Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura
Oferecido por:

Um mundo que muda mais rápido do que nossa capacidade de acompanhar

A aceleração da destruição criativa deixou de ser um conceito abstrato e passou a atravessar o cotidiano profissional, exigindo menos apego à estabilidade e mais capacidade de adaptação, recombinação e reinvenção contínua.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Compartilhar:

Eu voltei do SXSW com a cabeça cheia de referências, com nomes para os meus incômodos e com uma sensação difícil de ignorar. Não foi uma ideia isolada de uma palestra específica, nem um insight pontual que se dissolve quando a rotina volta ao normal. Foi uma percepção construída ao longo de diferentes conversas, conteúdos e, principalmente, reforçada por algo que já vinha se manifestando no cotidiano. A diferença é que, ao conectar esses pontos, fica evidente que estamos vivendo um momento em que a destruição criativa deixou de ser um conceito teórico e passou a ser uma experiência prática, recorrente e, muitas vezes, desconfortável.

Ao longo dos últimos anos, nos acostumamos a associar transformação a grandes movimentos corporativos, iniciativas estratégicas ou à adoção de novas tecnologias. Mas a realidade atual desloca essa percepção para um nível muito mais próximo. A destruição criativa, conceito formulado por Joseph Schumpeter, sempre descreveu a dinâmica pela qual novos modelos substituem os antigos, impulsionando ciclos de crescimento e inovação. O que mudou não foi o conceito em si, mas a sua escala e velocidade. Se antes esse processo era percebido em setores inteiros ao longo de décadas, hoje ele acontece dentro de funções, atividades e competências, em intervalos cada vez mais curtos, tornando-se perceptível no cotidiano de qualquer profissional minimamente atento.

Essa mudança se revela em situações aparentemente simples, mas que carregam implicações profundas e, muitas vezes, difíceis de encarar. Profissionais altamente qualificados passam a questionar sua produtividade ao se depararem com ferramentas que executam, em minutos, tarefas que antes demandavam horas. Equipes inteiras revisitam processos desenhados recentemente e que já se mostram ineficientes diante de novas possibilidades tecnológicas. A percepção de valor, historicamente associada à experiência acumulada e ao domínio técnico, começa a migrar para a capacidade de adaptação, de leitura de contexto e de combinação inteligente entre conhecimento humano e capacidade computacional. Não se trata de uma substituição direta, mas de uma reconfiguração do que significa gerar impacto.

Esse deslocamento, no entanto, não ocorre de forma neutra. Ele tensiona estruturas internas, tanto nas organizações quanto nos indivíduos – e essa tensão, nas pessoas, é a que vejo como mais difícil de lidar. Durante muito tempo, a construção de carreira esteve baseada em uma lógica relativamente linear, na qual o aprofundamento em uma área específica aumentava progressivamente a relevância profissional. A aceleração da destruição criativa rompe essa linearidade ao introduzir descontinuidades frequentes, nas quais competências consolidadas podem perder parte de sua aplicabilidade em um intervalo de tempo muito menor do que o esperado. Esse fenômeno não elimina a importância da experiência, mas altera a forma como ela precisa ser mobilizada, exigindo um nível de atualização e recombinação que nem sempre é trivial.

É nesse ponto que a dificuldade se torna mais evidente. A resistência à mudança raramente está relacionada à rejeição da inovação em si, mas à tentativa de preservar coerência em um ambiente que se torna progressivamente mais instável. Quando aquilo que sustentava a identidade profissional começa a se deslocar, a reação natural é buscar referências conhecidas, prolongar modelos que ainda funcionam parcialmente e adiar decisões que implicam o abandono de práticas consolidadas. No entanto, a lógica da destruição criativa não oferece esse tipo de transição confortável. Ela exige escolhas antecipadas, muitas vezes contraintuitivas, em que o que precisa ser deixado para trás ainda não apresenta sinais claros de esgotamento.

Nesse momento, essa dinâmica é amplificada pela inteligência artificial, que introduz um novo tipo de ruptura ao avançar sobre atividades cognitivas. Diferentemente de ciclos anteriores, em que a automação estava concentrada em tarefas físicas ou repetitivas, a IA amplia sua atuação para áreas que envolvem análise, síntese e produção de conteúdo, alterando significativamente a relação entre esforço e resultado. Isso não apenas aumenta a produtividade, mas redefine expectativas, criando novos parâmetros de desempenho que rapidamente se tornam referência. O impacto disso não é apenas operacional, mas psicológico, ao gerar uma sensação contínua de defasagem entre o que se sabe fazer e o que passa a ser possível fazer.

Compreender esse processo não elimina o desconforto, mas altera a forma como ele é interpretado. Quando a destruição criativa é vista apenas como ameaça, a tendência é a paralisia ou a reação defensiva. Quando ela é compreendida como parte estrutural do sistema, abre-se espaço para uma postura mais ativa, baseada na observação contínua de onde o valor está sendo criado e de quais capacidades estão se tornando centrais. Isso exige uma mudança de foco: sair da preservação do que foi construído para a construção deliberada do que ainda precisa emergir.

Nessa situação, a maturidade não está em antecipar todas as mudanças – algo inviável diante da velocidade atual -, mas em desenvolver repertório para reconhecer padrões, testar novas abordagens e ajustar rotas com maior frequência. A destruição criativa deixa de ser um evento pontual e passa a ser um fluxo contínuo, no qual a capacidade de adaptação não pode ser acionada apenas em momentos de crise, mas precisa ser incorporada como parte do funcionamento cotidiano.

O que vem à tona, portanto, não é apenas uma transformação tecnológica, mas uma mudança na forma como indivíduos e organizações se relacionam com o próprio conceito de estabilidade. A ideia de um estado consolidado, em que processos, competências e modelos permanecem válidos por longos períodos, perde força diante de um ambiente em que a substituição é constante. Isso não implica instabilidade permanente no sentido negativo, mas uma nova lógica de equilíbrio, baseada na capacidade de se reconfigurar sem ruptura total.

Ao olhar para o presente com essa lente, fica evidente que a destruição criativa não é um fenômeno a ser evitado, mas um processo a ser compreendido. E, sobretudo, a ser vivido com maior consciência. Porque, mais do que determinar quais tecnologias vão prevalecer ou quais empresas vão liderar os próximos ciclos, ela define como cada profissional vai precisar, ao longo da sua trajetória, revisitar, ajustar e reconstruir a forma como gera valor em um mundo que não para de se reinventar.

Estamos deixando de ser profissionais que acumulam conhecimento para nos tornarmos profissionais que precisam, constantemente, redefinir como geram valor. E isso, quando você aceita, não te paralisa, te posiciona.

Compartilhar:

Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

Oferecido por:
8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

Oferecido por:
7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução