Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
9 minutos min de leitura

A decisão mais difícil do roadmap de IA não é técnica

Dados, modelo e experiência competem pelo mesmo backlog, e cada frente pode apresentar uma justificativa tecnicamente correta para receber o próximo investimento. Decidir entre elas, exige uma maturidade que poucos times de produto desenvolveram, e uma clareza estratégica que poucas empresas conseguem articular.
CIO da Tempo, com experiência em transformação digital, arquitetura de sistemas e governança de TI.

Compartilhar:

Sente-se em um comitê de priorização de inteligência artificial em qualquer empresa que já tenha alguns ciclos de maturidade nesse tema, e vai encontrar a mesma cena. Três times à mesa, cada um com um argumento perfeitamente defensável. O time de modelo mostra uma simulação em que a acurácia sobe oito pontos. O time de dados mostra o tamanho do problema de qualidade na base, com evidência concreta de cadastros incompletos. O time de produto mostra pesquisas de usuário indicando que a interface confunde quem deveria agir sobre a previsão.

Todos estão certos. E essa é exatamente a dificuldade. Não existe, nessa sala, uma resposta tecnicamente errada. Existe uma resposta que importa menos para o negócio neste ciclo, e raramente alguém na sala consegue dizer, com segurança, qual é.


Quando todo argumento é verdadeiro, a decisão vira disputa de influência

A dificuldade real da priorização entre dado, modelo e experiência não está na falta de informação sobre cada frente. Está na ausência de uma moeda comum para comparar três tipos de investimento que, em seus próprios termos técnicos, são incomparáveis. Oito pontos de acurácia, um projeto de qualidade de dados e uma mudança de interface não competem na mesma unidade. Sem um critério externo, a decisão deixa de ser sobre o que move o negócio e passa a ser sobre quem tem mais peso político na sala, qual time é mais numeroso, ou qual argumento foi apresentado com mais confiança.

É por isso que esse tipo de decisão expõe, de forma quase clínica, o nível de maturidade de um time de produto. Times menos maduros tratam a priorização como uma negociação interna, em que cada área defende seu próprio item de backlog e o resultado é uma média aritmética de interesses. Times maduros tratam a mesma reunião como um exercício de tradução: o que a empresa decidiu que precisa mover este ano, e qual dessas três frentes está mais perto de mover exatamente isso.


O ciclo trimestral não é sobre tecnologia, é sobre falta de bússola

É comum observar empresas passarem, em sequência, por um ciclo de investimento em dados, depois em modelo, depois em interface, sem que o indicador de negócio que justificou o projeto se mova de forma perceptível em nenhum dos três ciclos. Cada etapa, isoladamente, foi bem executada. A base de dados realmente melhorou. O modelo realmente ficou mais preciso. A interface realmente ficou mais clara.

O que não existiu, em nenhum dos três ciclos, foi a pergunta que deveria vir antes de qualquer uma delas: qual indicador de negócio este investimento deveria mover, e esse indicador é, hoje, uma prioridade estratégica da empresa, ou é apenas o indicador que a área de tecnologia consegue medir com mais facilidade. Sem essa pergunta, dados, modelo e experiência se tornam três caminhos paralelos, cada um com sua própria métrica de sucesso, e nenhum necessariamente conectado ao que o negócio decidiu que importa agora.


Dois casos em que a estratégia, e não o diagnóstico técnico, decidiu a prioridade

Quando reter clientes era a prioridade do ano.

Uma operação de relacionamento com clientes tinha, ao mesmo tempo, um projeto de evolução de modelo de previsão de cancelamento praticamente pronto para entrar em produção, e uma constatação incômoda: o alerta de risco gerado pelo modelo atual chegava em um relatório semanal que o time comercial raramente abria. Em um ano normal, a decisão óbvia seria seguir com a evolução do modelo, afinal já estava quase pronta, e tratar o problema do relatório como um ajuste menor para depois. Mas aquele ano não era normal. A empresa havia declarado, de forma explícita, que a prioridade estratégica do período era reter a base existente, porque o custo de aquisição havia disparado e crescer por aquisição deixara de ser viável. Diante dessa prioridade, integrar o alerta ao sistema que o time comercial já usava todos os dias, com uma ação sugerida ao lado, deixou de ser um ajuste menor e passou a ser o item de maior potencial de impacto do trimestre, mesmo competindo com um upgrade de modelo tecnicamente mais sofisticado. Sem a estratégia explícita, o comitê quase certamente teria escolhido o caminho mais impressionante tecnicamente, e mais difícil de defender depois, o caminho mais alinhado ao que a empresa havia dito que precisava.

Quando o ticket médio, e não a personalização, era o que precisava mover.

Uma operação de varejo digital tinha um motor de recomendação que poderia evoluir de forma significativa com mais um trimestre de investimento em modelagem. Também tinha, na mesma lista, uma mudança simples de posicionamento da área de recomendações na página de produto. Em termos de prestígio técnico, a evolução do modelo era o projeto mais atraente para a equipe de ciência de dados. Mas a estratégia da empresa para aquele ciclo era explícita: aumentar o valor médio de cada compra dentro da base de clientes já existente, sem depender de mais investimento em aquisição de tráfego. Sob esse critério, a mudança de posicionamento, que afetava diretamente quantas pessoas chegavam a ver e considerar uma recomendação antes de finalizar a compra, tinha uma relação muito mais direta com o indicador que a empresa havia escolhido acompanhar do que qualquer ganho de assertividade do modelo. A decisão não exigiu um diagnóstico técnico elaborado. Exigiu perguntar, sem rodeios, qual das duas frentes estava mais próxima do indicador que a diretoria havia colocado no centro do ano.


O que diferencia um time de produto maduro nessa decisão

A maturidade aparece em comportamentos específicos, e é possível observá-la em qualquer reunião de priorização.

Falar a língua do indicador de negócio, não da métrica técnica. Um time maduro não chega à reunião dizendo que pode subir a acurácia em oito pontos. Chega dizendo o que essa melhora representaria em retenção, em margem, em ticket médio, e com que grau de confiança essa relação existe.

Aceitar desistir do próprio item, com dados. A maturidade mais difícil de desenvolver é a capacidade de uma área concluir que o item mais importante do seu próprio backlog não é o mais importante do backlog da empresa neste ciclo, e comunicar isso antes que alguém de fora precise apontar.

Tratar a fase de diagnóstico como parte do projeto, não como atraso. Investir tempo para entender onde está a perda real, antes de comprometer um time inteiro a um trimestre de trabalho, é frequentemente visto como lentidão. Em times maduros, é visto como a parte do projeto que evita o maior desperdício possível: um trimestre de trabalho tecnicamente correto, na frente errada.


Um mapa de sintomas, útil só depois que a estratégia está clara

Um mapa de sintomas pode ajudar a direcionar a investigação inicial, mas vale uma ressalva importante: ele organiza o diagnóstico técnico, não substitui a pergunta estratégica. Ele responde “onde provavelmente está o problema”. Não responde “este é o problema que vale a pena resolver agora”. Essa segunda resposta só existe se a empresa souber dizer, com a mesma clareza com que define metas financeiras, o que está tentando mover neste ciclo: participação de mercado, margem, retenção, velocidade de lançamento, custo operacional. Sem essa declaração, o mapa abaixo é apenas um inventário de problemas possíveis, todos igualmente urgentes e, por isso, nenhum verdadeiramente prioritário.

Sintoma observadoPistaFrente provávelQuem precisa estar na salaRisco se a estratégia não estiver clara
A previsão existe e está correta, mas a ação não aconteceA informação não chega a quem decide, no momento em que decideExperiência (produto)Produto, operação, time que recebe o insumoO time técnico vota em si mesmo e propõe retreinar o modelo
A previsão erra com frequência, mesmo em casos simplesO insumo que alimenta o modelo está incompleto ou desatualizadoDadosEngenharia de dados, áreas donas dos cadastros de origemO investimento vira projeto de qualidade de dados sem dono nem prazo
Dado correto, informação chega, e o resultado ainda é fracoA lógica de previsão não captura o padrão que importaModeloCiência de dados, com mandato explícito do negócioVira o investimento padrão, mesmo quando não é a causa


A estratégia como critério de desempate

O ponto central não é que dados, modelo ou experiência sejam mais ou menos importantes de forma genérica. É que, sem uma estratégia de negócio explícita para o ciclo, simplesmente não existe forma de comparar os três. Oito pontos de acurácia contra um projeto de qualidade de dados contra uma mudança de interface é uma comparação sem unidade comum, e por isso tende a ser resolvida por critérios que nada têm a ver com o que a empresa precisa: o time mais influente, o projeto mais fácil de explicar, o que já está mais avançado.

Quando a estratégia está clara, o problema muda de natureza. Já não se trata de comparar acurácia com qualidade de dados com experiência de uso. Trata-se de perguntar, sobre cada uma das três, a mesma pergunta: o quanto isso aproxima a empresa do indicador que ela decidiu que importa este ano. É uma pergunta única, com uma unidade comum, e qualquer time, técnico ou não, consegue responder a ela.


O investimento que realmente falta

A maioria das empresas que investe em inteligência artificial está, de fato, investindo em dados, em modelos e em experiência, com qualidade técnica real em cada uma dessas frentes. O que falta, na maior parte dos casos, não é mais uma dessas três coisas. É o investimento, mais barato e mais raro, em traduzir a estratégia do negócio em um critério simples o suficiente para que um comitê de priorização consiga, em uma reunião, decidir qual das três frentes merece o próximo trimestre. Esse trabalho de tradução não aparece em nenhum dashboard de modelo, não melhora nenhuma métrica de qualidade de dados, e não redesenha nenhuma tela. Mas é, hoje, o que separa empresas que extraem resultado real de IA das que apenas acumulam projetos tecnicamente impecáveis, um atrás do outro, sem que o ponteiro que realmente importa se mova.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que o marketing precisa sair da própria bolha

As grandes ideias raramente surgem da repetição das mesmas referências. Em uma época de acesso democratizado à informação e às tecnologias, o diferencial competitivo passa a ser a qualidade das perguntas que fazemos. Ao refletir sobre arte, cultura e criatividade, o artigo argumenta que as marcas mais inovadoras serão aquelas capazes de formar pessoas que aprendam a observar, conectar e interpretar o mundo de formas que ainda não foram exploradas.

Por que alguns eventos entram para a história e outros são esquecidos na semana seguinte

Por trás dos maiores eventos do mundo existe um trabalho que começa muito antes da abertura dos portões. Leitura de cenário, curadoria estratégica, construção de comunidade e a capacidade de reunir as pessoas certas explicam por que alguns encontros se tornam plataformas de influência, inovação e negócios, enquanto outros permanecem apenas como eventos.

O fim da guerra fiscal: como a Reforma Tributária pode mudar a logística brasileira

Galpões logísticos, centros de distribuição e rotas de abastecimento foram desenhados ao longo dos anos para aproveitar benefícios fiscais estaduais. Com a chegada do IBS e da CBS, a localização das operações tende a voltar a ser determinada pela eficiência logística e pela proximidade dos mercados consumidores, desencadeando uma das maiores reconfigurações econômicas das últimas décadas.

Saudável, gostoso e acessível: a equação que desafia a indústria de alimentos no Brasil 

Reduzir açúcar, sódio e gorduras sem comprometer sabor, performance culinária e competitividade de preço tornou-se uma das equações mais complexas da indústria de alimentos. O artigo explora como mudanças regulatórias, comportamento do consumidor e inovação tecnológica estão redefinindo estratégias de produto, marketing, cadeia de suprimentos e crescimento no setor de bens de consumo.

A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.

Quanto custa quando o sistema para? Alguns minutos fora do ar podem custar milhões

À medida que organizações se tornam dependentes de ambientes digitais para sustentar suas operações, a indisponibilidade de sistemas passa a representar muito mais do que uma questão técnica. O artigo mostra por que calcular o impacto real de uma falha exige uma visão integrada entre tecnologia, finanças, operação e governança, e como essa análise pode orientar decisões críticas sobre modernização e resiliência dos negócios.

Inovação & estratégia, Marketing
14 de agosto de 2026 13H00
Ao visitar um dos vinhedos mais renomados de Bordeaux, o autor encontrou uma reflexão que ultrapassa o universo do vinho e alcança empresas, famílias e instituições. A decisão do Château Lafleur de abandonar uma denominação de origem histórica revela um dilema cada vez mais presente nas organizações: como preservar princípios e identidade em um mundo que exige adaptação constante?

Antonio Carlos Matos da Silva - Conselheiro independente associado ao IBGC

5 minutos min de leitura
Liderança
14 de agosto de 2026 08H00
Após mergulhar em uma crise provocada por escândalos que abalaram sua credibilidade, a SOMPO Holdings encontrou na liderança de Mikio Okumura o impulso para redefinir sua identidade. Inspirado por aprendizados adquiridos no Brasil, o executivo promoveu uma transformação que combinou propósito, tecnologia e foco no cliente para reconstruir a confiança e conduzir a seguradora a resultados recordes.

Kei Izawa - 7º Dan de Aikikai e ex-presidente da Federação Internacional de Aikido

13 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
13 de agosto de 2026 14H00
Mais de 150 anos após os estudos pioneiros de Ignaz Semmelweis e Florence Nightingale, a higiene das mãos permanece como uma das intervenções mais importantes para a segurança do paciente. O desafio atual não está na falta de evidências, mas na capacidade das instituições de transformar conhecimento em hábito e protocolo em cultura.

Marcos Gurgel - Diretor Comercial na divisão Avitum da B. Braun Brasil

4 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia, Vendas
13 de agosto de 2026 08H00
Vendas estão entre as atividades mais antigas, estratégicas e decisivas de qualquer organização, mas continuam sendo tratadas por muitas empresas como uma responsabilidade exclusiva da área comercial. Nesta coluna de estreia, a autora propõe uma reflexão sobre por que receita é resultado de um sistema que envolve liderança, cultura, processos, tecnologia, experiência do cliente e estratégia, e por que a pergunta mais importante talvez não seja por que os vendedores não vendem, mas o que a própria organização está fazendo para dificultar a venda.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança
12 de agosto de 2026 14H00
Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de agosto de 2026 08H00
O artigo defende que o verdadeiro valor surge quando a IA deixa de operar de forma isolada e passa a integrar toda a jornada de negócio, conectando pessoas, processos, dados e governança em um único sistema de performance.

Guilherme Stefanini - CMO do Grupo Stefanini, CEO da Stefanini Marketing e sócio da W3haus e Gauge.

4 minutos min de leitura
Liderança
11 de agosto de 2026 18H00
A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza? Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

16 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 14H00
Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
11 de agosto de 2026 08H00
Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

14 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo