Liderança
8 minutos min de leitura

A morte do meu pai e a verdadeira solidão do CEO: O que o luto tem me ensinado sobre vulnerabilidade e a armadura do C-level

Entre decisões de alto impacto e silêncios que ninguém vê, este artigo revela o custo invisível da liderança: a solidão, a pressão por invulnerabilidade e o preço de negar a própria humanidade - justamente no lugar onde ela mais importa.
É CEO da REIS - Rede Empresarial de Inclusão Social, Sócio da Egalite, Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro e docente dos MBAs de Recursos Humanos da FGV além de professor convidado da FDC, Escola Aberje de Comunicação e IEP-Hospital Sírio Libanês. Djalma é psicologo, pai da Aurora e especialista em diversidade, equidade e inclusão, passou por multinacionais no varejo (Walmart), serviços (Sodexo) e EY) e indústria (Vivo), liderando cases de sucesso em diversidade. O executivo construiu um dos maiores case de inclusão de pessoas com deficiência do país e é reconhecido como #1 em empregabilidade de pessoas com deficiência no capítulo brasileiro da Global Business Disability Network (OIT/ONU).

Compartilhar:

Há 43 anos, na Maternidade São Luiz, um diretor médico enfrentou uma escolha impossível. O parto era extremamente prematuro, com apenas 27 semanas. Durante o procedimento, tanto a mãe quanto o bebê tiveram uma parada cardiorrespiratória que durou mais de cinco minutos. O protocolo médico para esses casos, quando a mãe já tem outros filhos, é claro: reanima-se a mãe primeiro.

Mas aquele diretor médico não seguiu o protocolo. Ele disse: “Quero os dois”. Exigiu uma segunda equipe para reanimar simultaneamente a mulher e o filho. E ele conseguiu. Fez os dois voltarem à vida. Imediatamente após estabilizar a situação, ele simplesmente desmaiou na sala de cirurgia, como seus colegas me contaram anos depois.

Aquele bebê era eu. E aquele diretor médico era meu pai, Djalma da Cruz Gouveia.

Por conta daquela anóxia respiratória, adquiri uma paralisia cerebral espástica com impacto nos membros inferiores. E meu pai? Ele passou a vida inteira negando que tivesse desmaiado. Para ele, que era um homem fechado, durão e que já carregava a dor imensa de ter perdido meu irmão Vinícius aos dois anos de idade, também em uma cirurgia admitir um desmaio seria admitir fraqueza.

Ele faleceu no dia 27 de dezembro de 2024. E, no meio do meu luto, percebi que a negação dele sobre aquele desmaio é exatamente a mesma negação que vejo todos os dias em mesas de diretoria.

Quando a McKinsey classifica o cargo de CEO como “o cargo mais solitário”1, ela toca em uma verdade que muitos líderes conhecem, mas poucos admitem: quanto maior a responsabilidade, menor parece ser o espaço para demonstrar dúvida, cansaço ou vulnerabilidade. A solidão do CEO não é falta de pessoas ao redor; é falta de lugares seguros onde se possa existir sem a armadura do cargo.

No dia a dia, eu vejo essa solidão da alta liderança, se manifestar de três formas bem claras:

Primeiro, vem o peso da decisão. Você até ouve o conselho de todo mundo, mas na hora H, demitir alguém ou bancar uma estratégia que ninguém concorda é uma conta que cai só no seu colo. Depois, tem a armadilha da imagem. O líder acaba virando aquele super-herói que tem que dar conta de tudo, e essa imagem sufoca. Por fim, o mais perigoso: a perda da própria identidade. É muito fácil você virar apenas a sua agenda, a sua meta, e esquecer quem você era antes de sentar naquela cadeira.

No meu caso, essa reflexão ganha outra camada. Como executivo com deficiência, aprendi que a liderança muitas vezes exige não apenas entregar resultado, mas também sustentar uma representação simbólica. A pessoa com deficiência em posição de liderança pode ser vista como exemplo de superação (apesar de eu achar que essa palavra nos distancia do chão), força e resiliência. Mas existe um risco brutal nessa narrativa: quando a sociedade nos transforma em símbolo, ela muitas vezes esquece que continuamos sendo pessoas. O símbolo raramente tem autorização para cansar ou errar. E o lugar mais perto do chão é um pedestal.

Enquanto muitos CEOs sofrem por não poder demonstrar fragilidade, CEOs com deficiência podem sofrer também por serem esperados como prova permanente de força. Por ter nascido e crescido com uma deficiência, eu nunca pude esconder minha vulnerabilidade física, então passei anos buscando mostrar sempre alta performance em tudo que fazia, numa tentativa de suplantar a falta que a sociedade enxerga primeiro.

Mas o que é, afinal, liderança autêntica?

Para mim, não é evitar conversas difíceis; é conduzi-las com clareza, respeito e coragem. Vejo pessoas presas a cargos, hierarquias, que não conseguem argumentar com áreas acima por medo de falhar. A pesquisadora Brené Brown nos lembra que coragem e vulnerabilidade caminham juntas. Sua frase mais aplicável aqui é: “Clear is kind. Unclear is unkind”2. Clareza é gentileza. Falta de clareza é falta de cuidado.

Muitas vezes, o líder se isola porque tenta proteger todos da verdade: protege a equipe da pressão, o conselho da própria dúvida, a empresa da sua vulnerabilidade. Só que, ao tentar proteger todos, ele fica sem lugar para existir com verdade. Só que a pessoa no cargo de CEO ainda é a mesma pessoa que começou à trabalhar 20 ou 25 anos atrás.

A morte do meu pai me trouxe uma lição urgente. Aquele mesmo homem que lutou como um tigre pela minha vida, já idoso, não tinha a mesma força ou convicção para agir e vender sua clínica, algo que ele desejava muito. Isso me fez perguntar: quais as convicções que eu tinha quando jovem e que hoje já não tenho mais? Em que momento deixamos de lutar pelos nossos objetivos, sonhos e ideais?

Os grandes negócios permanecem pela renovação das convicções. A visão de Luis Seabra, um dos fundadores da Natura, parecia distante há 40 anos. Como construir um negócio baseado em pessoas vendendo de porta em porta? Hoje, aos 81 anos, ele vê a Natura em 14 países, com 22 bilhões de receita3, provando que é possível ser sustentável, apostar em diversidade e ter resultados excepcionais.

O maior tabu que vejo no C-level sobre saúde mental é a ideia de que sofrimento emocional compromete autoridade. Ainda esperamos que CEOs estejam sempre fortes e inteiros, como se luto ou cansaço fossem incompatíveis com liderança. Mas negar a própria humanidade não protege a organização; apenas torna a liderança mais defensiva e endurecida. Cuidar da saúde mental não é luxo. É responsabilidade ética e lei agora no Brasil, através da NR-1. Um CEO esgotado não sofre sozinho: sua exaustão atravessa decisões, cultura, equipe e clima organizacional.

Recentemente, durante uma sessão de mentoria de carreira, dei um conselho à um CEO que está passando por uma profunda revisão de vida e carreira: não transforme a sua dor em mais um KPI para bater. Tem perdas na vida que a gente não resolve, a gente apenas aprende a integrar. Gosto muito de um conceito da psicologia analítica de Jung que deveria ser lida por todo CEO e alta liderança antes de assumir sua nova cadeira: “não se chega à claridade pela representação da luz, mas tornando consciente aquilo que é obscuro”. Ela está no livro “Estudos Alquímicos”, e dialoga ainda diretamente com uma das ideias centrais de outro livro dele, “A Natureza da Psique5”: o confronto com o inconsciente como parte do amadurecimento psíquico.

Traduzindo para a vida executiva: não há liderança autêntica sem sombra. Um CEO pode falar de propósito, cultura, coragem e vulnerabilidade, mas continuará refém de suas próprias zonas cegas se não puder reconhecer também medo, solidão, luto, insegurança e desejo de controle. A liderança não se torna mais madura quando parece mais iluminada; ela amadurece quando suporta olhar para aquilo que normalmente tenta esconder. Basicamente, que a gente não se ilumina olhando para a luz, mas sim tendo a coragem de encarar a nossa própria escuridão.

O luto não te torna menos líder. Ele não te enfraquece. Talvez ele apenas te obrigue a perguntar, com mais honestidade, quais convicções ainda merecem a sua vida. Meu pai me deu a vida duas vezes. E, ao partir, me ensinou que a verdadeira força não é nunca desmaiar; é saber exatamente por que você está lutando e manter suas convicções sabendo conduzir conversar difíceis e diálogos honestos para resolver os problemas ou get things done!

A morte dele me fez entender que a armadura que construímos socialmente e enquanto C-level é, na verdade, uma rampa íngreme demais para se subir sozinho. Haja acessibilidade! Se não humanizarmos a cadeira do CEO, continuaremos perdendo talentos brilhantes para o esgotamento, mascarado de “falta de resiliência e brilho nos olhos” como ainda ouço. Inclusão, em 2026, precisa começar pelo direito de ser humano – com ou sem deficiência, com ou sem luto, mas sempre com a verdade em tempos de fake news e IA’s desviando nosso olhar para o outro lado.

No fim do dia, a pergunta que fica para todos nós que nos sentamos em cadeiras de decisão não deve ser apenas sobre o EBITDA do próximo trimestre. É sobre o que sobra de nós quando as luzes da sala de cirurgia – ou da sala de conselho – se apagam. Meu pai desmaiou porque aquela emoção foi grande demais para a consciência suportar. E talvez, só talvez, a liderança que o futuro exige seja exatamente essa, contrária a que te temos hoje: a que tem a coragem de se importar a ponto de sentir o peso da própria humanidade. Obrigado, pai.

Citações:

1. “The loneliest job in the world”, McKinsey & Company;

2. Brené Brown, “Clear Is Kind. Unclear Is Unkind.” (Adaptado de Dare to Lead, 2018);

3. Dados corporativos públicos Natura &Co (2025);

4. Carl Gustav Jung, “Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo”;

5. Carl Gustav Jung, “A Natureza da Psique”.

Compartilhar:

É CEO da REIS - Rede Empresarial de Inclusão Social, Sócio da Egalite, Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro e docente dos MBAs de Recursos Humanos da FGV além de professor convidado da FDC, Escola Aberje de Comunicação e IEP-Hospital Sírio Libanês. Djalma é psicologo, pai da Aurora e especialista em diversidade, equidade e inclusão, passou por multinacionais no varejo (Walmart), serviços (Sodexo) e EY) e indústria (Vivo), liderando cases de sucesso em diversidade. O executivo construiu um dos maiores case de inclusão de pessoas com deficiência do país e é reconhecido como #1 em empregabilidade de pessoas com deficiência no capítulo brasileiro da Global Business Disability Network (OIT/ONU).

Artigos relacionados

O Brasil tem muitos fundos ou muito risco? O que os números realmente mostram

O Brasil lidera os rankings globais em número de fundos de investimento, mas essa estatística nem sempre é interpretada corretamente. O artigo analisa a diferença entre quantidade de veículos e volume de patrimônio administrado, discutindo por que a elevada quantidade de fundos pode refletir características regulatórias e de transparência do mercado brasileiro, e não necessariamente riscos associados à opacidade ou à ocultação patrimonial. Mais do que um debate sobre números, a reflexão propõe uma análise crítica sobre regulação, rastreabilidade e o papel da indústria de fundos no financiamento da economia.

O que o espírito do tempo está tentando nos dizer? Afeto, autonomia e o desafio de construir o futuro

A partir de referências históricas e filosóficas que atravessam de Hegel a Beethoven, o artigo propõe uma reflexão sobre os valores que parecem ganhar força na sociedade contemporânea. Em um cenário marcado por transformações políticas, sociais e culturais, temas como autonomia, propósito, afeto, pertencimento e responsabilidade compartilhada surgem como elementos centrais para compreender os desafios do presente.

Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de outubro de 2026 15H00
O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

Afonso Morais - Fundador do escritório Pardi e Morais Consultores Jurídicos e Criador e apresentador do podcast Falando de Fraudes

6 minutos min de leitura
Estratégia
27 de outubro de 2026 08H00
Na teoria, cada contato acontece no momento certo e segue o fluxo previsto. Na prática, volume, prioridades e limitações operacionais exigem adaptações constantes. O desafio das empresas não é criar estratégias perfeitas, mas garantir que elas resistam às pressões do dia a dia sem perder seu propósito original.

Guilherme Busch - VP da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de outubro de 2026 15H00
Quando a visibilidade se transforma em critério implícito de reconhecimento, profissionais podem passar a priorizar projetos que geram exposição em detrimento daqueles que realmente precisam ser feitos. O artigo explora como o loud working pode afetar a colaboração e a dinâmica das equipes.

João Paulo Batistella - Fundador e CEO da Eleva Technologies,

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
26 de outubro de 2026 08H00
De onde vem o termo, o que existe ao redor de um agente e por que transformar capacidade de raciocínio em trabalho confiável é uma decisão de gestão, não apenas de tecnologia.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Estratégia
25 de outubro de 2026 14H00
À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Daniela Camargo - Head of People & Culture da VOLL

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de outubro de 2026 08H00
Os efeitos das mudanças climáticas já são sentidos em diferentes regiões do planeta e tendem a se intensificar nas próximas décadas. Mais do que reagir aos desastres quando eles acontecem, o texto defende uma abordagem baseada em prevenção, planejamento e uso estratégico da tecnologia para reduzir vulnerabilidades e aumentar a capacidade de adaptação.

Álvaro Trilho - Diretor de Riscos da WTW Brasil

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
24 de outubro de 2026 14H00
A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Juliana Marinelli - Pesquisadora pHd de bem-estar digital

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
24 de outubro de 2026 08H00
Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

Andrea Kohlrausch,- Presidente da Calçados Bibi

2 minutos min de leitura
Educação
23 de outubro de 2026 15H00
O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de outubro de 2026 08H00
A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução