Tecnologia & inteligencia artificial
4 minutos min de leitura

A fricção que nos faz crescer – e o risco de uma inteligência artificial que sempre diz “sim”

Direto do SXSW 2026, surge um alerta: E se o maior risco da IA não for errar, mas concordar demais?
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Compartilhar:

No meio das centenas de sessões do South by Southwest 2026, um tema apareceu de forma recorrente em debates sobre inteligência artificial: não é apenas sobre o que a tecnologia pode fazer por nós. É sobre o que ela pode estar tirando de nós.

Durante a sessão “Lose Your Mind to AI? A Neuroscientist and an AI CEO Debate”, a discussão partiu de uma provocação direta: a IA parece nos dar superpoderes cognitivos, mas isso pode ter um custo invisível. Como foi colocado no debate, usar IA pode parecer como “pegar emprestados 30 pontos de QI” – a questão é se, no longo prazo, isso nos tornará pensadores mais fracos.

SXSW 2026 | Foto: Alessandra Fu

A inteligência artificial acelera produção, sintetiza informação e responde quase instantaneamente. Mas essa mesma eficiência pode eliminar algo que sempre foi central no processo humano de aprendizado: a fricção.

Crescemos na fricção

Ao longo da história, ideias evoluíram porque foram confrontadas. Hipóteses científicas foram refutadas. Estratégias foram criticadas e argumentos foram desafiados. Esse atrito intelectual, às vezes desconfortável, é o que refina pensamento, criatividade e decisão.

O problema é que muitos sistemas de IA foram projetados para reduzir exatamente esse desconforto. Eles priorizam respostas úteis, rápidas e agradáveis. Em outras palavras: tendem a dizer “sim”.

Esse comportamento não é acidental. Ele reflete o próprio modelo de design de muitas plataformas digitais. Sistemas são treinados para aumentar engajamento, reduzir frustração e gerar respostas que o usuário aceite rapidamente. O resultado pode ser um ambiente cognitivo perigosamente confortável, um lugar onde ideias raramente encontram resistência.

Quando a tecnologia começa a substituir o pensamento

Em debates sobre “cognitive sovereignty”, pesquisadores e executivos discutiram um ponto central: ferramentas que escrevem, sintetizam e decidem por nós podem alterar a forma como pensamos e aprendemos, não porque a tecnologia seja inerentemente negativa mas porque, se usada sem consciência, ela pode deslocar o esforço intelectual humano.

A consequência é sutil, se sempre pedimos à IA para gerar respostas, estruturar argumentos e validar hipóteses, começamos a terceirizar parte do próprio processo de raciocínio, e sem perceber, substituímos reflexão por conveniência.

A convergência tecnológica e o risco do pensamento confortável

A futurista Amy Webb apresentou no SXSW e matou o tradicional relatório anual de tendências tecnológicas, mostrando como múltiplas tecnologias, inteligência artificial, sensores avançados e biotecnologia foi substituída por uma nova perspectiva de convergências – criando um novo ciclo tecnológico global. Essa convergência está mudando rapidamente as regras da sociedade e dos negócios, mas o ponto mais importante não é apenas tecnológico, é cognitivo.

Palco SXSW 2026 | Foto: Alessandra Fu


Se estamos entrando em uma Era de sistemas cada vez mais inteligentes, a vantagem competitiva humana pode deixar de ser a capacidade de gerar respostas, algo que máquinas já fazem muito bem. A verdadeira vantagem passa a ser fazer perguntas melhores e explorar o que muitas vezes nem sabemos que sabemos, e especialmente trazer à tona provocações que desafiam o consenso.

O novo papel da liderança: criar fricção produtiva

Para líderes e organizações, isso levanta uma questão estratégica, como evitar que a inteligência artificial se transforme apenas em uma máquina de confirmação? Uma das respostas discutidas em diversas sessões do SXSW é simples – e contraintuitiva.

Precisamos reintroduzir fricção no nosso dia a dia e fazer isso com o uso da IA. Isso significa usar essas ferramentas não apenas para acelerar respostas, mas para testar ideias. Algumas práticas começam a surgir em empresas mais avançadas:

  • pedir explicitamente que a IA critique um raciocínio
  • solicitar cenários contrários a uma estratégia
  • pedir análise de falhas e vulnerabilidades
  • usar múltiplos modelos para gerar visões divergentes


Em vez de usar IA para confirmar ideias, líderes podem usá-la para tensioná-las.

Treinar máquinas para discordar

Existe ainda um segundo desafio, mais estrutural, se queremos preservar pensamento crítico, talvez seja necessário treinar sistemas de IA que saibam dizer “não”.

Modelos capazes de:

  • questionar premissas
  • apontar vieses
  • mostrar trade-offs
  • desafiar decisões mal fundamentadas


Isso não significa construir máquinas negativas, significa construir máquinas intelectualmente honestas, porque inovação raramente nasce de respostas fáceis, ela nasce do confronto entre ideias.

O que levo do festival é a reflexão não sobre a velocidade com que a IA está evoluindo, mas sobre como nós vamos evoluir junto com ela.

Se inteligência artificial se tornar apenas uma tecnologia que confirma tudo o que pensamos, ela pode reduzir algo fundamental no progresso humano: a capacidade de sermos desafiados, e sem desafio não há aprendizado, sem fricção não há crescimento.

A pergunta que líderes precisarão responder na próxima década talvez seja menos tecnológica do que filosófica: em um mundo onde máquinas podem dizer “sim” para quase tudo, quem continuará fazendo as perguntas difíceis?

Compartilhar:

Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Artigos relacionados

A migração do poder para pessoas que resolvem problemas reais

Neste artigo, exploramos por que a capacidade de execução, discernimento aplicado e proximidade com a realidade estão redefinindo o que significa liderar – e por que títulos, discursos sofisticados e metodologias brilhantes já não bastam para garantir relevância em 2026.

O futuro que queremos construir e as conversas difíceis que precisamos ter!

Direto da cobertura do SXSW 2026, este artigo percorre as conversas que dominam Austin: quando a tecnologia entra em superciclo e a IA deixa de ser apenas inovação para se tornar força estrutural, a pergunta central deixa de ser técnica – e passa a ser profundamente humana: como preservar significado, pertencimento e propósito em um mundo cada vez mais automatizado?

Você acredita mesmo na visão que você vende todo dia?

Diretamente da cobertura do SXSW 2026, este artigo parte de uma provocação de Tom Sachs para tensionar uma pergunta incômoda a líderes e criadores: é possível engajar pessoas, construir mundos e sustentar visões quando nem nós mesmos acreditamos, de verdade, no que comunicamos todos os dias?

Estratégia, Marketing & growth
1º de fevereiro de 2026
Como respostas rápidas, tom humano e escuta ativa transformam perfis em plataformas de reputação e em vantagem competitiva para marcas e negócios

Kelly Pinheiro - Fundadora e CEO da Mclair Comunicação e Mika Mattos - Jornalista

5 minutos min de leitura
Lifelong learning
31 de janeiro de 2026
Engajamento não desaparece: ele é desaprendido. Esse ano vai exigir líderes capazes de redesenhar ambientes onde aprender volte a valer a pena.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

7 minutos min de leitura
Liderança
30 de janeiro de 2026
À medida que inovação e pressão por resultados se intensificam, disciplina com propósito torna-se o eixo central da liderança capaz de conduzir - e não apenas reagir.

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Estratégia
29 de janeiro de 2026
Antes de falar, sua marca já se revela - e, sem consciência, pode estar dizendo exatamente o contrário do que você imagina.

Cristiano Zanetta - Empresário, palestrante TED e escritor

5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de janeiro de 2026
Se o seu RH ainda preenche organogramas, você está no século errado. 2025 provou que não basta contratar - é preciso orquestrar talentos com fluidez, propósito e inteligência intergeracional. A era da Arquitetura de Talento já começou.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior e Cris Sabbag - COO da Talento Sênior

2 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
27 de janeiro de 2026
Não é uma previsão do que a IA fará em 2026, mas uma reflexão com mais critério sobre como ela vem sendo usada e interpretada. Sem negar os avanços recentes, discute-se como parte do discurso público se afastou da prática, especialmente no uso de agentes e automações, transformando promessas em certezas e respostas em autoridade.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

0 min de leitura
Lifelong learning
26 de janeiro de 2026
O desenvolvimento profissional não acontece por acaso, mas resulta de aprendizado contínuo e da busca intencional por competências que ampliam seu potencial

Diego Nogare

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
25 de janeiro de 2026
Entre IA agentiva, cibersegurança e novos modelos de negócio, 2026 exige decisões que unem tecnologia, confiança e design organizacional.

Eduardo Peixoto - CEO do CESAR

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de janeiro de 2026
Inovação não falha por falta de ideias, mas por falta de métricas - o que não é medido vira entusiasmo; o que é mensurado vira estratégia.

Marina Lima - Gerente de Inovação Aberta da Stellantis para América do Sul

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
23 de janeiro de 2026
Se seus vínculos não te emocionam, talvez você esteja fazendo networking errado. Relações que movem mercados começam com conexões que movem pessoas - sem cálculo, sem protocolo, só intenção genuína.

Laís Macedo - Presidente do Future Is Now

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #171

A Face Executiva de 2026

Líderes de organizações brasileiras de todos os setores, portes e regiões desenham o ano empresarial do Brasil com suas prioridades em relação a negócios, pessoas e tecnologia...