Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
4 minutos min de leitura
Oferecido por:

A cultura do excesso está nos adoecendo, e ainda tem quem chame isso de “alta performance”

Alta performance não nasce do excesso - nasce do equilíbrio entre metas desafiadoras e respeito à saúde de quem entrega os resultados.
Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

Compartilhar:



43 anos. Esse é o tempo que nós, brasileiros, passamos ocupados com atividades essenciais e responsabilidades compulsórias. Nós dedicamos 74% da nossa vida adulta ao cumprimento de demandas, sendo cerca de 30% destinado ao sono, 23% ao trabalho remunerado, 15% aos cuidados com a casa e a família e 7% aos deslocamentos, como no trânsito ou em transportes públicos.

Os dados são de um levantamento realizado pelo Instituto Ipsos, a pedido do Nubank, e mostra que o trabalho ocupa uma parte enorme na equação da vida adulta. O problema é quando esse espaço, em vez de nos impulsionar, é dominado por uma lógica de excesso que ainda é confundida com alta performance.

Nos últimos anos, temos visto crescer dentro das empresas um discurso sobre “alta performance” que, à primeira vista, parece motivador, mas se olharmos com atenção, é possível perceber que em muitos lugares esse termo se tornou sinônimo de algo perigoso: a normalização do excesso. Jornadas intermináveis, metas inalcançáveis, a ideia de que só é reconhecido quem se sacrifica além do limite. Essa lógica, que ainda é romantizada como virtude, está silenciosamente adoecendo pessoas e fragilizando organizações.

A chamada cultura do excesso é fácil de identificar, mas nem tão simples de abandonar quando se torna algo “normal”, fazendo o esforço extremo passar de algo pontual para ser regra e tornando permanente o senso de urgência. Essa lógica faz com que os trabalhadores adiem sempre a vida pessoal e, ainda assim, no trabalho, a sensação é a de nunca ser suficiente. Perceba, aqui não estamos falando sobre uma cultura de comprometimento, mas de exaustão mascarada de produtividade.


Os impactos invisíveis do excesso

Penso que durante algum tempo, esse modelo pode até gerar entregas rápidas, mas sempre com um custo alto demais. A médio e longo prazo, o preço é o adoecimento físico e emocional das pessoas, o aumento do burnout, a desmotivação e a perda de talentos valiosos. E, quando isso acontece, a empresa também perde: cai a produtividade, aumenta a rotatividade e o clima organizacional se desgasta.

Recentemente, acompanhamos no Brasil um episódio emblemático: uma grande companhia promoveu demissões em massa, justificando “baixa produtividade” com base em dados como número de cliques no computador, tempo de tela ativa e janelas abertas. De acordo com o que vem sendo noticiado, não foram consideradas metas batidas, feedbacks de gestores ou qualidade de entregas, mas sim uma régua algorítmica que decidiu quem fica e quem sai.

Esse tipo de prática escancara o risco de confundir controle com performance e tecnologia com gestão humana. Quando reduzimos pessoas a métricas de atividade, deixamos de enxergar o que considero essencial: o valor humano que sustenta qualquer organização. O excesso não fortalece, enfraquece, pois mina a energia, a criatividade e o engajamento, justamente os elementos que deveriam sustentar uma verdadeira alta performance.


A responsabilidade das lideranças e do RH

Se queremos mudar esse cenário, precisamos de lideranças que assumam a responsabilidade de não confundir dedicação com sacrifício. O papel do RH e dos gestores é criar condições para que as pessoas possam performar bem sem abrir mão da saúde e do equilíbrio. Isso significa desenhar metas factíveis, valorizar não apenas o quanto se entrega, mas também a forma como se entrega, e cultivar uma cultura que enxergue o descanso como parte do ciclo produtivo.

E aqui, não estamos falando apenas de políticas formais, é preciso um compromisso diário: dar o exemplo, respeitar limites, encorajar pausas e reconhecer que ninguém deveria precisar se esgotar para provar valor.

Ao mesmo tempo, também acredito que cabe a cada profissional desenvolver a capacidade de perceber os sinais de que o excesso já começou a cobrar seu preço, e isso requer muito autoconhecimento. Em um país com tantas desigualdades, e com recordes de afastamentos do trabalho por problemas de saúde mental, essa pode ser uma missão difícil, é verdade, mas não podemos perder esse objetivo de vista. O trabalho deve ser parte importante da vida, mas nunca a substituição dela, e se estamos adoecendo no processo, algo precisa mudar.


O caminho possível

Não acredito que exista contradição entre performance e bem-estar, pelo contrário, penso que uma sustenta a outra. Quando equilibramos metas desafiadoras com respeito à individualidade, investimos em saúde mental e em culturas de confiança, os resultados vêm de forma mais sólida e duradoura.

O desafio que temos à frente é abandonar de vez a ideia de que exaustão é sinônimo de comprometimento, pois a alta performance de verdade não nasce do excesso, mas do equilíbrio. É quando as pessoas têm espaço para respirar, clareza de propósito e condições reais de fazer o seu melhor. Essa é a cultura que precisamos cultivar, uma em que o trabalho gera resultados, mas sem nunca abrir mão da humanidade de quem os constrói.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Liderança
14 de setembro de 2026 08H00
Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

Oferecido por:
11 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 17H00
Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

Oferecido por:
0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
11 de setembro de 2026 08H00
Mais do que dominar ferramentas, o desafio da liderança passou a ser tomar decisões, engajar pessoas e construir crescimento em um ambiente de incerteza permanente.

Eduardo Raffaini - Sócio-líder de Soluções de Strategy da Deloitte

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

Oferecido por:
2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

Oferecido por:
10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução