Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
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A nova Era da saúde mental

Como a evolução regulatória pode redefinir a gestão de pessoas no Brasil
Fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas. Engenheira civil de formação, possui MBA Executivo pelo Insper e especialização em Empreendedorismo Social pelo Insead, escola francesa de negócios. Empreendedora, palestrante, TEDx Speaker e produtora de conteúdo sobre saúde mental e bem-estar, foi reconhecida em 2023 como LinkedIn Top Voice e, em 2024, como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina pela Bloomberg Linea.

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Nos últimos anos, o Brasil tem assistido ao crescimento silencioso de uma epidemia de adoecimento mental relacionada, direta ou indiretamente, ao trabalho. Em 2024, mais de 472 mil pessoas foram afastadas por transtornos psicológicos e comportamentais. Esse é o maior número já registrado na série histórica da Previdência Social. O custo humano é imenso, e o custo organizacional também.

Mas é importante dizer: o problema não começa nas empresas. Vivemos em um país profundamente desigual, violento e instável. O Brasil lidera há mais de uma década os rankings de transtornos mentais no mundo. Somos o país mais ansioso do planeta, o quinto mais depressivo e o segundo com maior prevalência de estresse crônico, segundo a OMS. 

Esses números não se explicam apenas pela cultura corporativa. Eles são reflexo do tecido social. E é justamente por isso que o cuidado com a saúde mental no ambiente de trabalho exige um novo olhar: mais amplo, mais responsável, mais estruturado.

Toda empresa no Brasil, ao contratar um colaborador, também contrata uma parte da sua história, muitas vezes marcada por traumas, violências, privações e contextos difíceis. É por isso que não faz mais sentido perguntar se o trabalho “causou” o sofrimento. O ponto é que o trabalho pode agravar, aliviar ou transformar esse sofrimento.

E, diante de um cenário tão desafiador, o papel das empresas evolui. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) em 2024, marca essa virada: ela exige que organizações de todos os portes identifiquem, avaliem e gerenciem riscos psicossociais no ambiente de trabalho — de forma planejada, contínua e baseada em evidências.

A norma reconhece que fatores como sobrecarga, metas abusivas, assédio, insegurança, baixa segurança psicológica, falta de reconhecimento e estilos de liderança tóxicos são detonadores de adoecimento mental. E cuidar disso não é apenas boa prática, é uma obrigação legal.

Essa mudança não é isolada. Ela vem acompanhada de uma série de avanços legislativos e institucionais que reforçam a importância do tema. A própria Lei 14.831/24, que criou o selo de Empresa Promotora da Saúde Mental, aponta na mesma direção: empresas não podem mais ser neutras quando se trata da saúde emocional de seus times.

Do ponto de vista econômico, os impactos são expressivos. Dados da Vittude, baseados em mais de 100 mil respondentes, mostram que 42% dos trabalhadores apresentam sofrimento mental moderado ou severo. Isso se traduz em mais absenteísmo, maior rotatividade, queda de produtividade e uso intensivo do plano de saúde, nem sempre com diagnósticos claros.

O sofrimento raramente chega com um atestado psiquiátrico. Ele aparece, muitas vezes, travestido de gastrite, crises de pânico, dores crônicas, doenças autoimunes, dermatites ou até mesmo paralisias faciais. E é aí que mora o custo invisível do presenteísmo: colaboradores que estão fisicamente presentes, mas com sua capacidade produtiva comprometida.

Dados do Censo de Saúde Mental da Vittude apontam que até 31% do tempo pago pelas empresas pode estar sendo desperdiçado por pessoas em sofrimento emocional. É como se fosse necessário manter 10 pessoas na folha para realizar o trabalho de 7. O presenteísmo é, provavelmente, o maior desperdício silencioso do mundo corporativo, e uma das métricas menos monitoradas.

A boa notícia é que tudo isso pode ser diferente. Empresas que adotam programas estruturados de saúde mental, com diagnóstico, plano de ação, metas e capacitação de lideranças, conseguem reduzir significativamente os índices de adoecimento, afastamento e turnover. 

Cuidar das pessoas melhora os resultados. Isso já está comprovado por dados, benchmarks e cases de sucesso em todo o país.

A NR-1 chega, portanto, como um catalisador de maturidade organizacional. Ela convida as empresas a saírem do improviso, da ação pontual, da campanha de setembro, e assumirem um papel mais estratégico, constante e preventivo.

Esse novo capítulo exige liderança. Exige coragem para rever processos, práticas e culturas. E exige comprometimento, não só com os indicadores de negócio, mas com a construção de um futuro de trabalho mais saudável, humano e sustentável.

A nova era da saúde mental nas empresas já começou. E como toda mudança estrutural, ela pode ser enfrentada com resistência ou com protagonismo. Quem escolher o segundo caminho não apenas estará em conformidade com a lei, estará também construindo vantagem competitiva.

Porque empresas saudáveis são feitas por pessoas saudáveis.

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