ESG
3 minutos min de leitura

Decisões mais rápidas são necessariamente melhores? O que a governança pode ensinar à construção de regras

Velocidade, por si só, não garante melhores decisões. A partir das recentes mudanças nos processos normativos da CVM, o artigo propõe uma reflexão sobre os desafios de conciliar eficiência, excelência técnica e diversidade de perspectivas na construção regulatória.
Diretora Executiva e Head do Investors Group do 30% Club Brazil

Compartilhar:

A crescente complexidade do mercado de capitais impõe desafios cada vez maiores a reguladores, empresas e investidores. Transformações tecnológicas, novos modelos de negócio e mudanças econômicas exigem respostas rápidas e instituições capazes de acompanhar a velocidade dessas evoluções.

Nesse contexto, é natural e desejável que órgãos reguladores revisitem seus processos em busca de maior eficiência, sem perder de vista a importância da qualidade técnica e da governança na construção normativa. É sob essa perspectiva que a recente alteração promovida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) na Resolução CVM nº 67/2022 traz reflexões sobre o aprimoramento dos processos regulatórios.

Com o objetivo de conferir maior agilidade à agenda regulatória e ampliar a participação das diretorias, a mudança permite que o Colegiado atribua a um de seus integrantes ou a outra superintendência a coordenação da elaboração de novas normas, atividade historicamente associada à atuação da Superintendência de Desenvolvimento de Mercado (SDM).

A busca por uma agenda regulatória mais ágil e capaz de acompanhar a crescente complexidade e velocidade das transformações do mercado é positiva. Mais do que o mérito específico da medida, a discussão traz uma reflexão importante: o que torna os processos decisórios mais sólidos em ambientes cada vez mais complexos?

A resposta passa, naturalmente, pela capacidade técnica. Passa também pela agilidade. Mas dificilmente prescinde de um terceiro elemento: a pluralidade de perspectivas.

A experiência da governança corporativa mostra que decisões de maior qualidade tendem a emergir de ambientes que incentivam o debate qualificado e a consideração de diferentes visões. Em temas complexos, a diversidade de experiências e competências amplia a capacidade de identificar riscos, antecipar impactos e avaliar consequências que poderiam passar despercebidas em estruturas excessivamente concentradas.

Não se trata de escolher entre eficiência e participação, tampouco entre velocidade e robustez institucional. O desafio das organizações modernas é justamente construir mecanismos que conciliem essas dimensões.

Essa reflexão é familiar ao mundo corporativo. Nos últimos anos, consolidou-se o entendimento de que a diversidade em Conselhos de Administração vai além da representatividade. Trata-se de um componente que contribui para a qualidade das discussões e para a tomada de decisões mais bem fundamentadas. Diferentes trajetórias, formações e experiências enriquecem a análise e ampliam o repertório disponível para enfrentar desafios complexos.

O mesmo princípio pode inspirar a discussão sobre a construção regulatória. Quanto maior o impacto potencial de uma norma, maior a relevância de processos que favoreçam a circulação de conhecimento, o diálogo entre diferentes áreas e a incorporação de visões complementares.

A confiança dos agentes econômicos nas instituições depende dos resultados produzidos e da legitimidade dos processos que levam a esses resultados. Transparência, accountability e participação qualificada continuam sendo pilares essenciais para o fortalecimento institucional e para o desenvolvimento do mercado de capitais.

Por isso, iniciativas voltadas ao aprimoramento regulatório devem ser vistas também como oportunidades para reforçar esses atributos. A busca por maior eficiência não precisa ocorrer às custas da pluralidade. Ao contrário, a combinação entre excelência técnica, agilidade e diversidade de perspectivas tende a produzir decisões mais robustas e mais aderentes à complexidade do ambiente que pretendem regular.

O debate trazido pelas recentes mudanças na CVM oferece uma oportunidade valiosa para reafirmar um princípio que tem orientado as melhores práticas de governança ao redor do mundo: decisões melhores raramente são fruto de uma única visão, elas resultam da capacidade de reunir diferentes competências, experiências e pontos de vista em torno de um objetivo comum. Preservar esse equilíbrio talvez seja um dos maiores desafios das instituições e também uma de suas maiores fortalezas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Segurança cibernética: o orçamento está protegendo os riscos certos?

O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

O Brasil tem muitos fundos ou muito risco? O que os números realmente mostram

O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

O que o espírito do tempo está tentando nos dizer? Afeto, autonomia e o desafio de construir o futuro

A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

ESG
3 de novembro de 2026 08H00
Velocidade, por si só, não garante melhores decisões. A partir das recentes mudanças nos processos normativos da CVM, o artigo propõe uma reflexão sobre os desafios de conciliar eficiência, excelência técnica e diversidade de perspectivas na construção regulatória.

Renata Oliva Battiferro - Diretora Executiva e Head do Investors Group do 30% Club Brazil

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de novembro de 2026 15H00
Dados não estruturados, documentos físicos e processos legados impactam a adoção da IA e por que a automação inteligente se tornou uma peça-chave dessa transformação. O texto explora por que a preparação dos dados pode ser mais importante do que a própria tecnologia.

Alexandre Cardoso - Business Development Manager da Ricoh LATAM

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de novembro de 2026 08H00
O crescimento das ameaças digitais exige mais do que aumentar recursos destinados à segurança cibernética. Exige compreender quais riscos realmente importam para o negócio. O artigo explora por que as organizações precisam abandonar modelos baseados na inércia e adotar uma lógica orientada por risco para direcionar seus investimentos.

Ricardo Moraes - Sócio-líder de segurança cibernética e Daniel Pacheco - Sócio-líder de consultoria em tecnologia da KPMG no Brasil

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
1º de novembro de 2026 15H00
O mercado de saúde vive um novo ciclo de fusões e aquisições impulsionado pela busca por capacidades estratégicas já consolidadas. O texto mostra como infraestrutura, conhecimento regulatório, tecnologia e acesso a clientes estão se tornando ativos cada vez mais valiosos para empresas que precisam acelerar sua expansão.

Sergio Luconi - Sócio-diretor da Zaxo M&A Partners

4 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
1º de novembro de 2026 08H00
O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

José Roberto Meirelles - Sócio da área de mercado de capitais e fundos de investimento do Silveiro Advogados

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Liderança
31 de outubro de 2026 15H00
A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

André Naves - Defensor Público Regional de Direitos Humanos em SP, Comendador Cultural, Escritor e Professor

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Estratégia
31 de outubro de 2026 08H00
Conselhos, mentorias, projetos estratégicos, participações societárias e posições temporárias estão redesenhando o papel dos executivos mais experientes.

Renata Fabrini - Sócia-fundadora da Plongê

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
30 de outubro de 2026 15H00
O artigo reflete sobre os riscos das chamadas “câmaras de eco algorítmicas” e sobre o papel da IA na construção de decisões mais robustas e menos complacentes.

Ricardo Scheffer - CEO da SONDA do Brasil

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de outubro de 2026 08H00
Ferramentas generativas estão acelerando a produção de conteúdo nas áreas de comunicação e relações públicas. O desafio é que rapidez não substitui contexto, discernimento nem responsabilidade.

Ana Paula Soares - Diretora-fundadora da Encaso Comunicação

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
29 de outubro de 2026 15H00
Pesquisas recentes indicam que o envelhecimento biológico pode ser medido, acompanhado e, em determinadas dimensões, influenciado. A partir dessa nova compreensão, cresce o interesse por abordagens capazes de identificar riscos precocemente e promover trajetórias de saúde mais duradouras ao longo da vida.

Natalia Gonçalves - Superintendente Pesquisa & Desenvolvimento e Diretora Instituto de Ensino e Pesquisa (IEPD) da Dasa

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução