Nos últimos anos, os conselhos das empresas brasileiras passaram por uma renovação silenciosa, porém profunda. De acordo com uma pesquisa do Evermonte Institute, 34,6% dos conselheiros atualmente em atividade ingressaram nos boards após 2020. Esse dado, por si só, já evidencia o impacto estrutural que a pandemia da Covid-19 exerceu sobre a governança corporativa no país, acelerando mudanças que talvez levassem décadas para acontecer.
Mais do que uma simples troca de cadeiras, estamos presenciando uma verdadeira redefinição no perfil e nas competências dos conselheiros. Profissionais com experiências em áreas como tecnologia, transformação digital, ESG e sustentabilidade – que antes eram exceções – hoje têm conquistado um espaço crescente nos colegiados. Essa renovação de perfis contribui para a formação de conselhos mais dinâmicos, multidisciplinares e preparados para lidar com os desafios complexos do século 21, que extrapolam as métricas financeiras tradicionais e envolvem aspectos éticos, sociais, ambientais e tecnológicos.
Um dos reflexos mais visíveis dessa mudança é o avanço, ainda tímido, da diversidade de gênero nos conselhos. A mesma pesquisa aponta que 9,85% das conselheiras assumiram seus cargos após 2020, o que representa uma evolução em relação a anos anteriores e sinaliza um movimento positivo em direção à equidade. No entanto, o percentual ainda está consideravelmente abaixo dos benchmarks internacionais. De acordo com as projeções do Evermonte Institute, se mantido o ritmo atual, a paridade de gênero nos conselhos só será alcançada por volta de 2038 – um horizonte distante, especialmente diante da urgência por ambientes corporativos mais representativos e inclusivos.
Do ponto de vista institucional, o Brasil ocupa uma posição intermediária em termos de maturidade de governança corporativa, quando comparado a países como Estados Unidos, Reino Unido ou Alemanha. Os avanços recentes são inegáveis, mas ainda existem gargalos. Entre os principais desafios estão a concentração geográfica dos conselhos no eixo Sudeste-Sul, a baixa presença de profissionais oriundos de setores distintos do financeiro, e a ainda limitada diversidade racial, geracional e de pensamento.
A boa notícia é que há um movimento consistente de profissionalização em curso. Muitas empresas têm adotado práticas mais estruturadas e criteriosas para o recrutamento de conselheiros, com foco em competências específicas, experiências complementares e visão sistêmica. Essa mudança de postura responde diretamente às novas exigências do mercado e da sociedade, como a incorporação de princípios ESG, a capacidade de inovar em contextos desafiadores e a habilidade de tomar decisões com base em múltiplos cenários e variáveis.
Entretanto, é fundamental compreender que representatividade e profissionalização, de forma isolada, não são suficientes. A construção de uma governança corporativa sólida e verdadeiramente conectada às necessidades contemporâneas exige uma arquitetura institucional que favoreça a independência dos conselhos, promova a diversidade em todas as suas dimensões e esteja comprometida com a responsabilidade corporativa de forma genuína.
Se o objetivo é posicionar a governança brasileira à altura dos desafios globais e das melhores práticas internacionais, é preciso transformar os avanços recentes em estruturas permanentes, consistentes e de impacto real, fomentando uma cultura organizacional que valorize conselhos verdadeiramente plurais e estratégicos.
Compartilhar:




