Inovação

Ação dos agentes mantém ecossistema de inovação brasileiro ativo

Em entrevista, a diretora-presidente da Wylinka Ana Calçado fala sobre números, desafios e perspectivas para o futuro do setor de inovação com base científica
Maria Clara Lopes é colaboradora da revista HSM Management.

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Apesar de sinais de retrocesso nesse segmento, há vida e novidades no ecossistema de inovação brasileiro, porém com certa dificuldade de diálogo entre seus atores. É o que apontam os dados sobre o Brasil no ranking mundial Global Innovation Index.

Enquanto sua [edição de 2021](https://www.wipo.int/global_innovation_index/en/2021/) aponta o Brasil entre as seis economias emergentes que fazem parte do Top 100 clusters de ciência e tecnologia do mundo, ao observar os dados da pesquisa de 2019 no médio prazo, é possível constatar a dificuldade de converter a produção científica nacional em inovação patenteada. Isso porque, dos mais de 540 mil artigos publicados no País segundo o Global Innovation Index 2019, apenas 9 mil pedidos de patentes foram depositados no Brasil, representando apenas 1,6%.

Agentes do próprio ecossistema têm agido para acelerar esse processo. É o caso da [Wylinka](https://wylinka.org.br/), instituição sem fins lucrativos que atua no ecossistema de inovação de base científica e tecnológica, que atua diretamente nas universidades com programas de transferência de tecnologia ou transformação. Entre as ações que desenvolve estão mapeamentos tecnológicos, promoção de tecnologia e a formação de milhares de cientistas nacionais em empreendedorismo e inovação. Outra ação relevante é estabelecer parcerias com diversas instituições públicas e privadas.

Para saber um pouco mais sobre essas ações e seu impacto no ecossistema de inovação, __HSM Management__ entrevistou a diretora-presidente da Wylinka, [Ana Calçado](https://www.linkedin.com/in/ana-carolina-calcado/).

__HSM: O que diferencia o setor de pesquisa do Brasil?__

__Ana Calçado:__ A pesquisa brasileira se destaca no mundo inteiro. Nós somos reconhecidos pelo volume significativo de artigos publicados – respondemos por 3,2% de toda produção mundial – e pela qualidade dos resultados alcançados. Mesmo com os cortes na ciência, nos últimos cinco anos a pesquisa brasileira cresceu 32,2%, 5% a mais que o restante do mundo.

[Segundo estudo divulgado em junto pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, o CGEE, ligado ao Ministério de Ciências, Tecnologia e Inovação](https://revistapesquisa.fapesp.br/engrenagens-do-conhecimento/), os pesquisadores brasileiros têm se destacado também em outros países. Inclusive a perda de grandes mentes para a pesquisa internacional é uma das grandes consequências que observamos devido aos cortes de investimento na pesquisa.

Saúde e agricultura são dois setores de pesquisa que se destacam. Os dados de 2019 do Global Innovation Index mostraram que 2,4% das publicações mundiais sobre saúde são brasileiras. Nossos maiores destaques foram para a área de odontologia (11,8%), biologia e agricultura (6,5%) e imunologia e microbiologia (4%).

__HSM: Recentemente, o Congresso aprovou o remanejamento de verbas para P&D. Como o ecossistema de inovação reagiu a essa medida?__

__Ana Calçado:__ O ecossistema, de forma geral, reagiu com preocupação pois o governo é o principal investidor em inovação de base científica, especialmente nos estágios iniciais. E esse não foi o primeiro corte; o setor de ciência e tecnologia já vem sofrendo esses cortes há alguns anos. Este último piora o cenário.

__HSM: E quais as principais fontes de financiamento de pesquisa e inovação hoje no Brasil?__

__Ana Calçado:__ Existe uma diversidade de formatos de apoio e fomento à pesquisa no Brasil. Um olhar que podemos lançar para a forma de financiamento é analisar os aportes público e privado. Hoje, o Brasil é bastante dependente de financiamento público para colocar na rua as ações de pesquisa em inovação. De forma geral, os investimentos seguem a lógica que vemos neste gráfico.

![Ação dos agentes mantém ecossistema de inovação brasileiro ativo](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/2U0CGlNm9KR094tj6CK6Pu/0c8fbdaf9f1e5bd6124e42c96dc7ef93/Imagem1.png)

A pesquisa básica e os estágios iniciais de desenvolvimento de produtos são feitos via financiamento público, vindo do governo federal por meio do CNPq e da Capes, e pelas fundações de apoio à pesquisa (FAPs) estaduais. De forma bem ampla, é assim que ocorrem os apoios. Já a Finep aporta recursos em fases um pouco mais avançadas. Mas é importante ressaltar que existem diversas linhas de fomento que atendem a objetivos específicos. Já quando falamos em inserção de produtos inovadores no mercado, baseados em ciência, entra a lógica do capital privado.

Uma barreira que observamos é a de que o capital privado busca retorno de curto prazo e redução do risco de investimento. Muitas vezes isso é incompatível com o tipo de inovação que nasce a partir da ciência, empregando tecnologias de ponta. Buscando contornar essas barreiras, muitas empresas buscam linhas de financiamento público ou subsídio / isenção fiscal, como por exemplo, as linhas as oferecidas pela Finep e pela Embrapii para realizar seus projetos de inovação junto à comunidade acadêmica.

Apesar do último Global Innovation Index nos colocar em primeiro lugar na América Latina no indicador “investidores corporativos em P&D”, ainda há muito o que avançar. Se compararmos a indústria brasileira com países que se destacam na inovação, como China, EUA, estamos defasados.

A indústria brasileira depende da inovação para se manter competitiva e ela precisará tomar o risco do crescimento junto com os outros atores do ecossistema para que os recursos sejam bem empregados. Nos EUA, as empresas investem 4,8% da sua receita em P&D. Na China o número é bem menor – 0,94% da receita –, mas mais expressivo que no Brasil. Por aqui, [um levantamento feito recentemente pela Mobilização Empresarial pela Inovação](https://static.portaldaindustria.com.br/media/filer_public/97/a7/97a74ade-c3c6-4fdd-8fd5-ba21229e2d6c/032020_denegri_gtind_12mar20_v17_1.pdf) mostrou que a indústria mais tradicional no Brasil investe 0,13% da sua receita em P&D.

__HSM: Neste pós-pandemia, o Brasil tem questões sociais graves, desemprego e ainda os desafios climáticos para superar. Como o trabalho da Wylinka e dos demais programas de aceleração podem colaborar para as organizações e a própria sociedade lidarem com esses desafios? E, na sua opinião, qual o prognóstico para os próximos anos?__

__Ana Calçado:__ A inovação tem um papel central na resolução dos grandes problemas sociais e ambientais que estamos enfrentando. Como todo problema complexo, vai exigir de todos nós novos modos de fazer, quebrar padrões que reforçam desigualdades e desequilíbrios entre as ações dos humanos e o planeta.

Hoje, vemos os negócios de impacto surgindo com cada vez mais força. São empresas que nascem já trazendo o equilíbrio entre lucro e impacto positivo na sua lógica. Nascem com foco em resolver problemas locais, regionais ou até mesmo nacionais. Segundo dados da Pipe.Social, no Brasil, a quantidade de negócios que obedecem a essas características mais que dobraram de 2017 a 2021. No mundo, a quantidade de ativos de investimentos alocados exclusivamente em negócios de impacto subiu de 25 para 228 bilhões de dólares apenas de 2013 a 2018 (dados Global Impact Investment Network).

Além dos negócios de impacto, outra perspectiva otimista é a de criação de novos mercados. Empresas inovadoras dedicadas a gerar acesso a produtos e serviços para públicos que antes eram excluídos do mercado consumidor geram transformações sistêmicas duradouras. Com isso, elas promovem qualidade de vida e acesso a serviços e produtos essenciais para uma camada maior da população e, consequentemente, geram empregos, maior arrecadação para o estado e transformam cadeias produtivas, gerando infraestrutura, potencializando fornecedores e colocando cada vez mais pessoas na economia formal.

Um exemplo desse negócio de impacto focado na criação de novos mercados é o Vivenda, que está revolucionando as reformas de casas em periferias. Outro exemplo, esse do mercado mais tradicional, é o Nubank, que ao criar uma inovação tecnológica que incluiu milhares e milhares de novos consumidores antes desbancarizados, fomentou um ecossistema de fintechs que está mudando o mercado brasileiro nesse setor.

Enfim, com intenção e propósito, os prognósticos para a inovação como um motor de desenvolvimento podem ser muito positivos.

__HSM: Quais os passos que você sugere para uma empresa estar presente no ecossistema de inovação e colaborar com os programas de aceleração?__

__Ana Calçado:__ A empresa em si já é um ator muito importante do ecossistema. Existem diversas formas para colaborar com programas de inovação e o apoio é sempre bem-vindo. Coisas simples como se colocar disponível para dar mentorias, receber as startups em processo de validação para conhecer a empresa, falar sobre as suas demandas e oportunidades de parceria já são passos importantes no estreitamento do contato. Isso ajuda as startups, especialmente as de base científica, a desenvolver o olhar de mercado. Em contrapartida, a empresa acessa inovações e tecnologias que podem impulsionar seus resultados.

Aquelas empresas que desejam um contato mais estreito podem realizar seus programas de aceleração ou serem parceiras de programas de outras instituições como o Sebrae, a Wylinka, entre outros. Nessas parcerias é comum as empresas inscreverem seus desafios, direcionando a seleção de startups e tendo um acompanhamento mais próximo com elas durante as fases de desenvolvimento. Hoje existe uma diversidade de programas que permite às empresas escolherem aqueles que têm o enfoque mais alinhado às suas demandas.

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