Se houvesse um consenso prático a ser extraído das dezenas de painéis, workshops e discussões do SXSW 2026, seria que a Inteligência Artificial deixou de ser uma ferramenta que usamos para se tornar uma infraestrutura passível de agir por nós. Essa mudança vai além do ato de delegar, e como bem pontuou John Maeda, ‘o bom gosto é o que a IA não pode te dar. O abismo da execução torna-se o abismo da avaliação’. A resposta para essa nova era parece estar na capacidade de fazer perguntas melhores, conduzindo conversas estruturadas, alinhando expectativas e definindo valor, e em saber orientar sistemas inteligentes. O designer passa a atuar menos como um criador de outputs e mais como um facilitador de decisões em contextos complexos, virando de cabeça para baixo a forma como desenhamos produtos e pensamos estratégias digitais.
Durante o festival em Austin, ficou claro que estamos vivendo a transição do UX (User Experience) para o AX (Agent Experience), atravessando uma fronteira fundamental no desenvolvimento de produtos digitais. A lógica de desenhar telas, botões e fluxos passo a passo está perdendo o protagonismo, conforme entramos na era de desenhar sistemas em que agentes autônomos executam tarefas complexas baseadas apenas na intenção do usuário.
Mais do que isso, o futuro do design se conecta diretamente com negócios e estratégia. Empresas estão internalizando capacidades criativas com IA, reduzindo a dependência de terceiros e acelerando ciclos de produção, ao mesmo tempo em que surgem desafios inéditos, como a necessidade de garantir consistência, previsibilidade e controle em sistemas baseados em agentes. Isso exige que o design esteja profundamente integrado às decisões de produto e inovação, deixando de ser uma camada estética para se tornar um motor de valor.
Em um mundo cada vez mais automatizado, o design que se destaca é aquele que equilibra tecnologia, valor e empatia, criando experiências que não apenas funcionam, mas que são confiáveis e compreensíveis. Não basta dominar ferramentas; é preciso desenvolver pensamento crítico, repertório e um entendimento profundo do mercado. Como Maeda define, esse novo cenário exige uma equação clara: Design = tech + business + design, all combined.
Pensando no avanço do agentic commerce, hoje, o design de um e-commerce é focado em guiar o olho humano até o botão de compra, mas e quando o usuário simplesmente disser ao seu assistente virtual: “Preciso de um tênis para academia, confortável, até R$ 400 e com entrega rápida”? O agente fará a busca, filtrará as opções, comparará os reviews, escolherá o melhor custo-benefício e deixará a compra pronta para aprovação.
Do ponto de vista de inovação e negócios, isso muda tudo, e as empresas precisarão estruturar seus produtos, conteúdos e arquiteturas de informação para serem consumidos não apenas por pessoas, mas por algoritmos. Como uma marca se posiciona quando o agente atua como um verdadeiro “shopper” digital, assumindo o papel de fazer as escolhas e tomar a decisão de compra pelo consumidor?
Nesse novo cenário, o papel do designer e do desenvolvedor sofre uma mutação profunda, e o futuro do design deixa de estar apenas em “desenhar a jornada”, mas evolui para a proposta de orquestrar a autonomia. Tanto por isso, o elemento central passa a ser sobre qual parte do loop o humano deve entrar. O design deixa de focar puramente na interface visual e passa a atuar na definição da lógica, nos ciclos de feedback, na supervisão e na qualidade da decisão tomada pela IA. Isso inclui a responsabilidade crítica de testar o sistema contra vieses, garantindo a isenção do agente e evitando cenários prejudiciais, como uma marca pagar para que um serviço de IA a favoreça de forma enviesada nas escolhas feitas para o usuário.
Isso nos leva ao risco do cognitive offloading (a terceirização do pensamento), um dos maiores alertas do SXSW 2026. A IA aumenta drasticamente a eficiência, mas pode atrofiar o desenvolvimento de expertise. Se automatizarmos todas as tarefas iniciais e operacionais, é urgente que entendamos também como formaremos os especialistas seniores de amanhã.
Mais do que isso, ao delegarmos decisões a agentes desenvolvidos por terceiros, a validação humana torna-se inegociável. Embora seja difícil para uma marca desvirtuar um serviço de IA First Party (como OpenAI, Google ou Meta), essa manipulação é muito mais fácil de ocorrer por parte de um desenvolvedor de agentes menores. Por isso, formar profissionais capazes de testar fundamentalmente esses sistemas contra vieses é uma questão de segurança e ética.
A resposta a esse questionamento está em uma mudança de postura profissional, na qual começamos a transitar da era do “fazer” para a era do “avaliar”. Programar ou executar tecnicamente já não é o diferencial central. O que importa agora é o pensamento computacional, a compreensão de contextos complexos e a capacidade de orquestrar sistemas.
A execução foi comoditizada; o valor migrou para a direção criativa, para a supervisão crítica e para a governança algorítmica. É exatamente nesse ponto que a expertise de centros de inovação como o CESAR ganha uma relevância sem precedentes. Essa capacidade de atuar na validação de segurança, nas verificações anti-vieses e na garantia ética dos sistemas autônomos passa a ser o verdadeiro diferencial para as organizações que desejam operar nessa nova era com confiança.
Apesar do que os discursos mais alarmistas sugerem, o futuro apontado pelo SXSW não é de substituição, mas de Human + AI. A tecnologia assumirá o trabalho repetitivo, mas o bom gosto, a sensibilidade e o repertório continuam sendo profundamente humanos. Em um mundo onde qualquer um pode gerar dezenas de opções com um simples prompt, o diferencial competitivo passa a ser quem sabe escolher, editar e lapidar.
As organizações mais fortes dos próximos anos serão aquelas que conseguirem combinar a velocidade de execução das máquinas com a supervisão humana qualificada. A autenticidade, a imperfeição genuína e a visão de longo prazo tornaram-se estratégias de sobrevivência. O debate não é mais “UX ou IA”, mas como evoluímos nossas capacidades para liderar em um mundo onde a experiência é mediada por agentes.




