Uncategorized

A experiência de um MBA em HARVARD

O MBA anda sob fogo cruzado, mas será que perdeu a validade? Um MBA em universidade internacional de primeira linha ainda é acessível aos brasileiros?
nascido em Uberlândia (MG), graduou-se em administração parte na FGV-EAESP e parte na Brigham Young University, nos Estados Unidos, e trabalhou dois anos na Innosight, a consultoria cofundada por Clayton M. Christensen. Ele foi com a família (na foto) fazer o MBA na Harvard Business School e formou-se em maio último.

Compartilhar:

Muitas vozes no mundo dos negócios, principalmente no Vale do Silício, têm descartado o MBA como um curso do passado, perda de tempo e dinheiro. Já eu não me esqueço da primeira mensagem de Nitin Nohria, atual dean da Harvard Business School, para os alunos de meu primeiro ano lá: “Se medirem suas carreiras como incrementos de cinco anos, o MBA será perda de tempo e dinheiro; se as medirem por uma vida de serviço, contribuição e impacto, será um dos melhores investimentos que virão a fazer”. 

Passei meus últimos dois anos como estudante do programa de MBA de Harvard. Fui aceito durante o bacharelado por meio do “2+2 Program”, no qual estudantes se inscrevem durante a faculdade e, se forem aceitos, precisam trabalhar por dois anos antes de se matricular no curso. 

As vantagens do programa são a incerteza minimizada e o caminho acelerado ao MBA. A desvantagem? Com apenas dois anos de trabalho, seria difícil eu acumular US$ 250 mil (R$ 850 mil), o dinheiro necessário no meu caso, porque eu iria com minha esposa e meus dois filhos. 

O que descobri foi que todo aluno que é aceito consegue bancar o curso, pois a escola tem bolsas de estudo e programas de ajuda financeira extremamente generosos, baseados 100% na necessidade dos estudantes.

Harvard me ofereceu mais da metade do custo em bolsa e me ajudou a levantar o restante com uma baixa taxa de juros para ser quitado em dez anos, o que se traduz em uma parcela relativamente pequena quando o aluno começa a trabalhar. 

O MBA foi uma experiência extraordinária, que superou minhas expectativas em todas as dimensões. Mais de 30 países estavam representados por 94 estudantes em minha classe, cada um oferecendo perspectivas, experiências e pensamentos únicos e enriquecedores. No primeiro ano, o currículo fixo criou uma fundação de gestão básica para todos, abrangendo matérias como estratégia, contabilidade, marketing, empreendedorismo, finanças, tecnologia e operações, ética, entre outras. No segundo, com matérias eletivas, os alunos tiveram a oportunidade de customizar seu currículo para atender a seus interesses e necessidades pessoais. 

A metodologia de ensino foi, o tempo todo, o estudo de casos, segundo a qual os alunos estudam registros de desafios reais enfrentados por empresas e líderes em uma variedade de indústrias e chegam à sala de aula preparados para se engajar em uma discussão focada e intensa sobre eles. Nos dois anos do curso, resolvem-se cerca de 500 casos. 

O poder desse método socrático reside na capacidade de ensinar os estudantes como pensar (em vez do que pensar) e em ajudá-los a desenvolver a habilidade ímpar de estabelecer, articular e defender uma posição na presença de ambiguidades. Os registros – casos extensos e análises rigorosas – também treinam os alunos a fazer as perguntas corretas e ir fundo, avaliando as premissas por trás de tudo. 

Especialmente no primeiro ano, a pressão é grande. Há os famosos “cold calls” – perguntas que os professores fazem aos estudantes sem aviso prévio –, oferecendo incentivo extra para a preparação. Os alunos gastam, em média, duas horas se preparando para cada caso, e é esse nível de dedicação, com as experiências de trabalho como pano de fundo, que faz a mágica acontecer – quando o professor faz uma pergunta, 50 mãos são imediatamente levantadas. 

Para citar alguns pontos altos, no primeiro ano, a classe de “Business, Government, and the International Economy” ampliou meus horizontes de modo pode roso. O professor Julio Rotemberg, muito didático, nos guiou, com perguntas, na exploração de economias, instituições e culturas de quase 30 países. No segundo ano, duas classes me marcaram em especial: “The Coming of Managerial Capitalism”, sobre o passado e o presente do capitalismo norte-americano como fonte de insight para decisões futuras, dada por Tom Nicholas; e “Building and Sustaining a Successful Enterprise”, ministrada pelo guru de business Clayton Christensen, sobre as forças que costumam levar gestores competentes a tomar decisões que acabam afundando organizações. 

Além da influência que exercem sobre nós na sala de aula, os professores mantêm as portas de seu escritório sempre abertas para os estudantes que quiserem trocar ideias em um cenário mais reservado ou trabalhar juntos em projetos de pesquisa, o que pude fazer com o professor Clayton Christensen. 

Outro aspecto inestimável do MBA de Harvard é seu impulso aos relacionamentos. No primeiro ano, os alunos são divididos em _sections_ de 94 indivíduos cada uma e permanecem na mesma classe e no mesmo assento durante todas as aulas. Isso os faz passarem centenas de horas juntos, aprendendo uns com os outros e socializando. 

Havia muitas atividades sociais noturnas, mas, como eu e minha esposa tínhamos um filho recémnascido, não podíamos frequentá -las e decidimos organizar jantares semanais em nossa casa, para os quais convidávamos quatro ou cinco colegas, de minha section e de outras. Os relacionamentos foram uma das muitas surpresas positivas que tivemos, minha esposa – norte-americana – e eu. Imaginávamos passar dois anos com gente arrogante e voltada para os próprios interesses, mas a realidade foi o oposto. 

As oportunidades de trabalho durante o programa e no final se mostraram abundantes. Uma vez que eu, com minha esposa, tive clareza sobre o caminho que queria seguir, a conquista da posição foi quase imediata: aceitei uma oferta de trabalho na área de gestão da DaVita, a maior empresa de clínicas de hemodiálise dos EUA que iniciou operação no mercado brasileiro este ano. 

A HBS tem buscado o equilíbrio entre reinventar práticas para atender à nova era e manterse leal aos princípios de gestão que foram verdadeiros ontem e serão amanhã. Estou convencido de que tecnologias, indústrias e mercados se tornam obsoletos, mas a boa gestão transcende o tempo. O poder do gestor não deve ser subestimado. Por isso o MBA de Harvard é tão valioso.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Empresas preparadas para a próxima década não usam IA. Elas se reorganizam ao redor dela.

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

O que separa empresas inovadoras das que apenas fazem inovação

Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Pare de tentar prever o mundo. Construa uma empresa que aguenta vários.

Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Contratar, promover ou buscar fora: a decisão que separa o líder do gestor

Promover talentos internos, contratar no mercado ou recorrer a executivos por projeto são decisões cada vez mais frequentes em empresas que crescem e se transformam. Mas a escolha mais importante acontece antes disso: compreender qual problema realmente precisa ser resolvido. O artigo discute por que muitas organizações se concentram em preencher posições rapidamente, quando deveriam dedicar mais tempo a entender a natureza, a duração e a complexidade dos desafios que enfrentam.

Marketing, Estratégia
23 de julho de 2026 14H00
O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Ronaldo Fragoso - Chief Growth Officer da Deloitte e Carlos Eduardo Fogarolli - Sócio-líder da indústria de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Deloitte

3 minutos min de leitura
Comunicação, Liderança
23 de julho de 2026 08H00
A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Amanda Graciano - Fundadora da Trama

5 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
22 de julho de 2026 14H00
Logotipos já não são suficientes para conquistar relevância. Em um mercado saturado de mensagens, as marcas que se destacam são aquelas capazes de transformar interações em experiências memoráveis e consumidores em protagonistas de suas histórias.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
22 de julho de 2026 09H00
Posicionamento claro, gestão comercial estruturada, experiência do cliente, disciplina financeira, desenvolvimento de talentos e capacidade de adaptação formam os pilares de um crescimento sustentável. O desafio das empresas de serviços já não é apenas expandir, mas criar condições para que essa expansão se mantenha saudável e rentável.

Roberto Vilela - Consultor empresarial, escritor e palestrante

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
21 de julho de 2026 14H00
A desconexão entre pessoas custa bilhões às empresas todos os dias. Ainda assim, muitas organizações seguem tratando cultura como documento, engajamento como métrica e comunicação como ferramenta. Talvez o problema esteja justamente aí.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão"

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de julho de 2026 09H00
A construção civil está deixando para trás práticas marcadas por desperdícios e retrabalhos. O avanço de soluções industrializadas, novas tecnologias e modelos de gestão mais eficientes aponta para um novo cenário: construir com mais qualidade, menor impacto e maior previsibilidade.

Rafael Brizot - Diretor da Max Mohr

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
20 de julho de 2026 14H00
Sem maturidade informacional, a IA não elimina problemas, apenas os torna mais rápidos e mais difíceis de controlar.

Bergson Lopes - Fundador e sócio-diretor da BLR DATA, Vice-presidente da DAMA Brasil

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
20 de julho de 2026 07H00
Quase 80% dos trabalhadores sentem culpa ao tirar férias e muitos continuam respondendo mensagens durante o período de descanso. O artigo discute como essa cultura afeta pessoas e organizações e por que líderes precisam dar o exemplo para transformar a relação com o descanso.

Tatiana Pimenta - Fundadora e CEO da Vittude e autora do livro “Saúde mental é inegociável”

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 14H00
WhatsApp, redes sociais, chats e inteligência artificial mudaram a forma como as empresas se relacionam com seus clientes. O desafio agora não é apenas responder mais rápido, mas transformar cada interação em uma oportunidade de fortalecer confiança, reputação e valor de marca.

Edson Alves - CEO da Ikatec

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 08H00
Pensamento estratégico, julgamento humano, curadoria de ferramentas digitais, desaprendizagem contínua e construção de significado despontam como as competências que diferenciarão profissionais em uma era em que inteligência e execução estão cada vez mais distribuídas entre pessoas e máquinas.

Denis Caldeira - CEO da Caldeira Growth e autor de "Cresça ou Desapareça"

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo