Healing leadership

O papel da liderança no capitalismo de stakeholders

Muita coisa mudou no capitalismo desde a criação da revista HSM Management, há 25 anos. Os autores discutem as mudanças de modelo mental e a liderança nesse contexto
Dario Neto é diretor geral do Instituto Capitalismo Consciente Brasil e CEO do Grupo Anga. Também é pai do Miguel e marido da Bruna. Marcel Fukayama é diretor geral do Sistema B Internacional e cofundador da consultoria em negócios de impacto Din4mo.

Compartilhar:

Quando o Nobel da Economia Milton Friedman publicou, em 13 de setembro de 1970, o famoso artigo “The Social Responsibility of Business Is to Increase Its Profits” no New York Times, uma nova cultura foi criada e potencializada no capitalismo: a maximização de lucros como principal finalidade dos negócios. Essa primazia dos acionistas, nos EUA conhecida como “shareholder primacy”, alterou o modelo de produção e consumo, gerando uma riqueza sem precedentes. Desde então, mais de 1 bilhão de pessoas deixaram a linha de pobreza extrema no mundo.

Nessa edição comemorativa de 25 anos de __HSM Management__, avaliamos nesta coluna a evolução do capitalismo e o papel da liderança na construção de um novo modelo orientado não apenas aos shareholders, mas aos stakeholders, isto é, a todas as partes interessadas das empresas.

Durante esse período de um quarto de século, é possível destacar fatos que mostram a ampliação da consciência quanto aos efeitos do capitalismo puramente orientado à maximização de lucros. Após a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992, a agenda ambiental e social se aproximou do setor privado e mobilizou lideranças públicas. A primeira COP (Conference of the Parties) das Nações Unidas aconteceu em 1995. O protocolo de Kyoto, em 1997, criou as primeiras grandes tensões sobre responsabilidades das emissões de gases de efeito estufa. Na agenda social, a responsabilidade social corporativa ganhou força nas décadas de 1990 e 2000.

Mais recentemente, após o fracasso dos objetivos do milênio, a ONU conseguiu compor um quadro de metas de desenvolvimento mais sistêmico. A Agenda 2030, com os 17 objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS), talvez seja o plano mais concreto, objetivo e com linguagem comum que a governança global já conseguiu produzir.

Ao mesmo tempo, o Acordo de Paris fez aterrissar de maneira concreta a necessidade de convergirmos para ações concretas para limitar o aquecimento do planeta a 1,5 grau Celsius até o final do século 21.
Vivemos hoje uma emergência climática e as consequências dramáticas de uma pandemia sobre um mundo desigual. Mais que uma crise sanitária e econômica, vivemos uma crise humanitária. A acentuação do cenário de crise tem sensibilizado atores globais e de mercado a repensar e redesenhar o capitalismo como conhecemos.

Um dos marcos nesse sentido foi o Fórum Econômico Mundial, em 2020, que adotou em seu manifesto o termo “Capitalismo de Stakeholders”. No Sistema B e B Lab, globalmente, temos buscado qualificar esse termo. Para nós, trata-se de três elementos: 1. vincular a responsabilidade fiduciária à geração de impacto positivo; 2. considerar stakeholders na decisão de curto e longo prazo; e 3. gerar benefícios e valor às partes interessadas no longo prazo, isto é, além de criar valor para os acionistas, incluir também os colaboradores, membros da comunidade, fornecedores e a própria natureza.

A evolução do capitalismo corresponde a uma mudança de cultura. Para isso, as lideranças têm papel fundamental. Como um healing leader, você pode começar desde já a implementar ações concretas na direção de um modelo que gera prosperidade compartilhada e valor para a sociedade e para nosso planeta:

1. __Fortaleça a governança:__ crie corpos de governança que assegurem que seus stakeholders tenham suas vozes consideradas na tomada de decisão. A inclusão de colaboradores e membros da comunidade do entorno em que a empresa atua em um comitê consultivo pode ser um primeiro passo. Quem sabe, será possível até nomeá-los para um futuro conselho de administração.
2. __Assuma compromissos legais:__ a fim de institucionalizar essas práticas, considere incorporar a linguagem legal do Sistema B em seu contrato ou estatuto social. No objeto social, o vínculo do propósito da empresa com a geração de impacto positivo e, na gestão, o compromisso de consideração das partes interessadas na decisão da companhia no curto e longo prazo.
3. __Gerencie seu impacto e o impacto de sua cadeia:__ como bom gestor, você sabe que somos o que medimos. Comece a medir e gerenciar seu impacto de forma online, gratuita e confidencial usando a Avaliação de Impacto do Sistema B. A partir disso, comece a solicitar que seus fornecedores façam o mesmo. A diligência sobre a cadeia de valor é crítica para manter a consistência, a coerência e a integridade desse processo.
4. __Incorpore novos padrões e métricas de medição:__ vá além das métricas financeiras contábeis. Hoje, há um grupo pioneiro de empresas, como a Natura, que está promovendo a chamada Contabilidade Integrada, tendo métricas contábeis para medir e precificar o impacto ambiental e social e incluí-los no balanço do negócio.

Assim, há formas concretas e objetivas de, pouco a pouco, você introduzir uma nova cultura em sua organização a fim de gerar valor para o próprio negócio, para a sociedade e para o planeta. Ponderamos que grande parte dessas ações ainda é de natureza voluntária. Por sua incipiência, isso ajuda a identificar lideranças comprometidas e engajadas, além de validar a prova de conceito. Porém, para a mudança em larga escala, necessitamos de mudanças nas regras do jogo.

Muitas dessas práticas, hoje voluntárias, em breve passarão a ser mandatórias. Portanto, healing leader, aproveite o início dessa onda agora em 2022: cruze a rebentação e surfe a crista.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Quando um legado familiar redefine um pedaço da cidade

Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

A energia invisível da liderança – revelando a verdadeira natureza do “Ki” irradiado por Masao Ogura, da Yamato Transport

Da criação do Takkyubin à reinvenção da logística japonesa, a história de Masao Ogura, responsável por transformar a Yamato Transport em um dos maiores cases de inovação logística do Japão. Este artigo revela como os princípios das artes marciais podem oferecer novas perspectivas sobre cultura organizacional, inovação, tomada de decisão e liderança em tempos de transformação.

Liderança
7 de julho de 2026 08H00
As mulheres brasileiras nunca estudaram tanto nem estiveram tão qualificadas para ocupar posições de decisão. Este artigo discute por que a desigualdade de representação persiste e como educação, networking e visibilidade continuam sendo fundamentais para transformar preparo em oportunidade.

Luiza Helena Trajano - Presidente do Conselho do Magazine Luiza e Presidente do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
6 de julho de 2026 16H00
Enquanto o networking superficial busca visibilidade, as conexões que realmente transformam carreiras nascem da credibilidade construída em projetos, desafios e relações pautadas pela confiança.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

6 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
6 de julho de 2026 09H00
Com a aceleração da inteligência artificial e a explosão de conteúdo, a liderança passa a exigir menos consumo de informação e mais capacidade de interpretar tendências, conectar contextos e tomar decisões em meio à complexidade.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
ESG
5 de julho de 2026 14H00
O maior risco do ESG não está no “E” nem no “S”, mas na fragilidade da governança que deveria sustentar ambos. Este artigo mostra como a NBR ISO 37301 ajuda organizações a transformar ética, compliance e gestão de riscos em evidências concretas de maturidade ESG.

Fernando Palamone - CEO da RT-One

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
5 de julho de 2026 09H00
Enquanto as marcas continuam disputando atenção nos feeds, as conversas que realmente influenciam percepções e decisões migraram para espaços mais fechados e menos visíveis. Este artigo mostra por que o futuro da relevância pode estar justamente onde os algoritmos não alcançam.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
4 de julho de 2026 14H00
A Psicologia Positiva desafia uma crença comum nas organizações: a de que líderes geram resultados principalmente corrigindo falhas. A ciência sugere outro caminho, fortalecer aquilo que já funciona para ampliar desempenho, engajamento e resiliência.

Valter Bahia Filho - Autor, palestrante e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de julho de 2026 08H00
A partir de casos reais do agronegócio, este artigo mostra por que decisões baseadas em análises isoladas tendem a falhar e como a integração de múltiplas variáveis pode transformar a gestão de risco, dentro e fora do campo.

Kallil Chebaro - CEO e Head de Produto na Agscore

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
3 de julho de 2026 15H00
Se o cliente já sabe tudo, o que ainda falta ao vendedor? Este artigo mostra como a tecnologia expôs o vendedor despreparado e como isso mudou o jogo das vendas.

Mari Genovez - CEO da Matchez

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Comunicação, Estratégia
3 de julho de 2026 08H00
Se a sua mensagem interna viralizar amanhã, você sustentaria o que disse?

Ana Paula Soares - Fundadora e diretora-geral da Encaso Assessoria

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo