Business content

Uma função “grilo falante”

De acordo com a presidente da sephora, o executivo de recursos humanos deve desafiar, apoiar e questionar o ceo para garantir que sua liderança seja justa
Andrea Orcioli Ficou 13 anos na Avon, passando por sete posições diferentes nesse período. Silene Rodrigues Obteve a certificação “The Foundations of Happiness at Work”, em Berkeley.

Compartilhar:

São os colaboradores que garantem a experiência do cliente – e, consequentemente, o sucesso da empresa. Essa é uma das crenças cristalizadas de Andrea Orcioli, CEO da Sephora do Brasil desde 2019. A executiva vem construindo essa percepção em uma longa carreira no setor, com passagens por fabricantes como Avon e Unilever, sempre atuando na área de marketing. Antes de assumir o comando da rede de lojas de cosméticos, foi sua vice-presidente de marketing e merchandising.

Nesta conversa com Silene Rodrigues – VP de recursos humanos da Sephora para a América Latina até setembro de 2021 –, Orcioli ressalta sua preferência por um estilo de liderança compartilhada e até divide uma experiência própria de vulnerabilidade. Ela também ilustra com exemplos práticos como age um RH que compartilha esse poder. Entre as tarefas estratégicas do líder de RH, em sua visão, estão desafiar, apoiar e questionar o CEO para para garantir uma liderança justa. As duas executivas se mostram focadas em encontrar o modelo de trabalho ideal para o pós-pandemia.

## Nada importa mais do que as pessoas
__Silene Rodrigues: Para mim, o engajamento dos colaboradores é o que transforma uma empresa, o que a faz ter sucesso. Mas não é fácil engajar e manter engajado. Como é isso para você?__
__Andrea Orcioli:__ Concordo, e é nítido: uma pessoa engajada tem paixão pela empresa, conecta-se emocionalmente com ela. Acho que a relação entre empresa e funcionário começa a existir quando suas crenças e seus valores são semelhantes. Se o funcionário tem a crença absoluta no propósito e nos objetivos da empresa, ele demostra isso gerando resultado, não desistindo nunca, fazendo a diferença. Mas essa relação precisa ser nutrida, é evidente, e há as boas práticas para fazer isso, como estabelecer diálogo profundo e aberto entre todos na empresa e dar autonomia a todos. Cada indivíduo precisa ter noção clara da importância do seu trabalho e do impacto que tem na companhia como um todo. Para isso, é preciso um diálogo fácil e uma comunicação clara.
Conseguimos criar coisas muito diferentes durante esse primeiro ano de gestão porque os funcionários sentem que têm autonomia. Além de motivá-los, a autonomia é imprescindível para desenvolvê-los e para inovarmos. O sucesso é sempre fruto do trabalho de todos na empresa.

__Você falou em liderança compartilhada, mas qual é exatamente o seu jeito de liderar?__
Os novos líderes não são tão tradicionais. No passado a liderança era mais diretiva, com poder, pressão. Foi provado que não precisa ser assim para ter sucesso em uma empresa. Para mim, liderança é um sentimento, um dever e um estilo. Eu sinto que nada é mais importante do que as pessoas que formam a equipe da empresa, sei que sou responsável por elas e trago todo mundo comigo – daí a direção colaborativa, colegiada. Creio que liderar assim ajuda a inovar, constrói empatia, distribui protagonismo e responsabilidade, e evita que culpemos uns aos outros quando algo dá errado.

__O alto nível de engajamento interno é comum em empresas conscientes. Como é sua agenda ESG?__
Quando penso em ESG, penso primeiro no cliente, porque nosso propósito está enraizado no cliente. Olhamos para isso e para esse mundo que mudou muito, principalmente na pandemia. Uma parceria que me tocou muito foi com o movimento Panela Cheia, que veio pelo RH. Doamos uma tonelada de alimentos para cada ano de Brasil da Sephora [nove, em 2021], com marcas parceiras que comercializamos. O impacto social mobilizou todo mundo.
Outra iniciativa recém-lançada é o Beauty Program, que facilita o acesso de artistas profissionais a esses produtos tão importantes para o seu trabalho, com descontos especiais por um ano. Os artistas, como sabemos, estiveram entre os mais afetados pelo isolamento social da pandemia. Essa é uma forma de apoiá-los e incentivá-los. São alguns exemplos que mostram a diversidade do impacto que a Sephora tem sobre os seres humanos.

## Traduções da estratégia
__Como o RH pode ajudar a traduzir as prioridades estratégicas da organização, para se tornarem ações que contribuem com o negócio?__
Já que o mais importante em uma empresa são os profissionais, considero o RH totalmente atrelado à nossa estratégia. Então, por exemplo, a diversidade faz parte da nossa estratégia. Como o RH traduziu isso? Ele adotou práticas como entrevistar os candidatos dos nossos processos seletivos por telefone, como uma forma de evitar “vieses inconscientes”. Também focou treinamentos que nos educam quanto à diversidade, usando situações cotidianas, abordando hábitos e linguagens que devemos parar de usar. São treinamentos bem realistas e impactantes para perceber o mundo pelo olhar do outro.
Outra questão importante tem a ver com a necessidade de ser mais ágeis para executar ou adaptar a estratégia, o que a pandemia nos mostrou. E o RH traduziu isso nos desafiando – inclusive à liderança da companhia – a desenvolver uma mentalidade ágil. Graças ao RH, quebramos crenças do passado e demos passos importantes para sair correndo rumo ao futuro.

## “grilo falante”
__Tenho pensado bastante sobre o novo modelo de trabalho. Esse é o maior desafio dos líderes em 2022?__
Todos os líderes seguem enfrentando os dilemas do momento atual, acho eu. O maior deles é o modelo de trabalho. Aqui a flexibilidade sempre foi possível, mas havia uma resistência que caiu com a pandemia. Agora, como vamos voltar para o escritório? Vamos voltar? Quando? Como não abrir mão dos muitos ganhos havidos com o trabalho em home office, mas reverter as perdas importantes, como a troca entre as pessoas, o vínculo afetivo, o próprio engajamento?

Temos que lembrar que o cliente mudou junto com pandemia e que, na Sephora, ele é o foco da tomada de decisão. Como nossos colaboradores é que garantem a experiência para o cliente final, nós precisamos garantir a mesma experiência aos clientes e aos colaboradores. Teremos que encontrar um meio de fazer isso em um provável modelo de trabalho híbrido.

__Em sua visão, o que o profissional do futuro deve ter de maneira geral? E o RH do futuro?__
O profissional tem que ser humano! Ter empatia, que para mim traduz o que é ser humano. Colocar-se no lugar do outro, escutar e tomar melhores decisões por causa disso. Somos todos vulneráveis; a empatia e a transparência nos proporcionam confiança, o elo fundamental para o verdadeiro trabalho em equipe. Os líderes, inclusive, precisam se policiar para não se esquecerem de incentivar constantemente a empatia e a transparência.
Já o RH, eu diria que deve buscar continuamente a diversidade. Estamos no caminho, mas o caminho ainda é longo. O RH precisa ser cada vez mais criativo para evitar vieses. E não pode perder a postura já esperada do profissional de RH de hoje, que é ter empatia e saber lidar com as pessoas. E deve ser também como você, Silene, um “grilo falante”, que nos desafia, apoia e questiona para garantir uma liderança justa.

__Verdade, sou o próprio grilo falante! [risos] E o meu “cri-cri-cri”, atual e para o futuro, tem muito de insistência com o aprendizado contínuo e saúde emocional. O que você pensa a respeito?__
Bem, um dos grandes motivadores da minha vida é o aprendizado. Sou curiosa, então gosto de estar sempre atualizada, leio muito – e leio coisas diferentes. Também aprendo na prática, claro, tentando, errando, acertando e escutando. Aliás, escutar é fundamental. Sou teimosa, sei disso, então ouvir outros pontos de vista é o que me faz ver outras possibilidades. Tento sempre escutar mais pessoas.
Quanto à saúde, concordo que precisamos cuidar mais de saúde emocional – que para mim é paz de espírito. Cada um de nós deve descobrir o que nos dá paz de espírito. E dedicar tempo para isso! É muito fácil se perder no dia a dia. O que me dá essa paz é a minha família e a natureza, por exemplo.
Insegurança costuma ser um gatilho para a falta de saúde emocional. Vou dividir um momento sofrido que aconteceu comigo, quando fui promovida para a presidência da Sephora Brasil. De repente, eu só pensava que ia substituir a Flavia [Bittencourt, ex-CEO da Sephora], uma líder extremamente admirada. Tive um looping de questionamentos sobre estar pronta para a cadeira. Coloquei muita pressão em mim. Era para ser um momento feliz, mas foi um sofrimento. Isso acabou quando vi que se tratava da continuação da minha história, não de substituir alguém. Relaxei, voltei ao meu normal. A insegurança some quando assumimos nosso protagonismo.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O mito da falta de qualificação das pessoas com deficiência

Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

O tempo que doamos é o futuro que aceleramos

O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

O cliente ainda precisa de vendedores?

A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

76% das organizações já têm um Chief AI Office (CAIO). E agora, qual é o papel do CEO?

Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Empresa familiar sem governança é refém do fundador; com governança, vira legado

O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Tecnologia & inteligencia artificial
27 de julho de 2026 08H00
Enquanto o debate sobre inteligência artificial continua concentrado em modelos, automação e produtividade, uma outra transformação acontece nos bastidores: a tensão gerada entre a democratização e a concentração de poder que pode definir a próxima fase da economia global.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

8 minutos min de leitura
Liderança
26 de julho de 2026 13H00
Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.

Caio Fontenelle - Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de julho de 2026 07H00
A IA pode economizar horas em atividades operacionais, mas seu maior valor talvez esteja em outro lugar: ampliar perspectivas, conectar ideias e elevar a qualidade das decisões. O desafio é entender quando estamos ganhando velocidade e quando estamos construindo algo melhor.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
25 de julho de 2026 14H00
Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Maria Augusta Orofino - Palestrante, TEDx Talker e Consultora corporativa

3 minutos min de leitura
Liderança
25 de julho de 2026 08H00
Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Chieko Aoki - Fundadora e presidente da Blue Tree Hotels

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, User Experience, UX
24 de julho de 2026 14H00
Impulsionado pelo avanço do wellness e pela busca crescente por experiências com significado, o setor de turismo enfrenta um novo desafio: deixar de vender viagens para entregar transformação, criando vínculos de longo prazo e novas vantagens competitivas.

João Biancardi - Diretor de Marketing e Experiencia do Cliente do Grupo Mabu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
24 de julho de 2026 08H00
A preocupação com dinheiro já impacta produtividade, saúde mental e permanência no emprego. Diante desse cenário, organizações começam a repensar seu papel e a buscar formas de apoiar colaboradores sem invadir sua autonomia financeira.

Vivian Pardini - Coordenadora de compliance da Biz

4 minutos min de leitura
Marketing, Estratégia
23 de julho de 2026 14H00
O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Ronaldo Fragoso - Chief Growth Officer da Deloitte e Carlos Eduardo Fogarolli - Sócio-líder da indústria de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Deloitte

3 minutos min de leitura
Comunicação, Liderança
23 de julho de 2026 08H00
A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
22 de julho de 2026 14H00
Logotipos já não são suficientes para conquistar relevância. Em um mercado saturado de mensagens, as marcas que se destacam são aquelas capazes de transformar interações em experiências memoráveis e consumidores em protagonistas de suas histórias.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo