Fui assistir a uma sessão sobre Gen Z esperando ouvir sobre TikTok e hábitos de consumo. Saí pensando em gestão de pessoas.
Os dados da Kantar, apresentados por Andrew Yahanan no SXSW, são difíceis de ignorar: 62% da Gen Z com mais de 18 anos já se identifica como adulta. 43% gerencia as finanças da casa. 18% são pais. Mas o salário não acompanhou. A relação entre renda e preço de moradia foi de 3,6 em 1984 para 5,0 em 2026. O pagamento de entrada de um imóvel equivale a 78 iPhones. E a geração que nasceu com acesso a tudo está descobrindo que não consegue pagar quase nada.
A resposta deles não foi esperar o sistema funcionar. Foi criar um novo sistema. Yahanan chamou de “Village Advantage”: 39% já discutem salários abertamente com colegas. 62% compartilham senhas de streaming apesar dos bloqueios. Dividem compras no Costco (uma rede de supermercados grande no país e que nos últimos meses tem viralizado no TikTok), racham Uber com seis pessoas, fazem clubes de investimento pelo celular. A transparência financeira virou norma, não tabu. E isso vai chegar (se já não chegou) à sua organização.
Mas aqui está o paradoxo que essa geração vive. Eles agem com a pragmaticidade de quem não tem escolha mas também estão emocionalmente sobrecarregados. Em outro painel, pesquisadores da Brookings mostraram que 88% dos jovens acreditam que precisarão de habilidades de IA no futuro e 53% já se sentem prontos para usar essas ferramentas. Ao mesmo tempo, quando escolas baniram celulares, os alunos primeiro protestaram e depois disseram que se sentiam mais livres. Uma pesquisa sobre saúde social revelou que 49% já formaram relações significativas com uma inteligência artificial. Não por escolha. Por falta de alternativa humana.
Então temos uma geração que gerencia orçamentos domésticos, mas não aprendeu a lidar com ansiedade. Que é pragmática com dinheiro, mas emocionalmente desassistida. Que sabe negociar salários pelo TikTok, mas não sabe pedir ajuda ao gestor.
E o que as organizações estão fazendo com isso? Na maioria dos casos, tratando como “problema de engajamento” ou “falta de resiliência”. As competências que mais vão importar nessa era pós-IA são as que menos ensinamos: inteligência emocional, pensamento crítico, julgamento ético e adaptabilidade. Não porque são bonitas no discurso corporativo, mas porque são as únicas que a IA não replica.
O que ficou para mim é incômodo e urgente ao mesmo tempo: a Gen Z não precisa de mais treinamento técnico. Precisa de líderes que entendam que transparência não é ameaça, que colaboração não é fraqueza e que a “comunidade” que eles estão construindo fora do escritório é, na verdade, o modelo que as empresas deveriam estar aprendendo a replicar dentro delas.




