Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Liderança
5 minutos min de leitura

A nova ambidestria: liderar pessoas e orquestrar sistemas inteligentes ao mesmo tempo

O próximo desafio da liderança não é tecnológico - é aprender a liderar humanos e máquinas na mesma mesa.
Economista, palestrante, estrategista de negócios e conselheira. Fundadora da Trama, consultoria estratégica focada no crescimento de negócios, já ajudou mais de 1.000 empresas e produtos a escalarem com inteligência e impacto real. Com passagens por organizações como Cubo Itaú, Stefanini e Liga Ventures, e conselheira de empresas em crescimento. Foi reconhecida pela Exame como uma das 10 profissionais mais influentes em Open Innovation no Brasil e pela Wired como uma das 50 pessoas multiplicadoras de criatividade.

Compartilhar:

Como é que se gerencia, ao mesmo tempo, gente e agente? A pergunta tem aparecido em quase toda mesa de líder nesse semestre, e ela sinaliza o nascimento de uma competência que a literatura de gestão ainda não teve tempo de nomear direito. Eu venho chamando essa competência de nova ambidestria.

A escolha do nome não é gratuita. Partindo do pressuposto de que estamos indo para uma evolução de cenário, e não para um ajuste pontual, acredito que o conceito de ambidestria, que durante décadas descreveu a capacidade de uma empresa de equilibrar eficiência e inovação, vai ganhar uma roupagem diferente no que estamos vivendo agora. Não substitui o sentido antigo. Soma uma camada nova, mais palpável, mais cotidiana, mais ligada ao trabalho de gestão direta do que à mesa de planejamento estratégico.

No sentido clássico, a ambidestria organizacional sempre foi descrita nos livros de gestão como a capacidade de operar em dois modos ao mesmo tempo. De um lado, a exploração da eficiência, do previsível, do que já funciona. Do outro, a experimentação da inovação, do incerto, do que ainda está sendo construído. Ambidestra era a organização que conseguia segurar as duas frentes sem perder o equilíbrio entre o que dá receita hoje e o que vai dar receita amanhã. Esse sentido continua válido.

A camada nova, que tem aparecido nas conversas com C-levels e grandes lideranças executivas nos últimos meses, é outra. A ambidestria de 2026, para quem está na cadeira de gestão direta, virou também a habilidade de orquestrar dois tipos de força de trabalho ao mesmo tempo. Time humano de um lado, com tudo o que ele exige de feedback, mediação, escuta, cultura, política e cuidado. E time de agentes operacionais de IA do outro, com tudo o que eles exigem de prompt, contexto, governança, revisão e calibragem. Os dois lados precisam estar sob a mesma liderança, e essa liderança precisa saber traduzir entre os dois sem perder coerência.

Os dados ajudam a dimensionar o ponto. O levantamento do Gartner divulgado neste ano aponta que, até o final de 2026, cerca de 40% das aplicações corporativas estarão integradas a agentes específicos para tarefas, contra apenas 5% em 2025. Pesquisas recentes da McKinsey e da Deloitte indicam que o papel do gestor vem migrando, em ritmo acelerado, do gestor que controla execução para o gestor que orquestra capacidade, humana e técnica. Alguns autores estão chamando esse papel novo de “agent boss”, o líder que tem sob a sua agenda tanto pessoas quanto squads de agentes autônomos. O nome importa menos do que o fato. A função mudou, e a maioria das empresas ainda está promovendo gente pela régua antiga.

Aqui é onde entra o que mais me chama atenção nas conversas com lideranças que estão pisando no problema agora. As competências que fazem um bom orquestrador desse mundo novo não são as competências mais valorizadas no organograma tradicional. Não é a hard skill técnica que separa. É a capacidade de fazer três movimentos ao mesmo tempo. O primeiro é ler contexto e traduzir, porque o agente precisa de briefing claro e o humano precisa de propósito claro, e os dois pedem versões diferentes da mesma diretriz. O segundo é calibrar confiança em duas direções, porque quem é humano cobra escuta para se sentir confiável, e quem é agente cobra teste para ser confiável. O terceiro é segurar a coerência cultural quando metade da entrega é feita por “máquinas”. Esse último é o que mais tira o sono de executivos até agora fora dessa conversa, e o que vai virar pauta de retenção no segundo semestre.

O que as empresas estão fazendo com isso, na prática? Na maioria dos casos, ainda separando os dois mundos em estruturas paralelas. De um lado o time humano, com RH, política, performance. Do outro o time de agentes, com TI, governança, ROI. Como se fossem duas operações distintas, sob lideranças que não conversam. O problema é que a entrega real, no chão do dia, já não está mais separada. Ela é mista. E o gestor que cuida das duas pontas separadamente costuma descobrir, três meses depois, que a parte humana virou ressentida, que a parte automatizada virou ingovernável, e que ninguém é responsável por essa conta.

A pergunta que precisa estar na mesa do conselho deixou de ser se a empresa vai usar IA. Passou a ser quem na empresa vai aprender a orquestrar, de verdade, pessoas e agentes na mesma cadeira de liderança. Gestão ambidestra, no sentido novo do termo, não é privilégio nem futurismo. É a competência que vai separar, no próximo ciclo, as organizações que apenas adotaram tecnologia das que efetivamente integraram tecnologia ao trabalho.

Três movimentos ajudam quem está na cadeira agora. Mapear, em cada área, o que já é entrega mista e o que ainda é entrega só humana, para enxergar o tamanho real da operação. Redesenhar a régua de avaliação do gestor para incluir capacidade de orquestrar agentes, e não apenas pessoas. Treinar líderes para mediar confiança em duas direções, a humana e a técnica, porque é nesse cruzamento que o trabalho de fato acontece agora.

A travessia não é trocar humano por agente. É aprender a liderar os dois juntos. E quem entender isso primeiro vai descobrir, em pouco tempo, que tamanho de time deixou de ser indicador de força, e que orquestração virou o novo indicador de competência.

Compartilhar:

Economista, palestrante, estrategista de negócios e conselheira. Fundadora da Trama, consultoria estratégica focada no crescimento de negócios, já ajudou mais de 1.000 empresas e produtos a escalarem com inteligência e impacto real. Com passagens por organizações como Cubo Itaú, Stefanini e Liga Ventures, e conselheira de empresas em crescimento. Foi reconhecida pela Exame como uma das 10 profissionais mais influentes em Open Innovation no Brasil e pela Wired como uma das 50 pessoas multiplicadoras de criatividade.

Artigos relacionados

Para quem tem martelo, tudo é prego

Quando a IA vira solução antes de existir o problema, o resultado tende a ser irrelevante. Este artigo mostra por que o erro das empresas não está na tecnologia, mas na ordem das decisões

O que o Brasil pode aprender com a China sobre agilidade, acessibilidade e mentalidade empreendedora

Por que uma sociedade que partiu de uma base agrária se tornou referência global em execução ágil, iteração contínua e adaptação sistêmica? A resposta não está apenas em políticas industriais ou acesso a capital. Está em um código cultural que transforma simplicidade, memória organizacional e julgamento contextual em vantagem competitiva – e que cabe perfeitamente no radar da gestão brasileira. Este artigo apresenta cinco lições operacionais da China, com cases empresariais, dados de 2025-2026 e reflexões aplicáveis a conselheiros e executivos latino-americanos.

Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 13H00
Sua empresa tem um lab de inovação, patrocina hackathon e todo mundo fala em "mindset de crescimento". Mas o que, concretamente, mudou no seu modelo de negócio nos últimos dois anos?

Atila Persici Filho - CINO da Bolder e Professor FIAP

8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 07H00
Este artigo mostra como empresas de todos os portes podem acessar financiamentos e subvenções públicas para avançar em inteligência artificial sem comprometer o caixa, o capital ou as demais prioridades do negócio.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89

6 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de abril de 2026 14H00
Em um mundo onde algoritmos decidem o que vemos, compramos e consumimos, este artigo questiona até que ponto estamos realmente exercendo o poder de escolha no mundo digital. O autor mostra como a conveniência, combinada a IA, vem moldando nossas decisões, hábitos e até a nossa percepção da realidade.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de abril de 2026 08H00
Organizações recorrem a parcerias estratégicas para acessar tecnologia e expertise avançada, como a implantação de plataformas ERP em poucas semanas

Paulo de Tarso - Sócio-líder do Deloitte Private Program no Brasil

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de abril de 2026 15H00
A era da produtividade limitada pelo horário terminou. Enquanto ainda debatemos jornadas e turnos, a produtividade já opera 24x7. Este artigo questiona modelos mentais e estruturais que se tornaram obsoletos diante da ascensão dos agentes de inteligência artificial.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
27 de abril de 2026 07H00
Com a nova regulamentação prestes a entrar em vigor, saúde mental, riscos psicossociais e gestão contínua deixam de ser discurso e passam a integrar o centro das decisões corporativas.

Natalia Ubilla - Diretora de RH do iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de abril de 2026 15H00
Da automação total às baterias do futuro, ao longo do festival em Austin ficou claro que, no fim das contas, a inovação só faz sentido quando melhora a vida e o entendimento das pessoas

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura
Empreendedorismo
26 de abril de 2026 10H00
Este artigo propõe um novo olhar sobre inovação ao destacar o papel estratégico dos intraempreendedores - profissionais que constroem o futuro das empresas sem precisar abrir uma nova.

Tatiane Bertoni - Diretora da ACATE Mulheres e fundadora da DataforAll e SecopsforAll.

2 minutos min de leitura
Lifelong learning
25 de abril de 2026 14H00
Quando tecnologia se torna abundante e narrativas perdem credibilidade, a autenticidade emerge como o novo diferencial competitivo - e este artigo explica por quê.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
25 de abril de 2026 08H00
Um aviso que muita empresa prefere ignorar: nem todo crescimento é vitória. Algumas organizações sobem a régua do faturamento enquanto desmoronam por dentro - consumindo pessoas, previsibilidade e coerência.

Daniella Portásio Borges - CEO da Butterfly Growth

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão