão sendo buscados intensamente nos últimos 20 anos por diversos tipos de consumidores. Com isso, a competição do setor evoluiu: não basta mais apenas concorrer com produtos ou serviços impecáveis. 
>
> Como os ganhos de qualidade são notáveis em muitas empresas, é preciso segmentar o mercado. Se nem todos os consumidores conseguem ter Hermès ou Chanel, sobram oportunidades para marcas intermediárias e democratizadas, capazes de entregar códigos aspiracionais elevados de modo mais acessível. A Tory Burch, retratada nesta reportagem, é um exemplo excepcional desse “novo luxo”, assim como Kate Spade, Michael Kors e MAC. 
>
> Possivelmente, serão essas marcas que terão o mais forte crescimento nos próximos anos, se forem bem gerenciadas. E como está o Brasil nessa evolução do luxo? Como sempre, nosso País vive todas as fases evolucionárias ao mesmo tempo. isso significa que, enquanto as marcas do topo do consumo de luxo se desenvolvem aqui, intermediárias e democratizadas também se expandem. isso dificulta as coisas: educar os consumidores brasileiros no luxo tradicional, e, simultaneamente, no luxo intermediário e no democrático, é particularmente desafiador. 
>
> Somem-se a isso os fatos de que a maior parte das marcas se estabeleceu mesmo nos últimos cinco anos, de que ainda falamos de um consumo de nicho e não de massa, de que o ambiente de negócios do Brasil pode ser bem hostil para estrangeiros. A história da Tory Burch aqui se encaixa nessa cena pouco rósea: a marca, normalmente agressiva em seu crescimento e agora tendo como copresidente um veterano do setor (Roger Farah, ex-Ralph lauren), prometia instalar mais de dez lojas no País rapidamente, mas ainda não passou de cinco. E já teve de mudar sua estrutura de gerenciamento. É uma pena. No Brasil, a Tory Burch ainda não é o que poderia e gostaria de ser. Nem o que deveria ser.
>
> **por Carlos Ferreirinha, presidente da MCF Consultoria & Conhecimento, especializada em gestão e inovação do negócio do luxo e premium**

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/19994ca8-8865-424c-b207-81617dbaf84f.jpeg)

**NA WEB E NA CHINA**

Tory Burch tem legiões de seguidores (e curtidas) no Facebook, no Pinterest, no Twitter, no instagram –e em cada plataforma mostra faces diversas. Se todas refletem o jeito como ela se define –uma adepta dos riscos que já foi ao Alasca para trabalhar em uma fábrica de salmão em lata e que ama hip-hop–, tudo também se adapta aos mercados. Na china, a grife atende mulheres que não gostam de salto alto e se prepara para servir a alta demanda masculina por luxo.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O Brasil precisa enfrentar o desafio de construir com mais eficiência

A construção civil está deixando para trás práticas marcadas por desperdícios e retrabalhos. O avanço de soluções industrializadas, novas tecnologias e modelos de gestão mais eficientes aponta para um novo cenário: construir com mais qualidade, menor impacto e maior previsibilidade.

Inovação & estratégia, Marketing & growth
12 de junho de 2026 09H00
O preço do aparelho é só o começo - o custo real aparece no uso. Este artigo revela como custos ocultos e recorrentes redefinem a lógica de consumo de smartphones e impulsionam novos modelos de uso.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
11 de junho de 2026 16H00
O futuro do trabalho não está nos cargos. Este artigo revela por que a competitividade das empresas passa a depender menos do organograma e mais da capacidade de mapear, desenvolver e combinar competências.

Felipe Ribeiro - Cofundador da Evermonte Executive & Board Search

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Inovação & estratégia
11 de junho de 2026 09H00
Em meio à queda de alcance e às mudanças constantes dos algoritmos, este artigo propõe um ajuste de rota: mais do que tentar “jogar o jogo” das plataformas, a verdadeira conexão, e relevância, ainda nasce da capacidade de ser humano, autêntico e presente nas interações.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
10 de junho de 2026 17H00
Pior do que não saber é achar que já sabe. Este artigo expõe um risco silencioso nas organizações: não é a falta de conhecimento que mais compromete decisões, mas a combinação perigosa entre entendimento superficial e confiança excessiva.

Jorge Inafuco - Consultor e Palestrante da HSM, Sociólogo, Professor de MBAs, Conselheiro e Mentor

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de junho de 2026 08H00
Dentro dos bilhões investidos em IA existe uma única aposta: a de que a inteligência vai deixar de ser escassa. Se ela se confirmar, não vai apenas cortar os seus custos. Vai dissolver os fossos competitivos sobre os quais as partes mais lucrativas da sua empresa foram construídas, muitas vezes sem ninguém perceber.

Átila Persici Filho - COO da Bolder, Professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação

8 minutos min de leitura
Marketing
9 de junho de 2026 18H00
Em um mundo onde a presença digital se estende para além das redes sociais, este artigo mostra que a reputação de um líder não é construída pelo que ele publica, mas pela coerência entre discurso, comportamento e cada interação do dia a dia.

Bruna Lopes de Barros

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional
9 de junho de 2026 09H00
Nunca tivemos tanto acesso à informação. E, paradoxalmente, nunca foi tão difícil saber o que está realmente acontecendo.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB-Global Connections

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
8 de junho de 2026 16H00
Este artigo mostra por que a inteligência artificial está deslocando o centro da competitividade das empresas, da tecnologia para a qualidade do pensamento organizacional.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
8 de junho de 2026 09H00
Este artigo provoca uma reflexão central: não é o quanto se trabalha que sustenta uma carreira, mas a capacidade de transformar trabalho em valor e impacto real.

Roberto Vilela - Consultor empresarial, estrategista de negócios, escritor e palestrante

2 minutos min de leitura
Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de junho de 2026 13H00
Se líderes continuam aprendendo, por que continuam não evoluindo? A resposta pode estar na forma como treinamos - e no que deixamos de medir.

Alexandre Santille - Fundador e Sócio da teya

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo