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Antes do CNPJ

Quem você é além do crachá? A partir de reflexões sobre protagonismo e evolução profissional, a autora mostra por que cultivar a própria identidade é essencial para permanecer relevante em qualquer cenário.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de atuar em organizações extraordinárias, participar de grandes transformações, construir projetos relevantes e conviver com líderes que ajudaram a moldar setores inteiros da economia. Em cada uma dessas experiências, uma reflexão foi se tornando cada vez mais evidente para mim: existe uma diferença profunda entre a carreira que construímos e os lugares pelos quais passamos.

Essa reflexão ganhou ainda mais força durante a escrita do livro Carreira é Ação: Como profissionais iguais a você assumiram o protagonismo e construíram carreiras extraordinárias, obra da qual tenho a honra de ser coautora. Ao analisar diferentes histórias de profissionais que alcançaram resultados relevantes em suas áreas de atuação, percebi que as trajetórias mais sólidas raramente foram resultado de um plano perfeito. Elas nasceram de algo muito mais consistente: a capacidade de assumir responsabilidade pela própria evolução.

Vivemos um momento em que cargos, empresas e setores inteiros estão sendo transformados por avanços tecnológicos, mudanças econômicas e novas dinâmicas sociais. Organizações surgem e desaparecem em velocidades cada vez maiores. Modelos de negócio são reinventados. Competências antes valorizadas tornam-se obsoletas em poucos anos. Nesse contexto, uma pergunta passou a me acompanhar com frequência:

Quem sou eu antes do CNPJ?

A pergunta parece simples, mas carrega uma profundidade que muitas vezes evitamos enfrentar. Durante anos, associamos nossa identidade profissional às organizações das quais fazemos parte. Apresentamo-nos pelos cargos que ocupamos, pelos crachás que carregamos e pelas marcas que estampamos em nossos perfis. Em muitos casos, passamos tanto tempo fortalecendo a identidade institucional que deixamos de fortalecer nossa própria identidade profissional.

Quando isso acontece, surge uma dependência silenciosa. A sensação de valor passa a estar vinculada ao reconhecimento externo. A segurança passa a depender da empresa. O senso de relevância passa a depender do cargo. E, pouco a pouco, deixamos de investir naquilo que verdadeiramente nos acompanha em qualquer cenário: nosso repertório, nossos valores, nossa capacidade de aprender, nossa visão de mundo e nossa habilidade de gerar impacto.

O que sustenta uma trajetória não é a instituição à qual estamos ligados, mas a combinação de valores, repertório e visão construída ao longo do tempo.

Essa constatação torna-se ainda mais importante quando observamos a velocidade das mudanças que estamos vivendo. Nunca tivemos tantas oportunidades para reinventar carreiras. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil permanecer ocupado sem necessariamente estar evoluindo.

Existe uma crença amplamente difundida de que estabilidade profissional significa permanecer na mesma direção pelo maior tempo possível. No entanto, a experiência me mostrou algo diferente. O maior risco profissional não é mudar de direção, mas passar anos sem refletir se a direção ainda faz sentido.

Muitas pessoas confundem permanência com consistência. Permanecer pode ser apenas uma forma confortável de evitar decisões difíceis. Consistência, por outro lado, exige reflexão constante. Exige coragem para revisar premissas, questionar escolhas antigas e reconhecer quando um caminho que fez sentido no passado já não representa mais quem nos tornamos.

A maturidade profissional não está em nunca mudar. Está em saber por que mudamos e para onde estamos indo.

Ao longo dos anos, observei que profissionais extraordinários possuem uma característica em comum. Eles tratam suas carreiras da mesma forma que grandes organizações tratam suas estratégias. Não reagem apenas aos acontecimentos. Criam intencionalidade. Fazem escolhas conscientes. Definem prioridades. Constroem capacidades. Desenvolvem diferenciais. Revisitam continuamente seus objetivos.

Estratégia não é velocidade, é direção.

Essa talvez seja uma das lições mais importantes para uma geração que vive cercada pela pressão da urgência. Existe uma valorização excessiva da aceleração. Somos constantemente incentivados a fazer mais, produzir mais, assumir mais responsabilidades e ocupar mais espaço. Entretanto, raramente somos incentivados a refletir se tudo isso está nos aproximando daquilo que realmente queremos construir.

Uma carreira relevante não é resultado de movimentos espetaculares realizados em momentos isolados. Ela é consequência de centenas de pequenas decisões acumuladas ao longo dos anos. As leituras que escolhemos fazer. As competências que decidimos desenvolver. Os projetos que aceitamos liderar. As conversas que buscamos ter. As pessoas com quem escolhemos aprender. Os valores que nos recusamos a negociar.

Grandes trajetórias nascem da soma de pequenas escolhas conscientes feitas ao longo do tempo.

Quando observo os profissionais que permanecem relevantes independentemente das transformações tecnológicas, das mudanças de mercado ou das oscilações econômicas, percebo que eles compartilham uma característica essencial. Eles investem continuamente em algo que nenhuma organização pode oferecer integralmente: a construção da própria identidade.

Eles entendem que a carreira não é um destino. É uma prática permanente de autoconhecimento, aprendizado e reinvenção.

Talvez por isso eu acredite que uma das maiores responsabilidades que temos não seja apenas administrar nossa agenda profissional, mas cultivar quem estamos nos tornando ao longo dessa jornada. Porque os cargos mudam. As empresas mudam. Os mercados mudam. As tecnologias mudam. O que permanece é aquilo que construímos dentro de nós.

Por isso, se existe uma reflexão que gostaria de deixar ao final desta conversa, é a mesma que inspirou grande parte da minha contribuição para este livro:

Cultive seu CPF; honre seu nome e seu sobrenome. Porque, no final, o que sustenta uma carreira não é o cargo, e sim a clareza sobre quem você escolhe se tornar.

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Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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