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Prosperidade local

Elisabeth Laville, da consultoria francesa Utopies, fala sobre o desenvolvimento de economias locais e aponta caminhos para as empresas brasileiras que desejam adotar uma estratégia proativa nesse novo contexto.

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Depois de se formar na Escola de Negócios HEC, em 1988, Elisabeth Laville criou a Utopies em 1993, um think-tank e consultoria especializada em desenvolvimento sustentável, reconhecida como uma das pioneiras para estratégias de negócios sustentáveis na França. A Utopies também está em primeiro lugar no ranking francês de melhores consultorias de sustentabilidade desde 2011 e nas 25 principais consultorias francesas para estratégias de marketing (revista Décideurs), e top-20 no ranking mundial dos principais parceiros de relatórios (CorporateRegister.com). Ela também se tornou a primeira empresa francesa a obter a certificação B Corp, em janeiro de 2014.

Elisabeth Laville e seu time de 50 pessoas têm trabalhado em estratégias e gestão de responsabilidade corporativa para diversos clientes globais, como Ben & Jerry’s, Danone, Carrefour, Sodexo e L’Oréal. Em breve, marcas brasileiras também devem figurar nessa lista, pois, desde 2018, uma joint venture firmada com a consultoria em sustentabilidade brasileira Rever Consulting, deu origem à Utopies Brasil. 

Em entrevista para HSM Management, Laville fala sobre o desenvolvimento de economias locais e aponta caminhos para as empresas brasileiras que desejam adotar uma estratégia proativa nesse novo contexto. 

**1. Como o fortalecimento de estratégias de economias locais está relacionado à redução dos impactos ao meio ambiente? Poderia explicar um pouco a conexão entre esses dois assuntos?**

Quanto mais uma cidade ou região for capaz de fornecer respostas locais a suas necessidades também locais, melhor para o meio ambiente. Isso acontece, em primeiro lugar, porque, se você produzir localmente o que é consumido localmente, precisará de menos importações, o que significa menos caminhões nas estradas transportando os produtos, menos congestionamento, menos poluição, menos emissões de CO2 e, consequentemente, menor impacto climático. Produzir e consumir em âmbito local também significa aumentar a resiliência da cidade ou da região, que precisará diminuir sua vulnerabilidade e sua dependência de outros mercados.

Para bens manufaturados, uma ótima maneira de desenvolver respostas locais às necessidades é fomentar novos modelos de negócios, como os de economia circular (em que resíduos ou produtos que não foram utilizados são transformados em recursos) e a economia de serviços (em que você utiliza ao máximo os produtos disponíveis localmente, compartilhando-os e, assim, aumentando o número de usuários que se beneficiam de um único produto).

**2. Essa é uma temática que tem crescido bastante internacionalmente, principalmente em países europeus. Por que esse assunto tem ganhando tanta força?**

Primeiramente, há um interesse crescente dos consumidores em todos os mercados, incluindo o de alimentos, por marcas e por produtos locais. Esse interesse vem, na maioria das vezes, porque tais produtos possibilitam uma rastreabilidade completa até a origem, ou seja, uma visualização de onde eles vêm e de como foram produzidos, o que faz com que os consumidores tenham mais confiança nos produtos. Segundo uma pesquisa da Kantar feita em 44 países, as marcas locais correspondem a 46% do consumo global e crescem duas vezes mais rápido do que as marcas internacionais! Isso é algo que pode ser encontrado no mercado de cervejas dos Estados Unidos, por exemplo, em que cervejas artesanais locais representam 25% do mercado. 

Acredito que as pessoas também têm tentado combater a padronização cultural, promovendo cada vez mais as culturas locais – o que é melhor feito por meio de marcas também locais. Além disso, ter acionistas e funcionários locais também significa que qualquer euro, dólar ou real gasto com a empresa terá um maior impacto socioeconômico (por exemplo, geração de empregos, PIB etc.) na região. Isso acontece porque o dinheiro permanecerá na economia local e seu efeito multiplicador terá mais impacto na própria região em questão.

**3. Quais são os casos mais emblemáticos desse tipo de ação focada localmente? Quais foram os impactos ambientais, sociais e econômicos?**

Um exemplo recente é um projeto que fizemos em 2018, quando a Utopies avaliou, com sua ferramenta Local Footprint®, os impactos econômicos e ambientais do “Ecossistema de Darwin”, um lugar dinâmico e vibrante em Bordeaux (França), que é dedicado a promover um desenvolvimento responsável da economia local e uma transição social e ecológica. O estudo provou, por exemplo, que o maior restaurante orgânico da França, que está no Ecossistema de Darwin, apoia, graças a sua política de compras locais e orgânicas, a manutenção de até 40% a mais de empregos na região metropolitana de Bordeaux em comparação com um restaurante convencional. O estudo ajudou significativamente as partes interessadas a entender melhor as externalidades ambientais do Ecossistema e a valorizar seus efeitos socioeconômicos locais positivos, com mais de 1 mil empregos diretos, indiretos e induzidos mantidos localmente.

Em termos mais gerais, também realizamos vários estudos na França, nos EUA e em outras áreas do mundo (por exemplo, nas Ilhas Maurício) para entender profundamente três fatores: 1. Como a riqueza é gerada em um território específico, podendo ser um país, uma cidade ou até mesmo uma região); 2. Quais são os mecanismos geradores de riqueza; 3. Quanto dessa riqueza é gerada a partir dos circuitos econômicos locais. Nossas descobertas mostram que atrair riqueza de fora é, naturalmente, um pilar importante e necessário para uma economia local ativa e próspera. No entanto, a atração da riqueza externa, por si só, não explica nem sustenta a prosperidade da região. De fato, não só a riqueza local depende da capacidade da região de atrair renda internacional (de exportações, de mão de obra, empresas etc.), mas também depende da capacidade da região de circular a riqueza localmente – nesse caso, a renda que entra na região gera mais riqueza localmente, o que acabada gerando novas trocas e mais renda, criando um ciclo virtuoso entre os atores da economia local, até que esse efeito cascata desapareça. Isso é o que chamamos de efeito multiplicador local, que quase em todo o mundo está indo para baixo. Sem esse efeito, a região funciona como um “balde furado” que é incapaz de manter a riqueza que entra e beneficia sua economia local. 

Nossos estudos também mostraram que a economia local é responsável por um terço da prosperidade local – parcela enorme e, na maioria das vezes, absolutamente desconsiderada pelas agências e pelas autoridades de desenvolvimento econômico. Nem mesmo um terço do orçamento de desenvolvimento econômico é dedicado a impulsionar a economia local, apesar do fato de já existirem muitas soluções para isso, como microfábricas, fab labs, incubadoras e outras soluções para produzir localmente até mais do que é consumido localmente. Outras soluções são as chamadas “circulares”, destinadas à reparação, reciclagem ou reutilização de resíduos, além de tudo que possa ajudar a criar valor em vez de produtos, como modelos de negócio baseados em soluções digitais (peer to peer, plataformas colaborativas, aplicativos descentralizados através de blockchain ou inteligência artificial). Isso é bom para o emprego e para a economia local, mas também cria um modelo de economia e consumo menos intensivo em CO2. Sabemos que, com base no Protocolo de Kyoto, por exemplo, as emissões de CO2 são calculadas com base no que é produzido no país, portanto, não se leva em consideração o que é consumido, mesmo considerando que essas emissões baseadas no consumo aumentariam significativamente (chegando a mais de 40% na França, por exemplo) as emissões territoriais! Por fim, esses modelos de negócios novos e “mais locais” também são menos dependentes de matérias-primas internacionais por meio de importações, que expõem a região/país à escassez de recursos e aos riscos climáticos e também geopolíticos.

**4. Sabemos que você vem com frequência ao Brasil e que tem uma empresa sediada em São Paulo. Quais são as oportunidades aqui no país para trabalhar a temática, e como isso pode ajudar a solucionar os grandes desafios socioambientais brasileiros?**

O Brasil tem problemas de desemprego e pobreza, mas também é um país grande, com marcas fortes e dinâmicas que fabricam muitos bens e produtos, considerando alimentos, cosméticos, têxteis ou produtos industriais. Eu diria que promover o “feito no local” (Made in Brazil, Made in Rio, Made in Ceara etc.) seria muito relevante para explicar aos consumidores que eles, de fato, escolhem, todos os dias, de acordo com o que compram, o mundo, o país e a região em que querem morar. Se eu comprar um produto local, sei que o dinheiro vai ficar na comunidade e circular melhor, criando empregos para minha família e meus amigos, mais locais prósperos, mais conexões entre as pessoas e, portanto, mais coesão social, o que torna a comunidade mais resiliente em situações de crise. 

Essa lógica não significa não importar ou não exportar mais: não se trata de escolher entre a globalização ou o local, mas sim ter o melhor dos dois mundos. Hoje, como eu disse, um terço da geração de riqueza local depende da força da própria economia local, portanto, se focarmos apenas na globalização, perderemos uma dimensão fundamental. No entanto, pelo que tenho visto no Brasil, marcas que produzem localmente nem mencionam isso para os consumidores locais, como se fosse irrelevante para o mercado. Mas não acho que seja irrelevante quando lidamos com desafios ambientais e econômicos. Vejo espaço para as marcas serem mais proativas e traçarem estratégias para maximizar a produção ou a geração de impacto local. 

**5. Para as empresas que se interessam em trilhar esse caminho, quais seriam as recomendações práticas para construir um caso de sucesso?**

Acredito que há dois elementos fundamentais para qualquer empresa que queira iniciar um trabalho mais direcionado ao desenvolvimento local: 1. Engajamento e inovação entre as partes interessadas locais, em todos os horizontes, tais como ONGs sociais e ambientais, autoridades locais, grupos de cidadãos locais, instituições de ensino, startups e incubadoras, empresas locais pequenas ou grandes; 2. Metas corporativas radicais, a fim de impulsionar a mudança e inspirar outras pessoas, como decidir mudar para 100% de energia renovável produzida localmente, tornar-se uma empresa 100% circular, definir uma meta de resíduo zero etc.

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