Liderança
4 minutos min de leitura

Administrar um restaurante e uma multinacional é mais parecido do que parece

Após décadas em grandes empresas, o autor trocou a segurança da carreira corporativa pelo desafio de empreender na gastronomia. Nesta reflexão, mostra por que os princípios que sustentam uma multinacional - planejamento, processos, gestão financeira e foco no cliente - são exatamente os mesmos que garantem o sucesso de um restaurante.
Fundador dos restaurantes Figueira, Oliv e Pepper Jack

Compartilhar:

Passei muitos anos da minha carreira trabalhando em grandes empresas. Tive a oportunidade de atuar em organizações como Nestlé, Ambev, Unilever, Marisol, Hering e Portobello, sempre nas áreas de comercial, marketing e gestão. Ao longo dessa trajetória, investi bastante na minha formação. Fiz graduação, MBAs em Logística e Gestão de Qualidade e, mais tarde, um mestrado em Empreendedorismo.

Quando já tinha uns 40 anos, decidi mudar totalmente a rota, que já me garantia estabilidade e certezas, para ir atrás de um sonho antigo. Deixei as multinacionais e parti para um desafio completamente diferente: abrir meu primeiro restaurante. Um desejo que cultivei por anos, nutrido pela minha paixão pela gastronomia. A reação de amigos e familiares foi previsível, afinal, poucos entendiam por que alguém deixaria uma carreira consolidada para empreender em um ramo tão distinto. Muita gente imaginou que eu estava começando do zero. No entanto, a verdade é que levei comigo praticamente tudo o que aprendi nas grandes empresas e salas de aula.

Costumo dizer que administrar uma multinacional e um restaurante é exatamente a mesma coisa. O que muda é o tamanho da operação, obviamente. Contudo, os princípios da gestão continuam iguais. Planejamento, processos, indicadores, controle financeiro, estratégia comercial e posicionamento de mercado não pertencem a um segmento específico, eles são partes comuns e essenciais de qualquer negócio cujo objetivo seja crescer de forma sustentável.

Ao longo dos anos no mercado, ouvi muitos termos novos surgirem. Hoje falamos em KPIs, mídias sociais, transformação digital e tantas outras expressões que parecem revolucionárias. Mas, na essência, os objetivos e ferramentas para atingi-los continuam sendo os mesmos. Seguimos precisando entender os desejos e expectativas do público, identificar oportunidades, construir um plano de negócios consistente e acompanhar indicadores para tomar decisões. A tecnologia mudou a velocidade e a forma como fazemos isso, mas não substituiu os fundamentos, a base que precisamos sedimentar para sustentar a nossa construção. 

Talvez a maior diferença seja que um restaurante reúne desafios que normalmente estão separados em outros setores. Afinal, um restaurante é, ao mesmo tempo, uma indústria de transformação e uma empresa de serviços. Compramos matéria-prima, transmutamos ingredientes em um produto final e, poucos minutos depois, recebemos a avaliação do cliente. Em outros mercados, essa percepção pode levar dias ou semanas, já na gastronomia, ela acontece praticamente em tempo real, podendo ser observada pela expressão do cliente ao provar o prato. 

É por isso que acredito tanto em processos. Uma frase que gosto de repetir é que nós não gerenciamos pessoas; gerenciamos processos. São eles que ajudam as pessoas a entregar resultados consistentes em todas as etapas, seja qual for a área de atuação. Nos meus restaurantes, utilizamos fichas técnicas para praticamente tudo. Muita gente imagina que isso seja uma exclusividade da indústria, mas eu trouxe esse conceito das empresas onde trabalhei. A lógica é simples: se existe um padrão bem definido, existe qualidade, previsibilidade, controle de custos e redução de desperdícios. É exatamente o mesmo princípio utilizado para fabricar uma camiseta, um chocolate ou qualquer outro produto industrial. Sem padronização, fica muito mais difícil crescer.

Outro aprendizado importante foi entender que empreender não é apenas ter coragem para abrir um negócio, mas construir uma operação capaz de atravessar os momentos bons e os momentos difíceis. Vejo muitos empreendedores investirem todo o capital disponível na abertura da empresa e acreditarem que o sucesso dos primeiros meses vai durar para sempre. Infelizmente, nem sempre acontece assim. Todo negócio passa por um período de maturação. Existem sazonalidades, oscilações de mercado e despesas que nem sempre aparecem no planejamento inicial. Ter uma reserva financeira e acompanhar constantemente os indicadores faz toda a diferença. Persistência não significa apenas continuar trabalhando, mas também é ajustar a rota quando necessário, rever estratégias, negociar com fornecedores, controlar perdas e entender o que os números estão dizendo.

Por fim, existe algo que considero fundamental em qualquer empresa: nunca perder de vista a expectativa do cliente. Na gastronomia, costumo dizer que as pessoas não saem de casa apenas para comer. Elas querem celebrar um momento, encontrar amigos, comemorar uma data importante ou simplesmente se presentear depois de uma semana de trabalho. A comida precisa ser boa, mas para além dela, a experiência inteira precisa ser satisfatória. A recepção, o atendimento, o ambiente, o tempo de espera, a limpeza e organização e outras dezenas de pequenos detalhes que o cliente talvez nem perceba conscientemente, mas que influenciam completamente a percepção dele. É aqui que precisa morar o seu diferencial. Afinal, quando conseguimos entregar mais do que o cliente esperava, criamos algo que nenhuma planilha consegue medir completamente: a vontade de voltar. E é justamente essa fidelidade do público que sustenta um negócio no longo prazo, seja ele uma multinacional ou um restaurante.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O líder como jardineiro: a vantagem competitiva que cresce como um jardim

Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

Quando a tecnologia muda, o legado permanece

Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Quanto custa perder um cliente?

Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Se o colaborador tóxico sai, o problema vai embora com ele?

Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de agosto de 2026 09H00
Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Roberta Barros - Gerente de Strategy, Innovation & Ventures na Deloitte.

7 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
6 de agosto de 2026 17H00
Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

12 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de agosto de 2026 08H00
Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução