ESG

A agenda ESG também pode ajudar na situação da fome no Brasil

A matriz de materialidade das empresas de toda a cadeia de produção alimentícia deve considerar os excedentes como alimentos, e não como resíduos. Esses alimentos ainda têm uma vida social, sendo útil para aqueles que passam fome no País
Alcione Pereira é fundadora e CEO da Connecting Food, engenheira de alimentos, mestre em sustentabilidade pela Fundação Getúlio Vargas e MBA em gestão empresarial, além de co-idealizadora do Movimento Todos à Mesa.

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Talvez não fosse necessário repetir o que todo o mundo reconhece, mas aqui vamos nós: os tempos mudaram. E a sensação de que tudo se altera cada vez mais rápido é maior, à medida que as décadas avançam. Mesmo sendo evidente, acredito que seja importante revisitarmos alguns pontos muito relevantes do que ficou para trás, para entendermos como o nosso futuro pode ser melhor com a nossa atuação urgente no presente.

Trazendo esta reflexão para o que me move como empreendedora de impacto: a fome não é uma novidade, infelizmente. As perdas e o desperdício na cadeia produtiva, também não. Mas o grande problema é que os números vêm aumentando década após década, sem que medidas necessárias e imediatas sejam tomadas para melhorar esse panorama. E é aqui que reside um paradoxo que não pode continuar existindo: como pode haver perdas e, em última instância, comida indo para o lixo, quando milhões e milhões de pessoas não têm o que almoçar ou jantar?

É muito provável que todos já tenham ouvido, pelo menos uma vez na vida, uma pessoa mais velha dizendo “não deixe comida no prato, menina! Com tanta gente passando fome por aí…” – sábias palavras, perdidas ao longo dos anos…. Mas se déssemos a atenção que o tema merece, não só olhando o nosso prato como consumidor, mas também pensando na estratégia ESG nas empresas, conseguiríamos evitar que o alimento fosse tratado como resíduo.

Recentemente, o Instituto Capgemini divulgou um [estudo internacional sobre o desperdício de alimentos](https://www.capgemini.com/gb-en/insights/research-library/food-waste/), demonstrando que a porcentagem de consumidores preocupados com esta questão vem crescendo, e muito, nos últimos anos. De acordo com a pesquisa, mais de 60% das pessoas acreditam que um dos estágios finais da cadeia, onde estão os supermercados e outros varejistas, deveriam fazer mais do que eles próprios acham que já é suficiente. Os consumidores veem potencial de as empresas investirem mais em esclarecer dados de conservação nas embalagens, por exemplo, e até mesmo com outras informações que ajudem os próprios consumidores a terem mais consciência do seu papel na redução do desperdício.

Outro dado relevante apontado pelo estudo é que alguns responsáveis pela comercialização dos alimentos já começaram a tomar medidas para conter o desperdício, mas a grande maioria não faz nada em conjunto com fornecedores e parceiros. Isso é uma pena, pois as medidas poderiam ser facilmente escalonadas e surtir muito mais efeito, se tomadas ao longo da cadeia, inclusive, até a ponta final e derradeira, o consumidor. Não é surpresa nenhuma que o consumidor não esteja disposto a pagar mais pelo mesmo produto de sempre, só porque os fabricantes decidiram assumir a sua responsabilidade de conter o impacto da sua própria operação sobre o meio ambiente, a economia, a sociedade.

Vejo que o material da Capgemini trouxe dados muito importantes e relevantes para a tomada de decisão dos líderes realmente engajados em fazer a sua parte para a melhoria da cadeia de alimentos. Mas não é só isso que move um negócio. Ao contrário, é muito mais o retorno financeiro que ele traz. Aqui, vale a pena fazermos um cruzamento com informações bem interessantes contidas em outros dois estudos, um deles realizado em conjunto pelo Pacto Global da ONU no Brasil, Falconi e [Stilingue](https://conteudos.stilingue.com.br/estudo-a-evolucao-do-esg-no-brasil), que reflete como está a agenda ESG em empresas de diversos portes. E outro feito pela Abras em parceria com a KPMG, com foco em ESG no [varejo](https://www.abras.com.br/clipping/sustentabilidade/112863/abras-e-kpmg-lancam-diagnostico-sobre-estagio-esg-do-setor-supermercadista-brasileiro).

No primeiro, vemos dados que demonstram um certo paradoxo, já que a maior motivação para a implementação de uma estratégia ESG, para grande parte das companhias entrevistadas, é a preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade da economia, e não uma exigência do consumidor. Por outro lado, as mesmas empresas que já implementaram ações relacionadas com essa agenda, perceberam um maior impacto dessas práticas na sua reputação e imagem.

Na segunda pesquisa, com empresas do varejo, os dados mostram que, apesar de mais de 90% dos entrevistados darem elevada importância às perspectivas sociais, ambientais e de governança, apenas pouco mais da metade atua em termos de capacitação dos seus funcionários nesse sentido e na adoção de quaisquer outras ações de aplicação da agenda ESG.

Diante disso, parece ser mais relevante chamar a atenção para o fato de que implementar uma estratégia ESG é uma necessidade em todas as corporações, não importa que tamanho tenham. Só que não é apenas a qualidade que faz parte do “pacote mínimo no preço”, mas também a responsabilidade socioambiental e a ética. Não podemos imaginar uma concorrência regida por leis que permitam que uma empresa não pague impostos ou polua à vontade e, por isso, cobra menos. Ou que quem faça tudo de acordo com as regras possa cobrar mais.

De qualquer maneira, não podemos nos esquecer dos pontos positivos apontados pelos estudos citados, afinal, eles mostram que houve uma evolução e, como tudo na vida, é uma questão de dar o primeiro passo. O desafio maior é colocar na prática a matriz ESG como parte das tomadas de decisão, mas, enquanto houver evolução, estaremos melhor que antes e isto já é ótimo.

Já que estamos neste momento de ascensão da agenda ESG em geral, acredito ser muito importante que a matriz de materialidade das empresas de toda a cadeia de produção alimentícia considere seus excedentes como alimentos, e não como resíduos. Afinal, esses alimentos que, por qualquer motivo, deixam de poder ser comercializados não têm mais vida econômica, mas ainda têm uma vida social

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