Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
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A pressão que não aparece no organograma: a carreira das mulheres exige mais remédios do que reconhecimento

Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade - estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.
CEO da Funcional, pioneira e líder no desenvolvimento de tecnologias para programas de suporte a pacientes no Brasil. Além disso, é membro do Conselho de Administração da Construtora Tenda, especializada em moradias populares, e da Allos, maior administradora de shopping centers da América Latina. Marilia ocupou cargos de liderança em diversos setores, tendo atuado como CEO da Hinode, da Ticket e como VP da TOTVS, além de ter sido sócia-diretora da Mãe Terra, empresa vendida para a Unilever em 2017. No terceiro setor, foi cofundadora e diretora-geral da Endeavor Brasil e da Fundação Brava. Possui mais de 20 anos de experiência em conselhos de administração de organizações como Santander Brasil, TOTVS, IBMEC, CVC, Inspirali, entre outras. É formada pela EAESP/FGV,

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Durante muito tempo, a trajetória profissional das mulheres foi tratada como uma prova de resistência. Resistir ao preconceito, à culpa, à sobrecarga. Como se sucesso fosse sinônimo de suportar mais – e, de preferência, em silêncio. Essa narrativa ajudou a explicar conquistas importantes, mas também criou um problema. Quando a resistência vira modelo, a exaustão passa a ser tratada como competência.

Carreira não deveria ser um teste de desgaste, mas sim processo de construção, aprendizado e responsabilidade ao longo do tempo. No entanto, mulheres ainda enfrentam uma equação desigual: espera-se alta performance profissional sem redução das demandas domésticas e pessoais. Liderar com empatia, manter firmeza, cuidar da família, administrar conflitos e demonstrar equilíbrio emocional, tudo ao mesmo tempo.

Essa soma invisível cria uma narrativa perigosa: a da supermulher, que dá conta de tudo sem falhar, e que tem um preço alto. A discussão sobre saúde mental no ambiente corporativo ganhou força nos últimos anos, especialmente quando observamos a realidade das mulheres. Não porque sejam mais frágeis, mas porque frequentemente operam sob menor margem de erro e maior acúmulo de papéis.

Os números ajudam a visualizar este contexto: dados da Funcional, com base nos usuários do Benefício Farmácia nos últimos dois anos, mostram que mulheres concentram 60% do consumo de antidepressivos e analgésicos e 50,6% dos sedativos e ansiolíticos. Não se trata de fragilidade feminina, mas de uma sobrecarga persistente que também se reflete nos indicadores de saúde.

O impacto também é visível no contexto de mulheres na liderança. Globalmente, o mandato médio de mulheres como CEO é cerca de três anos mais curto do que o de homens, e a presença feminina no comando das grandes empresas ainda é residual, conforme mapeamento global da Russell Reynolds. Não se trata apenas de acesso ao topo, mas da permanência na posição, especialmente quando o ambiente impõe mais cobranças com menos tolerância ao erro.

Esse é o ponto central: não é possível exigir excelência constante sem discutir as condições em que ela é exercida. Organizações que tratam diversidade apenas como pauta reputacional deixam de perceber seu valor estratégico. Ambientes plurais decidem melhor porque consideram perspectivas diferentes antes de consolidar escolhas.

Aprendi cedo que resistência, embora necessária, não pode ser o único recurso. Quando eu era muito jovem e passei a liderar equipes grandes, senti um tipo de desconfiança que muitas mulheres conhecem. Não estava relacionada à entrega, mas à identidade e à idade. O questionamento não vinha de forma direta, mas estava implícito, e naquele momento, a resposta não foi confronto, foi me preparar. Transformei desconforto em método: estudar mais, escutar melhor, aprofundar decisões e não tratar problema como paisagem. Com o tempo, compreendi que respeito não se impõe pelo cargo, se constrói pela consistência. 

Mas é preciso reconhecer: o fato de muitas mulheres precisarem desenvolver esse “método de resistência” não deveria ser naturalizado. Liderança sustentável não pode depender exclusivamente de resiliência individual, depende de estruturas mais equilibradas. Carreiras atravessam maternidade, rupturas, dúvidas e reinvenções. Tornar essas trajetórias visíveis não enfraquece a autoridade, mas fortalece a compreensão sobre o que significa liderar no mundo real. Liderança não é linear, e não precisa ser.

No Mês da Mulher, mais do que celebrar conquistas, é preciso repensar o que consideramos normal. Mulheres não precisam performar perfeição para serem respeitadas. A ambição feminina deve deixar de ser questionada e passar a ser reconhecida. Diversidade e saúde mental não são temas paralelos à gestão, são parte dela. Redes de apoio precisam ser reais, porque ninguém constrói uma trajetória sólida sozinha.

Resistir foi necessário, mas não pode ser o modelo permanente. Quando mulheres ocupam e permanecem nos espaços de decisão, o efeito é estrutural. Redefine critérios, amplia perspectivas e fortalece as organizações. Ser protagonista não é fazer barulho, mas sim fazer a diferença.

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