Marketing
5 minutos min de leitura

Antes do CNPJ

Quem você é além do crachá? A partir de reflexões sobre protagonismo e evolução profissional, a autora mostra por que cultivar a própria identidade é essencial para permanecer relevante em qualquer cenário.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Compartilhar:

Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de atuar em organizações extraordinárias, participar de grandes transformações, construir projetos relevantes e conviver com líderes que ajudaram a moldar setores inteiros da economia. Em cada uma dessas experiências, uma reflexão foi se tornando cada vez mais evidente para mim: existe uma diferença profunda entre a carreira que construímos e os lugares pelos quais passamos.

Essa reflexão ganhou ainda mais força durante a escrita do livro Carreira é Ação: Como profissionais iguais a você assumiram o protagonismo e construíram carreiras extraordinárias, obra da qual tenho a honra de ser coautora. Ao analisar diferentes histórias de profissionais que alcançaram resultados relevantes em suas áreas de atuação, percebi que as trajetórias mais sólidas raramente foram resultado de um plano perfeito. Elas nasceram de algo muito mais consistente: a capacidade de assumir responsabilidade pela própria evolução.

Vivemos um momento em que cargos, empresas e setores inteiros estão sendo transformados por avanços tecnológicos, mudanças econômicas e novas dinâmicas sociais. Organizações surgem e desaparecem em velocidades cada vez maiores. Modelos de negócio são reinventados. Competências antes valorizadas tornam-se obsoletas em poucos anos. Nesse contexto, uma pergunta passou a me acompanhar com frequência:

Quem sou eu antes do CNPJ?

A pergunta parece simples, mas carrega uma profundidade que muitas vezes evitamos enfrentar. Durante anos, associamos nossa identidade profissional às organizações das quais fazemos parte. Apresentamo-nos pelos cargos que ocupamos, pelos crachás que carregamos e pelas marcas que estampamos em nossos perfis. Em muitos casos, passamos tanto tempo fortalecendo a identidade institucional que deixamos de fortalecer nossa própria identidade profissional.

Quando isso acontece, surge uma dependência silenciosa. A sensação de valor passa a estar vinculada ao reconhecimento externo. A segurança passa a depender da empresa. O senso de relevância passa a depender do cargo. E, pouco a pouco, deixamos de investir naquilo que verdadeiramente nos acompanha em qualquer cenário: nosso repertório, nossos valores, nossa capacidade de aprender, nossa visão de mundo e nossa habilidade de gerar impacto.

O que sustenta uma trajetória não é a instituição à qual estamos ligados, mas a combinação de valores, repertório e visão construída ao longo do tempo.

Essa constatação torna-se ainda mais importante quando observamos a velocidade das mudanças que estamos vivendo. Nunca tivemos tantas oportunidades para reinventar carreiras. Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil permanecer ocupado sem necessariamente estar evoluindo.

Existe uma crença amplamente difundida de que estabilidade profissional significa permanecer na mesma direção pelo maior tempo possível. No entanto, a experiência me mostrou algo diferente. O maior risco profissional não é mudar de direção, mas passar anos sem refletir se a direção ainda faz sentido.

Muitas pessoas confundem permanência com consistência. Permanecer pode ser apenas uma forma confortável de evitar decisões difíceis. Consistência, por outro lado, exige reflexão constante. Exige coragem para revisar premissas, questionar escolhas antigas e reconhecer quando um caminho que fez sentido no passado já não representa mais quem nos tornamos.

A maturidade profissional não está em nunca mudar. Está em saber por que mudamos e para onde estamos indo.

Ao longo dos anos, observei que profissionais extraordinários possuem uma característica em comum. Eles tratam suas carreiras da mesma forma que grandes organizações tratam suas estratégias. Não reagem apenas aos acontecimentos. Criam intencionalidade. Fazem escolhas conscientes. Definem prioridades. Constroem capacidades. Desenvolvem diferenciais. Revisitam continuamente seus objetivos.

Estratégia não é velocidade, é direção.

Essa talvez seja uma das lições mais importantes para uma geração que vive cercada pela pressão da urgência. Existe uma valorização excessiva da aceleração. Somos constantemente incentivados a fazer mais, produzir mais, assumir mais responsabilidades e ocupar mais espaço. Entretanto, raramente somos incentivados a refletir se tudo isso está nos aproximando daquilo que realmente queremos construir.

Uma carreira relevante não é resultado de movimentos espetaculares realizados em momentos isolados. Ela é consequência de centenas de pequenas decisões acumuladas ao longo dos anos. As leituras que escolhemos fazer. As competências que decidimos desenvolver. Os projetos que aceitamos liderar. As conversas que buscamos ter. As pessoas com quem escolhemos aprender. Os valores que nos recusamos a negociar.

Grandes trajetórias nascem da soma de pequenas escolhas conscientes feitas ao longo do tempo.

Quando observo os profissionais que permanecem relevantes independentemente das transformações tecnológicas, das mudanças de mercado ou das oscilações econômicas, percebo que eles compartilham uma característica essencial. Eles investem continuamente em algo que nenhuma organização pode oferecer integralmente: a construção da própria identidade.

Eles entendem que a carreira não é um destino. É uma prática permanente de autoconhecimento, aprendizado e reinvenção.

Talvez por isso eu acredite que uma das maiores responsabilidades que temos não seja apenas administrar nossa agenda profissional, mas cultivar quem estamos nos tornando ao longo dessa jornada. Porque os cargos mudam. As empresas mudam. Os mercados mudam. As tecnologias mudam. O que permanece é aquilo que construímos dentro de nós.

Por isso, se existe uma reflexão que gostaria de deixar ao final desta conversa, é a mesma que inspirou grande parte da minha contribuição para este livro:

Cultive seu CPF; honre seu nome e seu sobrenome. Porque, no final, o que sustenta uma carreira não é o cargo, e sim a clareza sobre quem você escolhe se tornar.

Compartilhar:

Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Artigos relacionados

RH: como contratar para profissões que ainda estão mudando?

À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Você está ai? O silêncio digital no expediente virou estratégia de produtividade

A disponibilidade constante passou a ser confundida com produtividade. Mas, enquanto profissionais são cobrados por respostas rápidas, cresce a necessidade de concentração para realizar atividades que exigem análise, criatividade, julgamento e tomada de decisão. O artigo propõe uma reflexão sobre o valor do silêncio digital no trabalho, mostrando por que organizações que desejam melhores resultados precisam aprender a proteger a atenção das pessoas, e não apenas monitorar sua presença online.

Inspirar o mercado é diferente de copiar

Mais do que proteger ideias, a discussão convida empresas a construírem uma cultura em que o pioneirismo sirva de estímulo para novas criações, e não de atalho para replicar o trabalho de quem inovou primeiro.

O fim da educação cega: Learner 360 – uma nova forma de enxergar quem aprende

O artigo discute por que a personalização da aprendizagem exige ir além dos indicadores tradicionais e apresenta o conceito de Learner 360, uma proposta para construir uma visão mais integrada, dinâmica e significativa do aprendiz, capaz de apoiar decisões educacionais mais precisas e trajetórias de desenvolvimento verdadeiramente centradas no indivíduo.

O futuro do trabalho será criativo, conectado e escalável

A IA vai tirar empregos ou reinventar o trabalho? A pergunta mais comum sobre inteligência artificial ainda gira em torno da substituição de empregos. O artigo propõe uma reflexão sobre o futuro das carreiras, questionando a estrutura tradicional das organizações e defendendo um modelo em que pessoas se concentram cada vez mais em criar, conectar, verificar e escalar, enquanto a IA assume grande parte das atividades operacionais.

Estratégia e Execução
13 de setembro de 2026 14h00
Os movimentos recentes de Art’G e Belmont Emeralds revelam estratégias de geração e captura de valor

Adriana Salles Gomes

0 min de leitura
Inovação & estratégia
13 de setembro de 2026 08H00
Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Andréia Rengel - CEO e sócia da AMcom

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
12 de setembro de 2026 14H00
Em um ambiente empresarial cada vez mais orientado por dados, o people analytics permite que o RH amplie sua influência nas decisões corporativas.

Gabriela Resende - Diretora de Operações de Recursos Humanos da Propay

5 minutos min de leitura
User Experience, UX
12 de setembro de 2026 09H00
Uma experiência ruim não gera apenas insatisfação. Ela aumenta custos operacionais, compromete a reputação da marca, reduz receitas futuras e pode encerrar relacionamentos construídos ao longo de anos.

Tâmara Lira - CFO da Paschoalotto

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de setembro de 2026 14H00
Rotular profissionais como tóxicos pode encerrar uma conversa, mas raramente resolve o problema. Ao investigar como comportamentos se formam e se repetem nas organizações, o artigo convida líderes a substituírem julgamentos rápidos por diagnósticos mais profundos e eficazes.

Marta Ferreira

7 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
11 de setembro de 2026 08H00
Mais do que dominar ferramentas, o desafio da liderança passou a ser tomar decisões, engajar pessoas e construir crescimento em um ambiente de incerteza permanente.

Eduardo Raffaini - Sócio-líder de Soluções de Strategy da Deloitte

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
10 de setembro de 2026 18H00
Discordâncias fazem parte de qualquer equipe diversa, mas nem sempre encontram espaço para serem expressas. O verdadeiro risco para as organizações não está no excesso de conflitos, mas na ausência deles.

Cecília Seabra e Thaís Giuliani - Consultoras HSM e autoras do livro "O 'E' da questão

2 minutos min de leitura
Finanças, Estratégia
10 de setembro de 2026 12H00
Sua estratégia está no PowerPoint ou no orçamento? No trimestre em que o plano de 2027 ganha aprovação, uma disputa invisível acontece dentro das empresas. De um lado, a estratégia que promete transformação. Do outro, o orçamento que preserva as prioridades de sempre. Quase sempre, é a planilha que decide o vencedor.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
10 de setembro de 2026 08H00
As declarações recentes dos líderes da OpenAI e da NVIDIA reacenderam uma das discussões mais importantes da era digital: a Inteligência Artificial Geral já é uma realidade? Ao conectar os avanços mais recentes da IA às previsões feitas por Ray Kurzweil décadas atrás, o artigo explora não apenas a evolução da tecnologia, mas também o desafio humano, organizacional e social de acompanhar uma transformação que pode estar acontecendo mais rápido do que imaginávamos.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

16 minutos min de leitura
Liderança, ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 14H00
Ao relatar uma experiência marcante durante sua recuperação de uma cirurgia, o autor provoca uma reflexão sobre um erro recorrente nas organizações: confiar mais naquilo que é visível do que na experiência de quem vive o problema. Quando líderes ignoram relatos e se apoiam apenas em protocolos e percepções, perdem informação, confiança e capacidade de tomar melhores decisões.

Djalma Scartezini - CEO da REIS, Sócio da Egalite e Embaixador do Comitê Paralímpico Brasileiro

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução