Inteligência artificial e gestão

Desmatamento no mercado de trabalho: quais os impactos da IA?

É inegável que a inteligência artificial já está modificando o mundo corporativo e as atividades operacionais estão ameaçadas pela tecnologia, mas é preciso ter em mente que o humano sempre se adapta às inovações tecnológicas
Diretora de Talent Management na Blip, empresa referência em AI conversacional. Com sólida trajetória em empresas como RD Station e Stilingue, Marília é especialista em construção de times de alta performance, estratégias de aquisição e desenvolvimento de talentos e cultura organizacional. Psicóloga de formação, com pós-graduação em Psicologia Positiva, atua há mais de uma década na interseção entre gestão de pessoas, inovação e resultados de negócio.

Compartilhar:

Do feed do LinkedIn à mesa de bar, não se fala em outra coisa a não ser sobre os avanços da inteligência artificial (IA). As reações e opiniões são variadas: há quem veja a inovação com entusiasmo, outros com reticências e alguns evitando sequer mergulhar no assunto e com certo ceticismo. Mas em meio a esse boom de informações, uma questão é recorrente nas rodas de conversa em que participo: afinal, a IA vai roubar os empregos?

As respostas são inúmeras, desde discursos mais fervorosos até visões utópicas. Considero que precisamos ser práticos, realistas e, acima de tudo, curiosos e questionadores. Afinal, apesar de todas as previsões futurísticas, o que está por vir ainda é incerto, com algumas tendências mais claras e previsíveis.

O GPT e outras tecnologias de IA têm o potencial de automatizar e otimizar certas tarefas, o que pode levar à criação de novas oportunidades de emprego, a transformação da natureza do trabalho em muitas indústrias e até mesmo a substituição de algumas atividades que antes eram realizadas manualmente por seres humanos.

Alguns dizem que viveremos a era das “profissões aumentadas”, já que ao eliminar atividades operacionais, o ganho de performance de um indivíduo pode aumentar exponencialmente.

É inegável que a IA tem o potencial de otimizar setores e isso levará à redução de atividades operacionais. Indústrias consolidadas como call center e atendimento, entre outras que dependiam exclusivamente da interação humana, estão na mira dessa revolução tecnológica.

Olhando sob essa ótica, a resposta para a pergunta que abre o texto é sim, as atividades operacionais estão ameaçadas. Esses processos de mudança, apesar de naturais no curso da história, são dolorosos, e, à primeira vista, podem ser bastante pessimistas.

Porém, entendo que de nada adianta nadar contra a maré. É importante adotarmos uma perspectiva atuante e que busque retornos positivos à sociedade, frente a uma transformação tecnológica inevitável, algo que nossos ancestrais já enfrentaram, a duras penas, em períodos históricos como a primeira revolução industrial, há mais de dois séculos.

Nesse contexto, te convido a refletir sobre dois aspectos importantes:

## 1 – O humano sempre se adapta às inovações tecnológicas
Ao longo da história, o ser humano sempre se adaptou às inovações tecnológicas. Desde a revolução industrial até a era da informação, testemunhamos a capacidade humana de se reinventar diante das mudanças. E não será diferente com a inteligência artificial.

O desaparecimento do call center, por exemplo, pode ser uma perspectiva assustadora para muitos que trabalham nesse setor, mas não há como ter certeza do que de fato virá. Assim como deve ter sido para os profissionais que conduziam carroças e charretes quando vieram os automóveis, ou quando os escrivães do século 15 foram aos poucos sendo substituídos pela impressora inventada por Johannes Gutenberg. Nesses dois últimos casos, sabemos bem o impacto irreversível do transporte via automóveis ou da disseminação sem precedentes da educação com a facilidade de imprimir fontes de conhecimento. Consegue imaginar hoje viver sem tais ferramentas?

A IA conversacional tem o potencial de abrir portas para novas oportunidades em outros campos digitais. Novos empregos surgirão nesse mercado em constante transformação, e precisaremos estar preparados para abraçar essas mudanças. O processo de mudança vem com alguma dor. Grande parte dos profissionais não estão habilitados e preparados com as competências necessárias, e algumas delas levam tempo para serem desenvolvidas.

Para isso, novas habilidades e competências serão exigidas dos profissionais. Copilotar a IA requer pensamento crítico, habilidade para fazer perguntas e technology literacy (ou alfabetização tecnológica, na tradução), a capacidade de usar, compreender, gerenciar e analisar a tecnologia de forma segura, eficaz e responsável.

À medida que certas tarefas são automatizadas, novas habilidades e funções podem se tornar mais relevantes, abrindo espaço para trabalhos mais especializados, criativos e de gestão de tecnologia.

## 2 – Qual será o compromisso e a responsabilidade das empresas nisso?
E aqui entra o papel crucial das empresas. Aquelas que abraçarem a IA precisam assumir a responsabilidade de lidar com o impacto social dessa revolução tecnológica. Ao adotar a automação, um bom caminho para que essas empresas atenuem os impactos sociais gerados é criar programas de qualificação profissional para os trabalhadores afetados. Não se trata apenas de substituir o emprego, mas de promover uma transição ética para uma nova realidade.

Quando falamos de ESG (governança ambiental, social e corporativa) nas empresas de IA, não podemos deixar de lado o “S” de social. Se empresas lidam com impactos negativos, como o desmatamento de empregos, é dever delas reflorestar esse campo de trabalho, investindo em educação e treinamento para garantir que os profissionais sejam capazes de se adaptar e prosperar nessa nova era.

A verdade é que a IA está chegando, e mudanças no mercado de trabalho são inevitáveis. No entanto, o ser humano sempre encontrou uma maneira de evoluir e se reinventar. Espero que possamos enxergar a IA como uma oportunidade de crescimento, desde que estejamos dispostos a aprender e a enfrentar os desafios que essa transformação trará. E que, como empresas, empregaremos mais do que nunca o nosso compromisso com o impacto social de nossas ações e em como geramos o bem para a sociedade.

Portanto, a pergunta não deve ser se a IA vai roubar empregos, mas sim como nós, como sociedade, empresas e indivíduos, nos adaptaremos para prosperar em um futuro impulsionado pela inteligência artificial. A hora de encararmos a mudança de frente e assumirmos nosso compromisso em criarmos um futuro harmonioso e vantajoso para todos já chegou.

Compartilhar:

Artigos relacionados

NR-1: nova norma exige método, não pânico

A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

O anti-Magalhães: a coragem de saber parar

Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

Quando o acesso vira a estratégia da indústria farmacêutica

Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Você deve pensar sua carreira como um sistema

Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
30 de junho de 2026 08H00
A NR-1 mudou a regra: cuidar da saúde mental agora exige gestão. Este artigo mostra como a nova norma transforma riscos psicossociais em variável estratégica, exigindo das empresas organização, método e accountability na gestão do ambiente de trabalho.

Erich Silva - COO e Head de Talentos da Lecom

3 minutos min de leitura
Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de junho de 2026 08H00
Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de junho de 2026 08H00
Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Estratégia
27 de junho de 2026 15H00
Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

Nathália Brandão - Head de Educação Corporativa no TikTok LATAM, Escritora e Forbes Under 30

5 minutos min de leitura
Liderança
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão