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Jeito Disney vs. jeito brasileiro: O encantamento acessível como estratégia de eficiência e crescimento

Entenda como experiências simples, contextualizadas e humanas constroem marcas que duram.
Líder em Inovação e Acessibilidade, combina background em Engenharia Mecânica (Unicamp) com expertise em IA e Gestão de Inteligência. Sua atuação conecta tendências de futurismo à prática corporativa, oferecendo experiência e eficiência para organizações. Ex-líder de Transformação Digital na L'Oréal e de Programas de Acessibilidade na Accenture, hoje é Conselheiro, Influenciador e Professor na Fundação Dom Cabral. Especialista em comunicar tecnologia complexa de forma estratégica, ajuda empresas a navegarem no ESG com segurança, enquanto desenvolve soluções que garantem autonomia real para pessoas e times.

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Durante décadas, o “padrão Disney” foi o norte inatingível da experiência do cliente. Magia, perfeição, fantasia. É um modelo brilhante para um parque de diversões, onde a visita é um evento excepcional. Mas, sejamos francos: a sua empresa não é um parque temático. O seu cliente não está de férias; ele está resolvendo um problema, comprando um insumo ou buscando um serviço rotineiro.

Para o mercado brasileiro, diverso e complexo, tentar copiar a Disney é, muitas vezes, excludente. O excesso de poluição visual, a abordagem invasiva e a falta de acessibilidade real criam barreiras. O verdadeiro encantamento, aquele que gera “Lifetime Value” (LTV) e defesa de marca, não é fantástico. Ele é acessível, universal e eficiente, proporcionando maiores segurança e experiência para os clientes.

Este artigo propõe uma mudança de paradigma: a acessibilidade não é um custo de compliance ou um nicho de mercado. Ela é a base para uma experiência eficiente que beneficia a todos: desde o jovem neurodivergente até o idoso da economia prateada, passando por quem vive uma limitação temporária, ou seja, todas as pessoas. E, como provam cases brasileiros de norte a sul, esse é o caminho mais inteligente para crescer com legitimidade.

Para isso vamos explorar 5 jeitos de encantar o consumidor a moda brasileira:


Os 5 pilares do encantamento brasileiro e acessível


1. Conheça como quem conhece um amigo: Respeito e espaço (físico e digital)

Conhecer o cliente não significa tratá-lo como um alvo a ser abatido. No varejo presencial, temos a mania do “vendedor abafador” – aquele que não dá um passo atrás, que sufoca o cliente achando que está ajudando.

Em 2026, ajudar é, antes de tudo, não atrapalhar. Para pessoas neuroatípicas, como autistas, ou simplesmente para quem quer experimentar um produto com calma, essa abordagem é um repelente. O encantamento começa com a leitura de sinais e a criação de um espaço seguro.

No digital, a poluição sensorial é a prima-irmã do vendedor abafador. Sites cheios de pop-ups, notificações excessivas e coleta de dados invasiva são o equivalente ao “posso ajudar?” a cada 30 segundos. A pergunta que deve nortear sua estratégia é: estamos oferecendo informação ou causando transtorno sensorial?

> Dado de apoio: Segundo a Microsoft, 61% das pessoas com deficiência deixaram de comprar de uma marca devido a experiências inacessíveis. E isso impacta diretamente a conversão de todos os públicos.


2. O poder da pergunta (e da escuta ativa)

Se existe um atalho para o encantamento acessível, ele se chama perguntar. Parece simples, mas vivemos em uma era de respostas prontas e jornadas automatizadas que não abrem espaço para o inesperado.

Pergunte o que o cliente quer. Pergunte se ele está confortável. Pergunte como você pode ajudar de fato. E, mais importante, tenha a humildade de ouvir a resposta, mesmo quando ela vier em formato de meme ou de brincadeira.

O poder das perguntas e saber direcionar de fato o que precisa é solução para 80% dos problemas e também de encantamento dos clientes.


Case brasileiro: Havaianas (2025)

Quando os consumidores começaram a chamar um dos modelos de chinelo de “Havaianas Encardida” (numa brincadeira com o tom creme), a marca não acionou o departamento jurídico. Em vez disso, abraçou o humor e renomeou oficialmente o produto no e-commerce. O resultado? O produto virou líder de vendas.

Carlos Paschoal, diretor executivo da Havaianas, resumiu isso como uma cultura de “escutar o que o consumidor estava dizendo”. Este é o jeito brasileiro de encantar: não ter medo do humor, da informalidade ou da inteligência coletiva do público.


Case brasileiro: Nubank

O Nubank cresceu exponencialmente porque simplificou a linguagem, eliminou jargões bancários e criou canais abertos de escuta. Eles não encantaram com luxo. Encantaram com clareza e escuta. E isso escala. Tanto que o Nubank é o banco com maiores reconhecimento por encantar o cliente, através de deixar as coisas simples.

> Dado de apoio: Segundo a Salesforce, 88% dos clientes dizem que a experiência que uma empresa proporciona é tão importante quanto seus produtos. Perguntar é o primeiro passo para entregar essa experiência.


3. Contextualize: O Brasil é hiperlocal ou não é nada

Não adianta tentar encantar um cliente em Montes Claros com a mesma estratégia usada em São Paulo. O Brasil é um continente, e a “hiperlocalização” deixou de ser tendência para ser metodologia estratégica. Cada estado, cidade do Brasil tem uma cultura diferente, muitas empresas estão buscando pessoas que realmente conhecem cultura de Norte e Nordeste, pois muitos estudos relatam que a bola da vez está nessa região. Mas se não souber falar “o linguajar” deles está “fora” do mercado.

Case brasileiro: Venda do Fred (Montes Claros)

Eles não tentaram replicar um bar de Nova York. Construíram uma réplica da mercearia do avô do dono, com comida afetiva e valorização da cultura local. O resultado é um ponto turístico que vende pertencimento. A contextualização é a ponte entre o produto e a alma do cliente. Esse case é um exemplo simples, como setor do agro voltaram às raízes e pequenas coisas, entendendo as personas fazem toda a diferença.

Case brasileiro: Magazine Luiza

A Magalu integra loja física, app, marketplace, atendimento humano e influência digital com a “Lu”. Não é apenas omnichannel. É coerência contextual. No B2B, isso significa entender a maturidade digital do cliente, adaptar a linguagem ao nível estratégico e respeitar o ciclo decisório. Contexto gera relevância. Relevância gera encantamento.

> Dado de apoio: Um estudo da Epsilon revelou que 80% dos consumidores têm mais probabilidade de comprar quando as marcas oferecem experiências personalizadas. Mas personalização não é vigilância; é contexto.


4. (R)Existência pelo feedback: A via de mão dupla

No modelo antigo, a empresa dava feedback ao cliente. No novo modelo, o feedback é oxigênio, e ele precisa ser uma via de mão dupla. Não trate o feedback como crítica; trate como um presente que o cliente te dá para construir um negócio melhor.

> Dado de apoio: A Bain & Company demonstrou que aumentar a retenção de clientes em apenas 5% pode aumentar os lucros em 25% a 95%. O feedback é a chave da retenção.


5. Pequenos sinais, grandes conexões: Acessibilidade como eficiência

Encantar no dia a dia é sobre estar atento aos pequenos sinais. É sobre “marketing sensorial” sem exageros.

Case brasileiro: Casas Bahia

Com seu chatbot “Bahianinho”, a Casas Bahia não criou um robô para empurrar produtos. Criou um canal que informava sobre vagas de emprego, ajudava contra fraudes e avisava sobre ofertas de forma personalizada, gerando milhões de interações genuínas. O sinal ali foi: “nós nos importamos com a sua jornada completa, não só com a sua compra”. Isso inspirou várias empresas, Magazine Luiza, Natura também tem cases como esses. 

Isso também vale para acessibilidade. Empresas que tornam seus ambientes mais regulados sensorialmente, como por exemplo, com iluminação ajustável, redução de ruídos, linguagem clara e navegação simplificada – aumentam o tempo de permanência, reduzem churn, melhoram NPS e aumentam a fidelização. Acessibilidade melhora eficiência operacional. Não é filantropia. É inteligência de mercado.

> Dado de apoio: Segundo a OMS, mais de 1,3 bilhão de pessoas vivem com algum tipo de deficiência, porém 2,3 bilhões de pessoas necessitam diariamente recursos de acessibilidade. Mas acessibilidade vai além disso: é linguagem clara, design simples, atendimento empático e experiência sem sobrecarga sensorial.


O caso de negócio: Por que acessibilidade é lucro

Antes da prática, os números. A acessibilidade é frequentemente mal compreendida como um favor social. Dados mostram que é uma alavanca financeira robusta.

  • O Poder de Compra: Segundo o Return on Disability Group, a renda global disponível de pessoas com deficiência e suas famílias (o “Purple Money”) é estimada em US$ 13 trilhões. No Brasil, o IBGE indica que mais de 18,9 milhões de pessoas declararam algum tipo de deficiência. Ignorar esse público é deixar dinheiro na mesa.
  • A Economia Prateada: O Brasil envelhece rapidamente. Projeções do IBGE indicam que, até 2060, 25% da população terá mais de 65 anos, isso também o número de supercentenários irá crescer. O envelhecimento traz mudanças sensoriais e motoras naturais. Um design acessível hoje é um seguro de futuro para o seu negócio amanhã. Tanto que estatísticas falam que 49,6% da população no Brasil com mais de 60 anos, tem deficiência permanente.
  • O Espectro Universal: A Microsoft categoriza as deficiências em três grupos: Permanente (4% da população), Temporária (13%, como um braço quebrado) e Situacional (40%, como estar com um bebê no colo ou em ambiente ruidoso). Quando você resolve para a deficiência permanente, resolve para 100% dos usuários em algum momento.


Conclusão: O futuro é humano (e brasileiro)

O mercado de 2026 não perdoa mais a fantasia vazia. Os dados mostram que 78% das pessoas preferem comprar de marcas que oferecem uma boa experiência. Mas o que é uma “boa experiência” no nosso contexto?

É aquela que respeita o espaço do cliente, que pergunta antes de invadir, que fala a língua da sua região, que aceita um meme como presente e que está atenta aos pequenos sinais. É o jeito brasileiro e acessível de encantar: mais legítimo, menos produzido; mais humano, menos fantasioso.

Aos líderes de marketing e comercial, o recado é claro: parem de tentar construir reinos mágicos e comecem a construir lares. Lugares onde o cliente, seja ele quem for — neurotípico ou neurodiverso, jovem ou idoso, de alta renda ou em ascensão — sinta que não é apenas bem-vindo, mas que pertence, e isso significa dar segurança e autonomia aos clientes.

Encantar não é evento. É uma cultura organizacional. E cultura bem aplicada gera:

  • Receita previsível
  • Clientes defensores
  • Marca forte
  • Crescimento sustentável


O “jeito Disney” é um sonho. O “jeito brasileiro acessível” é um negócio que dura.

Referências e Dados Utilizados

1. IBGE. Censo Demográfico 2010 e Estimativas 2022. Dados sobre população com deficiência e envelhecimento no Brasil.

2.  Return on Disability Group. The Global Report on Disability. Estimativa de US$ 13 trilhões em renda disponível global (Purple Money).

3.  Microsoft Inclusion. Designing for Disability. Framework sobre deficiências Permanentes, Temporárias e Situacionais.

4.  Salesforce. State of the Connected Customer. Dados sobre a importância da experiência vs. produto (88%).

5.  Bain & Company. Customer Loyalty in Retail Banking. Correlação entre retenção de clientes (5%) e aumento de lucros (25-95%).

6.  Epsilon Research. The Power of Me. Dados sobre personalização e probabilidade de compra (80%).

7.  OMS (Organização Mundial da Saúde). World Report on Disability. Estimativa de 1 bilhão de pessoas com deficiência no mundo.

8.  W3C. Web Content Accessibility Guidelines (WCAG). Padrões internacionais para acessibilidade digital.

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