Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
3 minutos min de leitura

A pressão que não aparece no organograma: a carreira das mulheres exige mais remédios do que reconhecimento

Quando mulheres consomem a maior parte dos antidepressivos, analgésicos, sedativos e ansiolíticos dentro das empresas, não estamos falando de fragilidade - estamos falando de um modelo de liderança que normaliza exaustão como competência. Este artigo confronta a farsa da “supermulher” e questiona o preço real que elas pagam para sustentar ambientes que ainda insistem em chamá‑las de resilientes.
CEO da Funcional, pioneira e líder no desenvolvimento de tecnologias para programas de suporte a pacientes no Brasil. Além disso, é membro do Conselho de Administração da Construtora Tenda, especializada em moradias populares, e da Allos, maior administradora de shopping centers da América Latina. Marilia ocupou cargos de liderança em diversos setores, tendo atuado como CEO da Hinode, da Ticket e como VP da TOTVS, além de ter sido sócia-diretora da Mãe Terra, empresa vendida para a Unilever em 2017. No terceiro setor, foi cofundadora e diretora-geral da Endeavor Brasil e da Fundação Brava. Possui mais de 20 anos de experiência em conselhos de administração de organizações como Santander Brasil, TOTVS, IBMEC, CVC, Inspirali, entre outras. É formada pela EAESP/FGV,

Compartilhar:

Durante muito tempo, a trajetória profissional das mulheres foi tratada como uma prova de resistência. Resistir ao preconceito, à culpa, à sobrecarga. Como se sucesso fosse sinônimo de suportar mais – e, de preferência, em silêncio. Essa narrativa ajudou a explicar conquistas importantes, mas também criou um problema. Quando a resistência vira modelo, a exaustão passa a ser tratada como competência.

Carreira não deveria ser um teste de desgaste, mas sim processo de construção, aprendizado e responsabilidade ao longo do tempo. No entanto, mulheres ainda enfrentam uma equação desigual: espera-se alta performance profissional sem redução das demandas domésticas e pessoais. Liderar com empatia, manter firmeza, cuidar da família, administrar conflitos e demonstrar equilíbrio emocional, tudo ao mesmo tempo.

Essa soma invisível cria uma narrativa perigosa: a da supermulher, que dá conta de tudo sem falhar, e que tem um preço alto. A discussão sobre saúde mental no ambiente corporativo ganhou força nos últimos anos, especialmente quando observamos a realidade das mulheres. Não porque sejam mais frágeis, mas porque frequentemente operam sob menor margem de erro e maior acúmulo de papéis.

Os números ajudam a visualizar este contexto: dados da Funcional, com base nos usuários do Benefício Farmácia nos últimos dois anos, mostram que mulheres concentram 60% do consumo de antidepressivos e analgésicos e 50,6% dos sedativos e ansiolíticos. Não se trata de fragilidade feminina, mas de uma sobrecarga persistente que também se reflete nos indicadores de saúde.

O impacto também é visível no contexto de mulheres na liderança. Globalmente, o mandato médio de mulheres como CEO é cerca de três anos mais curto do que o de homens, e a presença feminina no comando das grandes empresas ainda é residual, conforme mapeamento global da Russell Reynolds. Não se trata apenas de acesso ao topo, mas da permanência na posição, especialmente quando o ambiente impõe mais cobranças com menos tolerância ao erro.

Esse é o ponto central: não é possível exigir excelência constante sem discutir as condições em que ela é exercida. Organizações que tratam diversidade apenas como pauta reputacional deixam de perceber seu valor estratégico. Ambientes plurais decidem melhor porque consideram perspectivas diferentes antes de consolidar escolhas.

Aprendi cedo que resistência, embora necessária, não pode ser o único recurso. Quando eu era muito jovem e passei a liderar equipes grandes, senti um tipo de desconfiança que muitas mulheres conhecem. Não estava relacionada à entrega, mas à identidade e à idade. O questionamento não vinha de forma direta, mas estava implícito, e naquele momento, a resposta não foi confronto, foi me preparar. Transformei desconforto em método: estudar mais, escutar melhor, aprofundar decisões e não tratar problema como paisagem. Com o tempo, compreendi que respeito não se impõe pelo cargo, se constrói pela consistência. 

Mas é preciso reconhecer: o fato de muitas mulheres precisarem desenvolver esse “método de resistência” não deveria ser naturalizado. Liderança sustentável não pode depender exclusivamente de resiliência individual, depende de estruturas mais equilibradas. Carreiras atravessam maternidade, rupturas, dúvidas e reinvenções. Tornar essas trajetórias visíveis não enfraquece a autoridade, mas fortalece a compreensão sobre o que significa liderar no mundo real. Liderança não é linear, e não precisa ser.

No Mês da Mulher, mais do que celebrar conquistas, é preciso repensar o que consideramos normal. Mulheres não precisam performar perfeição para serem respeitadas. A ambição feminina deve deixar de ser questionada e passar a ser reconhecida. Diversidade e saúde mental não são temas paralelos à gestão, são parte dela. Redes de apoio precisam ser reais, porque ninguém constrói uma trajetória sólida sozinha.

Resistir foi necessário, mas não pode ser o modelo permanente. Quando mulheres ocupam e permanecem nos espaços de decisão, o efeito é estrutural. Redefine critérios, amplia perspectivas e fortalece as organizações. Ser protagonista não é fazer barulho, mas sim fazer a diferença.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O engajamento não nasce das pessoas. Nasce do ambiente.

Muitas organizações ainda tratam o engajamento como uma característica individual, quando ele é, em grande parte, resultado do contexto que a liderança constrói. Este artigo mostra como confiança, autonomia, segurança psicológica e qualidade das relações influenciam diretamente a disposição das pessoas para inovar, colaborar e gerar resultados sustentáveis.

Aprendi que até no Japão as mulheres conseguem quebrar regras

Convidada pelo governo japonês para participar da primeira Convenção de Mulheres realizada no Japão, Chieko Aoki conta como uma experiência inesperada revelou a força da colaboração feminina e o impacto das redes de apoio na construção de lideranças.

Da produção à curadoria: a nova lógica da relevância digital

O avanço dos vídeos curtos, dos criadores digitais e da inteligência artificial transformou a forma como consumimos informação e entretenimento. O desafio das empresas agora não é apenas alcançar audiências, mas construir confiança, interpretar comportamentos e criar experiências capazes de permanecer na memória das pessoas.

Por que todos os líderes começaram a soar iguais?

A autenticidade virou commodity quando todo mundo aprendeu a soar autêntico do mesmo jeito. Este artigo explora como voz, vivência e consistência podem se tornar os principais diferenciais para líderes que desejam construir influência e confiança de forma genuína.

Bem-estar & saúde
6 de julho de 2026 09H00
Com a aceleração da inteligência artificial e a explosão de conteúdo, a liderança passa a exigir menos consumo de informação e mais capacidade de interpretar tendências, conectar contextos e tomar decisões em meio à complexidade.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

6 minutos min de leitura
ESG
5 de julho de 2026 14H00
O maior risco do ESG não está no “E” nem no “S”, mas na fragilidade da governança que deveria sustentar ambos. Este artigo mostra como a NBR ISO 37301 ajuda organizações a transformar ética, compliance e gestão de riscos em evidências concretas de maturidade ESG.

Fernando Palamone - CEO da RT-One

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
5 de julho de 2026 09H00
Enquanto as marcas continuam disputando atenção nos feeds, as conversas que realmente influenciam percepções e decisões migraram para espaços mais fechados e menos visíveis. Este artigo mostra por que o futuro da relevância pode estar justamente onde os algoritmos não alcançam.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

4 minutos min de leitura
Estratégia, Liderança
4 de julho de 2026 14H00
A Psicologia Positiva desafia uma crença comum nas organizações: a de que líderes geram resultados principalmente corrigindo falhas. A ciência sugere outro caminho, fortalecer aquilo que já funciona para ampliar desempenho, engajamento e resiliência.

Valter Bahia Filho - Autor, palestrante e consultor educacional

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
4 de julho de 2026 08H00
A partir de casos reais do agronegócio, este artigo mostra por que decisões baseadas em análises isoladas tendem a falhar e como a integração de múltiplas variáveis pode transformar a gestão de risco, dentro e fora do campo.

Kallil Chebaro - CEO e Head de Produto na Agscore

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Marketing & growth
3 de julho de 2026 15H00
Se o cliente já sabe tudo, o que ainda falta ao vendedor? Este artigo mostra como a tecnologia expôs o vendedor despreparado e como isso mudou o jogo das vendas.

Mari Genovez - CEO da Matchez

3 minutos min de leitura
Marketing & growth, Comunicação, Estratégia
3 de julho de 2026 08H00
Se a sua mensagem interna viralizar amanhã, você sustentaria o que disse?

Ana Paula Soares - Fundadora e diretora-geral da Encaso Assessoria

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
2 de julho de 2026 14H00
A digitalização do pós-obra pode transformar operações, reduzir custos e fortalecer a experiência do cliente no setor imobiliário. Este artigo mostra que as construtoras podem transformar o momento da entrega das chaves em inteligência, eficiência e vantagem competitiva.

Jean Ferrari - CEO da FastBuilt

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
2 de julho de 2026 08H00
Seu maior risco digital pode estar no bolso do seu colaborador. Este artigo revela por que a gestão da frota móvel deixou de ser uma questão operacional e passou a ser uma decisão estratégica de segurança e eficiência.

Stephanie Peart - Head da Leapfone

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
1º de julho de 2026 15H00
A liderança centrada no controle está perdendo espaço. Este artigo mostra como a capacidade de desenvolver autonomia será o principal diferencial das organizações do futuro.

Marcelo Neri - CEO, Mentor Executivo, Palestrante Internacional e Escritor

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo